Entre linhas e agulhas 0 1224

Empresária Regina Salomão fala sobre a moda brasileira e seus desafios

Se hoje em dia as moças não sabem mais costurar e saem das lojas com as roupas prontas e ajustadas, já houve uma época em que não era bem assim. Antigamente, quase todas as mulheres tinham habilidade com agulhas e linhas. As mais prendadas faziam roupas inteiras e sabiam, ao menos, ajustar, pregar um botão ou fazer uma barra. E foi com essa habilidade na frente da máquina de costura que a empresária Regina Salomão começou sua história com a moda. Hoje, ela dá nome a uma marca que é exportada para países da América do Sul, América do Norte, Europa e África, além de vestir muitas celebridades, seja em festas, programas de televisão ou novelas, como foi o caso das personagens de Gabriela Duarte e Leandra Leal em Passione, de Gilberto Braga, que usaram vestidos Regina Salomão em algumas cenas.

Mineira, Regina acredita que a moda brasileira ainda tem muito para evoluir, mas que é preciso aproveitar o lifestyle tupiniquim para agregar informação a uma moda que está cada vez mais globalizada. Sempre atenta às tendências nacionais e internacionais, o que ela quer é oferecer, às mulheres, oportunidade de elegância e conforto.

Alguns looks da coleção de inverno da marca Regina Salomão

Como começou sua relação com a moda?

Aprendi a costurar com a minha mãe. Assim que ela faleceu, comecei a pegar na máquina de verdade. Como eu não trabalhava, costurava para minha família e apertava as minhas roupas, porque nunca gostei de roupa larga. Um dia, minha filha Cristina teve a ideia de fazer umas camisas para vender no trabalho e deu super certo. Era eu costurando e ela vendendo. É claro que no começo não foi fácil, mas sempre fomos muito persistentes. Quando menos imaginávamos, o negócio começou a dar certo. Lembro que fizemos umas blusas e colocamos para vender numa loja da Savassi. Em menos de uma semana acabaram todas, e a dona da loja nos encomendou na outra semana mais 200 blusas! Essa foi a nossa primeira venda grande. Aí começamos a fazer feira de negócios para divulgar os produtos e conhecer mais clientes, os pedidos foram aumentando ao longo do tempo e somos o que somos hoje graças a muito trabalho.

Desde que a marca começou, em 1991, o que mudou no mercado da moda?

Hoje em dia há mais profissionalismo, mais pesquisas, o mercado está muito mais competitivo e precisamos nos reinventar a cada dia para surpreender o nosso cliente. A marca continua com o mesmo DNA de quando começamos, que é despertar sonhos e desejos para as mulheres que vestimos, além de fazer com que ela não passe despercebida e seja sinônimo de beleza e bom gosto. Hoje, a marca cresceu e conta com quase 80 funcionários diretos e mais de 300 indiretos.

Moda é um assunto que envolve muito glamour. O que isso tem de bom e ruim?

As pessoas acham que moda é apenas glamour, mas não é. Muita gente pensa que quando faço as minhas viagens internacionais para pesquisa aproveito apenas o luxo e diversão, mas não é bem assim. Ninguém fora do meio sabe o quanto vou atrás do novo para as minhas clientes a cada estação. O status para a moda é muito importante porque as pessoas dão valor a marcas de peso. Vamos usar como exemplo Chanel ou Dior, que são marcas de desejo em todo mundo pelo status que dão aos seus clientes. Até por conta disso a indústria da falsificação vende e cresce tanto. Mas nós não vivemos apenas de glamour. É preciso pensar em produtos com preço, qualidade e que desperte desejo no final.

A marca Regina Salomão veste muitas celebridades em novelas, programas de televisão e eventos. Como é esse contato entre vocês e essas celebridades?

Hoje nós contamos com duas empresas de assessoria de imprensa, uma em Belo Horizonte e outra no Rio de Janeiro, atuando o ano inteiro. Estamos em quase todas as novelas da TV Globo, com as personagens escolhidas a dedo, e alguns programas Rede Record e Rede TV. Na empresa, contamos com uma pessoa responsável pelo marketing, que fica por conta desse setor para selecionar e enviar nossas peças para revistas, TV e vestir celebridades.

O Eduardo Suppes (estilista que trabalha para a marca) fez um desfile em 2004 com a Naomi Campbell, e um dos assuntos levado para a passarela foi a preocupação excessiva com a forma física. Vocês acham que a indústria da moda ainda peca ao não pensar tanto em mulheres que não têm corpo de modelo?

Sim. Essa é uma preocupação que vem crescendo e as marcas já estão tentando se voltar para atender mulheres que usam roupas de tamanhos maiores. Afinal, é uma realidade no nosso País, e todas as mulheres têm o direito de se sentirem belas e bem vestidas.

Como é o trabalho de criação de uma coleção?

Passamos por várias etapas. Após a definição de tema, pensamos nas tendências, cartela de cores, fazemos pesquisas em sites, revistas e viagens internacionais. Agora, por exemplo, estamos no processo de criação do verão/2012. A nossa antecedência é grande porque o mercado de pronta entrega exige muita eficiência e agilidade para atender a demanda.

A empresária Regina Salomão espera mais incentivos do governo para o setor da moda

Quais são as principais preocupações ao pensar uma coleção?

Não há uma receita específica, mas me preocupo em não perder o DNA da minha marca e continuar a encantar nosso cliente com produtos diferenciados e preços competitivos.

A diretora criativa da Vogue disse, recentemente, que estamos no caminho certo e o New York Times chegou a dizer que o ano 2000 era o ano da moda brasileira. Já o estilista Alexandre Herchovitch diz que, quando cria, não pensa em fazer moda brasileira. Você acha que existe uma moda brasileira e que é necessário se buscar isso? Ou hoje em dia é melhor pensar de forma globalizada, já que as pessoas têm a internet para buscar referências?

O lifestyle brasileiro é único, além do clima tropical e de fatores culturais que fazem com que o nosso povo seja mais descontraído. Isso interfere na moda e nos torna diferentes. Acho que a receita é buscarmos informações globalizadas, mas sem perder a nossa identidade.

Quais as maiores dificuldades que o mercado da moda enfrenta?

Devido ao ritmo de consumo, a moda hoje em dia se tornou muito efêmera. Os produtos perdem valor de um dia para o outro e a venda precisa ser muito antecipada e rápida. As tendências se queimam rapidamente, e a cada dia que passa a busca incessante do novo se torna maior.

Já há algum tempo os blogs viraram fontes de referência para quem gosta de pensar e consumir moda. Isso é importante para a indústria da moda?

É mais uma fonte de informação muito importante para o consumidor final, para poder se orientar. Com o crescimento da internet, mais pessoas podem se orientar sobre o que usar e qual a melhor maneira de usar as tendências. Acho que esses espaços só acrescentam e multiplicam os apreciadores da moda.

O que falta para a indústria da moda no Brasil deslanchar de vez?

Nesse momento, acredito que o governo precisa incentivar o setor baixando os impostos para podermos competir com igualdade com os tigres asiáticos, que estão invadindo o mercado brasileiro.

Quais as dicas de vocês para que as pessoas estejam sempre em dia com a moda?

Usar o bom senso, identificar seu corpo e estilo para escolher o que lhe cai bem, além de buscar informações para manter os looks atualizados, com as peças chaves da estação. Contudo, manter seu estilo próprio e não ser levada apenas pelas tendências é fundamental.

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