Um retrato da gestação adolescente 0 716

Graças a informações coletadas em consultórios, apresentadas em recente congresso da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp), foi possível traçar este panorama, que mostra quem são e como agem as jovens mães brasileiras

A gestação na adolescência é um tema delicado, e é preciso saber mais para oferecer o melhor suporte e direcionamento às milhares de meninas-mulheres que engravidam por ano no Brasil.

Por meio de informações coletadas no dia a dia de clínicas particulares e hospitais públicos, foi possível a alguns médicos discorrer sobre o tema durante o XIV Congresso Paulista de Obstetrícia e Ginecologia: os Drs. Marco Aurélio Knippel Galletta, Thiago Falbo Guazzelli, Adriana Lippi Waissman e Cristina Aparecida Falbo Guazzelli foram os responsáveis por uma elucidativa e, por vezes, surpreendente mesa redonda.

Esse mapeamento foi preparado tendo por base o trabalho deles. Trata-se de um retrato da gestação adolescente no Brasil: números, aspectos psicológicos e comportamentais – reflexos de despreparo, inexperiência e incertezas dessas jovens mães, que por vezes parecem contar com a sorte, mas que não perdem a esperança nunca.

Anticoncepção

60% das meninas-mães afirmam nunca utilizar nenhum método anticoncepcional. Elas iniciam a vida sexual geralmente aos 14 anos e engravidam cerca de um ano depois.

“Estimulamos a mãe a levar a adolescente ao atendimento ginecológico antes mesmo dela começar a vida sexual”, afirma a Dra. Cristina Aparecida Falbo Guazzelli. Entretanto, apenas 12,9% das meninas que vão pela primeira vez ao consultório nunca tiveram relação sexual e – um índice alarmante – 47,8% delas já teve uma ou mais gestações.

Para ela, é preciso orientar sobre o sexo seguro e deixar claro que o anticoncepcional não interfere no crescimento e desenvolvimento da garota, e que a hora certa de começar a tomá-lo é quando há o risco de gravidez.

Levantamento feito no Hospital das Clínicas com quase 2 mil pacientes e apresentado pelo Dr. Marco Aurélio Knippel Galletta mostra dados semelhantes: a primeira relação ocorre entre 14 e 15 anos (sendo que 54% alegam tê-la por afeto), 75% com o companheiro.

Todas as adolescentes dessa amostra sabiam que podiam engravidar, 92% conhecem algum método anticonceptivo e 60% usaram o método alguma vez, mas deixaram de usar porque “comigo não ia acontecer”. Surpreendentemente, 25% afirmam ter “planejado” a gravidez.

Segundo as meninas, a primeira relação acontece desprotegida por insistência do rapaz. E, para elas, isso não é tão ruim, já que o não uso da camisinha representaria a fidelidade dele.

Essa não é uma realidade apenas das classes mais pobres – o anticonceptivo mais usado por jovens de colégios particulares de São Paulo é a pílula do dia seguinte.

Quem é a adolescente que engravida

O Brasil possui hoje 35 milhões de adolescentes, e 28% dos recém-nascidos são filhos de parte delas.

O estudo do Dr. Galletta mostrou também que a adolescente que engravida tem, em média, 16 anos, pouco mais da metade tem o 2º grau incompleto (58,4%) e é solteira (51,3%).

Psicologicamente, alguns dos fatores que levariam a adolescente a engravidar, ainda que não conscientemente, seriam a perda de sua identidade infantil, a ansiedade por crescer e ser “dona do próprio nariz”, a fantasia, a onipotência, a busca por limites e o imediatismo.

A adolescente, a família e a sociedade

Geralmente, essas adolescentes têm uma família com histórico delicado – 12% já viveram o falecimento de um dos pais e apenas 37% afirmam que os pais têm uma união estável. O pai é, na maioria das vezes, a figura ausente desse quadro: 31% possuem relação inexistente com o pai, enquanto essa taxa é de apenas 1,4% em relação à mãe.

Financeiramente, elas demonstram a inocência típica das meninas: 43% nem conhecem a renda familiar ao engravidar, 38% achavam que o padrão de vida não mudaria com a chegada de um bebê e apenas 9% demonstravam preocupação financeira.

Para a gestante adulta, é exatamente essa questão financeira que gera stress. Já para a adolescente, o maior causador dele é ter que contar aos pais sobre a gravidez.

Na escola, há uma rede de informações. A adolescente começar a mudar seu comportamento gradualmente – uso de roupas largas, cadernos sobre a barriga, retraimento social – é o sinal de que está grávida. Ela se aproxima das outras meninas que já engravidaram, e o chá de bebê é a iniciação nesse novo grupo social, o de “mães”, que tem se tornado um evento comum nas escolas. A repetência passa a ser aceita, afinal, ela é ocupada, ela agora é mãe.

 A tela imita a vida

Há filmes que abordam com sagacidade e boa dose de realismo a gravidez na adolescência:

“Juno”, EUA, 2007 (direção: Jason Reitman)

Juno (Ellen Page) é uma adolescente que engravida de maneira inesperada de seu colega de classe Bleeker (Michael Cera). Com a ajuda de sua amiga Leah (Olivia Thirlby) e o apoio de seus pais, ela conhece um casal que está disposto a adotar seu filho, que ainda nem nasceu.

“Meninas”, Brasil, 2006 (direção: Sandra Werneck)

Evelin, 13 anos, está grávida de um jovem de 22 anos que deixou o tráfico de drogas recentemente. Luana, 15 anos, declara que planejou sua gravidez, pois desejava ter um filho só para ela. Edilene, 14 anos, espera um filho de Alex, que também engravidou sua vizinha Joice. Ao longo de um ano, é acompanhado o cotidiano dessas três jovens.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

As + Acessadas