Entrevista: Marcelo Adnet 0 293

Apresentador fala sobre a reformulação do “Adnight Show” e de seus outros projetos na TV

Marcelo Adnet assume ser um profissional inquieto. Por isso, ao longo de sua carreira na TV, sempre esteve à frente de formatos inovadores – desde o “Comédia MTV” até o recente “Tá no Ar: a TV na TV”. Entre altos e baixos em sua recente trajetória na Globo, ele ganhou carta branca para criar um programa solo. Com o sonho de apresentar um “talk show”, nasceu, no ano passado, o “Adnight”. Depois de uma primeira temporada morna, o programa voltou para um segundo ano reformulado, com a alcunha de show e virou o “Adnight Show”. “Não sei definir direito o que é. A gente vai descobrindo enquanto faz. A comunicação e o humor têm mudado muito, então estamos testando novas possibilidades”, resume. O formato, exibido às quintas, mistura vários convidados, música, esquetes, competição e bate-papo. “A ideia é que cada programa seja único e diferente do anterior”, resume.

Dono de um humor acentuado, Adnet não almejava a carreira de humorista nem a de ator. O caminho para os palcos, no entanto, foi natural. Estudante de Jornalismo na PUC do Rio de Janeiro, ele foi convidado pelo então colega de faculdade Fernando Caruso para fazer uma peça experimental no teatro. Batizado “Z.É. – Zenas Emprovisadas”, o espetáculo envolvia o humor de improviso ao lado de Caruso, Gregório Duvivier e Marcelo Queiroga. “Não sou um cara de estratégia. Não faço nada pensando lá na frente. Entrei no teatro de brincadeira, uma coisa foi levando à outra e estou aqui hoje”, finaliza.

Como surgiu a necessidade de reformular o “Adnight”?

Foi um processo bem natural. A gente ganhou experiência, acho que isso foi determinante. Até o ano passado, eu nunca tinha apresentado um programa de auditório, com convidados. Estava explorando um terreno desconhecido, tentando uma coisa pela primeira vez. Agora já sei um pouco melhor onde estou indo. Então foi orgânico que procurasse fórmulas de ficar mais solto, mais feliz. E, assim, a cara do programa foi mudando.

E qual é a cara do programa?

Não tem bem uma fórmula. Estamos fazendo um produto que não conseguimos definir direito. Não é um “talk show”, não é um programa de esquetes, não é um “game”. Juntei as coisas que mais gosto de fazer: música, improviso, esquetes e conversa. E assim a gente vai moldando cada programa de acordo com o perfil dos convidados.

Como surgiu a ideia de mudar o nome para “Adnight Show”?

Eu tenho essa coisa de tudo poder virar música e isso ser uma coisa mais orgânica, que surge ali na hora. Quando percebemos isso, foi necessário inserir uma palavra para reforçar essa identidade, para explicar melhor o que a gente estava fazendo. E aí pensamos na palavra “show”. Tiramos a bancada de convidados e levantamos para fazer esquetes e música. Então essa palavra cabia muito ali, nesse dinamismo que eliminou qualquer vestígio do programa ser visto como um “talk show”.

Luana Martau, Marcelo Adnet e Renata Gaspar em uma das cenas de “Tá no Ar”

Além de brincar com os convidados, você sempre encaixa uma crítica política. Era uma vontade sua tocar nesses assuntos?
Eu tinha tomado uma decisão radical de não falar muito sobre isso, nem em rede social. Porque é muito cruel, você vê pessoas ligadas à arte e elas são identificadas como fascistas, “isentões” ou comunistas. E eu não me considero nenhum dos três. Mas chegou a um momento tão grave, que coisas tão sérias estão acontecendo, que acho que ficar calado é uma irresponsabilidade.

Como assim?

Tem de haver um diálogo. A gente precisa falar sobre os escândalos políticos de todas as formas possíveis. Não é mais questão de opinião. Até porque não acho que a minha seja mais certa ou melhor do que a de ninguém. Mas acho que se abster da discussão é muito grave. Claro que, no programa, a gente passa pelos assuntos de forma mais leve, até porque não é um programa político. Mas a gente se alimenta disso. E quando você fala com o humor, às vezes você é mais incisivo do que quando você impõe.

Até que ponto você segue o roteiro e quando decide improvisar?

Muita coisa ali acontece sem planejar. Na maioria das vezes em que eu vou até a plateia, é coisa da minha cabeça. E tem momentos com os convidados também que acontecem ali na hora, do nada. Eu lembro do dia que gravamos com a Carolina Dieckmann, por exemplo. No palco, ela falou que tocava ukulele. E eu estava com o meu no camarim. Nada disso tinha sido pautado, mas fui correndo lá e busquei para ela tocar um pouco. E aí improvisei uma música enquanto ela tocava.

Com as mudanças do programa, como ficou a equipe de roteiro?

Mudou um pouco para atender às nossas necessidades. Mas ainda continuo participando de forma bastante efetiva.

Assim como no “Tá no Ar”?

Sim, e é uma loucura. No primeiro semestre, fico imerso nas redações dos dois programas. Sendo que uma é no Jardim Botânico (na Zona Sul do Rio de Janeiro) e a outra é em Curicica (na Zona Oeste do Rio de Janeiro). Então é bem louco porque são dois programas bem diferentes, com redações e convicções bem distintas.

E como fica o resto do seu tempo?

O primeiro semestre é todo focado na preparação dos programas. E gravo também “Escolinha do Professor Raimundo”. No início do segundo semestre, gravo o “Adnight Show”. É uma loucura porque é uma parte no auditório – que fazemos dois programas por dia. E depois tem uma parte dos esquetes. Assim que acabamos, já emendo nas gravações do “Tá no Ar”, que vão até janeiro. E, em março, começa tudo de novo.

De olhos bem abertos

“Cria” da comédia de improviso, Marcelo Adnet garante que o início de sua carreira foi movido por inspirações. Desde o grupo de humor britânico Monty Python, passando por Petter Sellers e Jerry Lewis, o ator também tem inspirações brasileiras. De “TV Pirata” a “Casseta & Planeta”, ele é do tipo que acha que todos seus antecessores contribuíram para que o gênero tivesse essa liberdade hoje em dia. “Atualmente o ‘Casseta’ é meio ‘pau de selfie’. Todo mundo tem um pouco de preconceito. Mas foi importantíssimo”, ressalta.

Mas, para ele, é imprescindível continuar observando, sobretudo, quem não é humorista. “Preciso me manter civil para observar a sociedade”, brinca. Nessa esfera, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi uma grande inspiração. “Aprendi muito com ele. Algumas palavras só ele fala. E acho que, quando a pessoa não é comediante, se torna uma fonte mais rica porque é real, natural”, completa.

Novos voos

Apesar da rotina corrida e de garantir que está satisfeito com as três produções das quais faz parte, Marcelo Adnet não para de pensar em seus próximos passos. Por isso, admite certa curiosidade de apresentar um programa ao vivo. “Seria muito legal, tenho muita vontade de ter essa interação direta com quem está em casa, através da internet. E tem aquela adrenalina, a rapidez. É um bom sonho. Quem sabe, um dia…”, torce.

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