Rumo ao centenário 0 1124

Colégio Oswaldo Cruz dá início às comemorações pelos 100 anos, que serão celebrados em 2014

Uma das melhores fases da nossa vida, inegavelmente, está ligada aos bancos escolares. A despeito do bullying de hoje em dia e da palmatória de antigamente, é ali que estabelecemos as primeiras relações sociais de fato, que o amor à primeira vista muitas vezes acontece, e que o primeiro e inesquecível beijo torna-se a maior de todas as lembranças. Sem contar as dores da paixão proibida e platônica do aluno pela professorinha e da aluna pelo professor querido, primeira figura masculina de fato, depois da figura paterna. E quanto de nossos anseios e expectativas está contido nos corredores, entre salas e pátios, gravados pela memória das falas e burburinhos que ainda ecoam por toda a parte, mesmo com o passar dos anos?

Por essas e tantas outras razões é que a Escola Estadual Oswaldo Cruz está comemorando seu aniversário com diversas atividades que começam este ano e envolvem professores e alunos, com uma série de tarefas que já estão sendo desenvolvidas em sala de aula, além de exposição fotográfica de diversas fases da escola desde quando era grupo escolar, instalado no ano de 1914, no dia 14 de abril. São 100 anos de história que já faz parte da vida e do imaginário de tantas pessoas que passaram por lá.

Não à toa, também, que a atual diretora, Ângela Maria Limberg, comenta com bastante empolgação as conquistas que a escola obteve nesses últimos anos. “É um trabalho árduo. Conto com uma equipe dedicada e muito competente, por isso conseguimos reverter duas situações que, infelizmente, fazem parte hoje em dia das salas de aula: evasão e violência. Aqui, os alunos têm nome e não apenas um número de matrícula, e com eles, as questões pessoais que refletem no seu rendimento, o que nos faz ter uma percepção que vai além da psicologia escolar porque envolve família, esse núcleo que hoje está praticamente desintegrado”, comenta.

Ângela Maria Limberg, de professora a diretora do colégio
Iracema e sua mãe, Íride Rachel: as duas estudaram no Oswaldo Cruz

Ângela se lembra de sua primeira passagem pela escola, no período entre 2003 e 2004, e quando regressou em 2007 com a missão de melhorar a escola em todos os níveis, já como diretora. “Como disse, o esforço da equipe é o meu incentivo para continuar em frente com o objetivo de melhorar a escola. Conseguimos organizar os prontuários dos alunos, que é um acervo maravilhoso, muito procurado por antigos alunos do Oswaldo Cruz, e agora pleiteamos uma grande reforma, já que o prédio é tombado pelo Patrimônio Histórico e passou por um restauro entre 2002 e 2003”, diz a diretora.

Essa preocupação é sentida pelos antigos alunos, muitos deles moradores até hoje da Mooca, a exemplo de Pedro Felice Perduca, juiz de Paz e grande ativista das questões históricas de todo o bairro, tanto que no acervo fotográfico que vem garimpando ao longo dos anos junto às famílias mooquenses, tem um espaço especial dedicado ao Oswaldo Cruz, em cujos bancos Pedro também sentou há uns 50 anos. “Nós da AMoAMooca (associação de moradores do bairro) já vínhamos fazendo um trabalho de resgate da memória oral do bairro, ouvindo seus moradores mais antigos, e agora estamos fazendo uma coleta de fotografias junto às famílias para manter esse registro vivo, tanto que recentemente fizemos a edição do Moocalendário, que é anual, com imagens dos antigos alunos do grupo escolar que agora completa 100 anos”, explica.

Entre as joias raras por ele encontradas está uma linda e angelical senhora, que de 90 anos só mesmo a idade, pois o espírito é atemporal e remete ao frescor da primeira infância, vivida entre brincadeiras e travessuras sem maldade alguma, só mesmo a vontade de viver alegremente: dona Íride Catharina Rachel. Ela conta que sempre foi muito brincalhona e que gostava mesmo era de brincar, e que dava trabalho para as professoras, tanto que era colocada algumas vezes de castigo. “Os coleguinhas passavam pela janela da sala onde eu ficava de castigo, de braços abertos até cansar, e davam risada por me ver de novo lá”, lembra bem. Mesmo assim, adorava as aulas, principalmente as de desenho, já que desde cedo desenhava muito bem, tanto que a professora exibia seus trabalhos para toda a classe. Lembra também que adorava analisar os trajes da professora, se naquele dia ela tinha vindo com um lindo vestido ou com alguma vestimenta que não gostava, aí comentava com a coleguinha do lado. Até o perfume era notado. “Coisas de criança”, diz ela dando uma risada gostosa.

Dona Íride lembra também que usava um laço enorme no cabelo, peça obrigatória entre as meninas da época, e que o irmão, outro estudante do antigo grupo escolar, era mais ligado nos livros do que ela. Sua filha, Iracema, também passou pelo Oswaldo Cruz: “tenho uma tia também, irmã de minha mãe, que estudou lá. Lembro-me de ter percebido, olhando as fotos antigas de minha mãe e as minhas, já dos anos 60, que demorou um pouco até o jeito dos alunos mudarem definitivamente como nos dias de hoje. Talvez por conta do uniforme e pela rigidez com que os professores e diretoria nos tratavam. Existia mais respeito, não só medo, e o ensino era forte, mesmo sendo um grupo escolar. Lembro que o Oswaldo Cruz, o São Paulo e o Firmino estavam entre os mais procurados pelos pais para matricular seus filhos, pois não perdiam nada para as escolas particulares”. Iracema lembra que fez parte da saudosa bandinha da dona Branca e parece abrir uma tela mental onde consegue visualizar bem esse momento seu no Oswaldo Cruz.

Outra ex-aluna, Suely Lopes, recorda com muita ternura daquele período passado na escola: “comecei o primário no ano de 1953 e naquela época as classes não eram mistas, as salas de aula eram de meninas, separadas dos meninos que não víamos nem nos corredores, pois eles ficavam do lado esquerdo de quem entra no prédio e as meninas do lado direito. No intervalo, ou seja, na hora do recreio, era da mesma forma, meninos de um lado e meninas de outro. Mas sempre os meninos invadiam nosso lado, principalmente para arrumar confusão. Minha maior recordação é do quarto ano, pois a professora ficou nas minhas lembranças. O nome dela era Herriete e até o ano retrasado sabia que estava viva e morando na Mooca. Nesse quarto ano, estudava em minha sala uma menina muito levada com um lindo sorriso, chamada Miriam Ângela La Vecchia.

Lembro que no final da aula, a professora sempre a deixava cantar e nós adorávamos, pois ela fazia batucada em uma caixa de fósforos. Mais tarde, aquela menina da minha infância, que estudara na mesma sala, ficou conhecida como Miriam Batucada”.

Suely Lopes, que estudou no colégio na década de 1950
Pedro Perduca, ex-aluno que trabalha no resgate da memória do colégio

As lembranças não param de chegar e Suely comenta do lanche gostoso servido na escola, da visita periódica de um dentista, e que para atravessar a rua, as crianças eram ajudadas por um guarda civil com seu uniforme azul marinho e um capacete branco. “Lembro muito dele, pois era uma pessoa doce que marcou as nossas vidas”, diz. O uniforme, também recorda, era composto de saia azul marinho pregueada e blusa branca com uma gravata que tinha listas que aumentavam conforme o ano que se estava cursando.

“Hoje vejo esse maravilhoso prédio e volto no tempo, um tempo mágico onde tudo era muito diferente dos dias de hoje. Saudades…”

Oswaldo Cruz no cenário da educação

Na linha do tempo, a Oswaldo Cruz está inserida numa fase muito importante da educação brasileira, pois como está registrado na interessante obra de Isabel Raposo, Memória, Momentos e Lições – 446 anos de Educação em São Paulo, de 2.000, “…o vazio deixado pela ausência do governo federal no campo da educação popular levou, particularmente nos primeiros anos da República, os estados mais progressistas, sobretudo São Paulo, a assumir a liderança nacional nesse setor”. Ela cita, no mesmo parágrafo, a reforma de 1892, conduzida em São Paulo por Caetano de Campos, e que tinha como premissa básica estabelecer os primeiros padrões de excelência para o ensino primário e normal, ação esta que influenciou todo o resto do País.

Turma de meninos em registro de 1916

Se hoje o ensino anda um tanto esvaziado e a pesada Barsa foi substituída há muito tempo pela facilidade dos mecanismos virtuais de pesquisa, com destaque para o Google, uma coisa não dá para esquecer e cabe aqui afirmar, para encerrar: as escolas são co-autoras da História, pois em seus registros estão acontecimentos e personagens que influenciaram e influenciam os destinos de uma cidade, de um país. Atualmente, a escola oferece Ensino Fundamental (de 5ª a 8ª série), Ensino Médio (Geral) e Jovens/Adultos (Ciclo II de 5ª a 8ª série), nos períodos matutino e vespertino.

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