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Prestes a se despedir das narrações em tevê aberta, Galvão Bueno se prepara para o Mundial do Catar

As palavras acompanham Galvão Bueno há quase 50 anos diante das câmeras. Mas são justamente elas que estão em falta ultimamente ao narrador, em geral extremamente verborrágico. Prestes a se despedir de mais de 40 anos de história na Globo, Galvão é econômico ao vislumbrar como serão os próximos meses durante sua derradeira participação como narrador em Copa do Mundo. A voz por trás de conquistas inesquecíveis da Seleção Brasileira, como 1994 e 2002, encerrará um importante ciclo no dia 18 de dezembro, após a grande final do Mundial do Catar.

“Sempre vivi de juntar palavras e vender emoções, mas as palavras já estão me faltando. Como posso imaginar como será o último jogo no dia 18 de dezembro? Espero apenas que a Seleção esteja do meu lado e lutando pelo hexa. Vai ser um momento muito forte e importante da minha vida”, explica.

Galvão, de 72 anos, faz parte do elenco da Globo desde 1981. A Copa do Catar será sua 13ª participação em mundiais. Sua trajetória em Copas, inclusive, começou antes mesmo de sua chegada à emissora da família Marinho. O narrador estreou no evento esportivo em 1974, quando a competição aconteceu na Alemanha. A partir de 1978, ele sempre esteve nos países-sede para comandar as transmissões “in loco”. “Agradeço demais o carinho e a parceria de todos. Não só do pessoal do microfone, mas todos da equipe que estiveram comigo. Tem gente que está comigo há mais de 40 anos e vão estar comigo até o final em dezembro”, valoriza.

A Copa do Catar marcará sua aposentadoria da função de narrador na televisão. Você já consegue imaginar como será esse momento derradeiro?
A pergunta a que eu mais tenho respondido é como estou me preparando, o que vou falar, como vai ser a final, qual será minha última frase… As palavras, na verdade, já começaram a me faltar. Como posso imaginar o que vou falar quando terminar o último jogo no dia 18 de dezembro? O que eu peço, se posso ter um presente depois de 13 Copas do Mundo e quase 50 anos de televisão, é que a Seleção Brasileira esteja ao meu lado no dia 18 de dezembro. Vou me emocionar lá. Se sair gol, nem sei se vou gritar gol, se vou chorar… Não faço ideia do que vai acontecer. Mas será um momento muito forte e importante da minha vida. Vou completar 50 anos de televisão e eu sempre vivi de juntar palavras.

Como assim?
Sempre vivi de juntar palavras, vender emoções e ser um equilibrista. Vou juntando as palavras, tentando pegar as emoções e passando para quem está assistindo. Tudo isso sem fugir da realidade dos fatos. Vou buscando a emoção de um lado, mas sem esquecer a realidade dos fatos do outro. Por isso, digo que sou um equilibrista. Andar no fio da navalha o tempo inteiro. E o equilibrista toma seus tombos. Claro que toma. O importante é tomar o tombo, respirar e seguir. Isso acontece em qualquer segmento da vida.

Como você analisa o fim desse ciclo tão longevo na Globo?
A Globo é minha casa há 41 anos. Brinco com pessoas da família Marinho que me acho até no direito de falar que sou da família (risos). Aqui me sinto bem, me realizo, fiz minha vida. Vou ficar eternamente ligado. Olha, não tem nada de contrato vitalício. Se tem, não me avisaram. Não tem nada disso. Vou viver a emoção da minha última Copa e não farei mais nada em televisão aberta se não for na Globo. Estamos conversando sobre algumas participações pontuais.

De que forma?
Estamos conversando para permanecer e eu tenha a felicidade de ficar mais um tempinho fazendo coisas pontuais. Não existe contrato e nem tem nada assinado ainda. Estamos conversando. Não será narração. Não narro mais. Minha última narração será dia 18 de dezembro, na final da Copa do Mundo. Mas um programa aqui, uma participaçãozinha ali, um convite para falar umas bobagens nas Olimpíadas… Algo nesse sentindo. A ideia geral é essa. Tenho um projeto de vida já realmente na rua nesse mundo virtual. Um mundo novo. Vamos estar aí sem exclusividade para cá ou para lá. Se essas coisas se realizarem, vou me sentir muito contente.

Apesar de ser muito lembrado pelas narrações e transmissões esportivas, você também comanda o “Bem, Amigos”, que ocupa uma faixa nobre do Sportv nas noites de segunda. Como o programa se encaixa na sua trajetória na tevê?
O “Bem, Amigos” está completando 20 anos. É uma coisa muito ligada a mim e a todos que participam do programa. Gosto muito quando, na terça, os programas são pautados pelo que foi dito no “Bem, Amigos” na noite de segunda. É uma produção que vem desde o início do Sportv. Eu, Luís Roberto e Cléber Machado chegamos para fazer três programas no canal. O Luís fazia o “Redação” pela manhã, o Cléber o “Arena” na hora do almoço e eu o “Bem, Amigos” na segunda. Continuamos todos no Sportv até hoje. O canal faz parte das nossas vidas.

Mas terá alguma edição especial para a despedida do “Bem, Amigos” da grade?
O programa nunca foi apresentado na Globo, na tevê aberta mesmo. O último programa será no dia 14 de novembro. O Campeonato Brasileiro acaba dia 13. Acredito que, se eu não vou mais estar, seria esquisito alguém apresentando um programa e falando “bem, amigos”. Seria algo complicado. Com isso, a Globo me deu um presente. O último programa irá ao ar, ao vivo, na Globo e no Sportv ao mesmo tempo. No dia 14, o programa sai dos estúdios tradicionais e será apresentado dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. Vão montar um cenário especial. Vamos ter muita gente importante e bacana que andou pelo programa, como grandes atletas, jogadores e músicos.

Seu último grande evento esportivo foram as Olímpiadas de Tóquio, que aconteceram no ano passado. Por conta da pandemia, a cobertura foi feita diretamente do Brasil. Como foi essa experiência de transmitir o evento de forma remota?
Foi a primeira vez que eu fiz uma Olímpiada sem estar no local e todo o trabalho foi montado em função disso. Eu tinha bastante medo de fazer as Olímpiadas. Nós tínhamos a obrigação de trazer Tóquio para o Brasil. E a obrigação de levar o Brasil para Tóquio. Os estúdios construídos ajudaram muito a entrar nesse clima. Agora, vou ter a felicidade de estar lá (Catar), mas de uma forma diferente. Vai ser minha última vez transmitindo uma Copa do Mundo em televisão. Isso começou em 1974, quando eu ainda fiz a Copa direto do Brasil. A partir de 1978, sempre estive nos países sede da Copa do Mundo.

Este ano, por conta de o evento ser realizado no final do ano, a Copa do Mundo acontece logo após as eleições. Você acredita que isso influencia de alguma forma no Mundial?
Não sou daqueles que acha que o futebol vai resolver os problemas do país. Muito longe disso, mas espero que nos faça bem para a alma. A coisa anda complicada. Estamos em um momento de tanta dificuldade.

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