Charme e glamour em antiga indústria 0 807

Prédio remanescente da era industrial, o Moinho prova que é possível unir a preservação do patrimônio com os negócios e, assim, mantém viva a memória da Mooca

Está mais do que comprovado no DNA da casa que esta foi feita mesmo para acontecer, se reinventar e brilhar. E que seus administradores também comprovam o espírito empreendedor ao dirigirem um espaço cobiçadíssimo, que enfrentou duas falências e uma quase demolição e descaracterização, mas que continua ali, roubando a cena do imaginário paulistano e de outras paragens com seu glamour a céu aberto e a disposição mais que centenária de se manter firme e pulsante ao abrigar casamentos, festas corporativas e de outros tipos, bem como comerciais e encontros do Terceiro Setor.

A casa, na verdade, é um antigo Moinho localizado no número 510 da Rua Borges de Figueiredo, na Mooca, local que abrigou em grande parte, o início efervescente da indústria paulistana, lá pelos idos de 1897 em diante, com diversas identidades e direito a repaginadas em cada virada de capítulo de sua história: Grandes Moinhos Minetti-Gamba, da fase industrial propriamente dita, no período aproximado entre 1910 e os anos 1980, quando produzia farinha, sabão, óleos vegetais e outros produtos e abastecia a cidade com suas marcas muito procuradas, entre elas a farinha Maria e Savóia, o sabão Negrinho e o óleo vegetal Sublime. Depois disso, ficou um bom tempo fechado quando reabriu, em 1994, como casa de shows Moinho Santo Antonio, que teve o empresário da noite Ricardo Amaral e José Victor Oliva entre os sócios, e depois de seu fechamento no começo dos anos 2000, reabre como Moinho Eventos, em 2001 e, desde então, realiza eventos, feiras, exposições, lançamento de produtos, congressos, treinamentos, shows musicais, desfiles de moda, casamentos, aniversários, formaturas e espetáculos.

Os sócios da empresa Moinho Eventos, que administra os espaços, são Irineu Salvador Ruffo e Carlos Eduardo Braga, ambos com larga experiência em tudo que diz respeito a marketing, estratégia de mercado e comunicação visual, já que o primeiro trabalhou na Avon durante 40 anos, lá foi vice-presidente operacional no Brasil e gerente geral na América Latina Novos Mercados, e Braga é publicitário, além de expert na área de promoção e produção de eventos. “O Moinho é um espaço versátil onde cabem sonhos e realizações. São 12 anos de sucesso, muitas comemorações e histórias sem fim. E não poderia ser diferente, já que São Paulo é a maior cidade da América Latina e a terceira do mundo e exige espaços especiais, de bom gosto, classe e sem limites para a criatividade”, lembra Braga.

A entrada principal do prédio fica na Rua Borges de Figueiredo, um dos locais mais conhecidos da Mooca
Mural de azulejo pintado, um dos vários que decoram as paredes do Moinho

O charme ainda maior do Moinho, com sua arquitetura do século 19, deve-se ao fato de o imóvel ter sido reconhecido como patrimônio histórico da cidade, em 2007, pelas duas instâncias de governo da cidade: o CONPRESP, conselho ligado ao Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) e vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, e o CONDEPHAAT, da Secretaria Estadual de Cultura.

E se os holofotes se voltam para esse endereço, especialmente para o prédio do antigo Moinho e seus múltiplos espaços, tem uma explicação para isso, como relembra Braga: “o Moinho Santo Antonio, como clube noturno, foi um marco na história de São Paulo e reconhecido em todo o Brasil, pois aqui aconteceram shows inesquecíveis e grandes eventos”.

Braga destaca também que as instalações hoje ocupadas pelo Moinho Eventos sempre foram sinônimo de modernidade, desde os tempos da indústria, que era uma referência para a época, por ser também uma plataforma de lançamento para novos produtos, serviços e entretenimento. “Temos uma preocupação em manter o imóvel preservado, porque vimos que a forte ligação com o bairro da Mooca e com os imigrantes italianos tinha que ser mantida para não se perder uma parte da história da indústria paulistana”, diz.

Mas a preocupação também se reflete na necessidade de se estabelecer parcerias para preservar o prédio centenário já que, como explica Braga, a manutenção é constante e cara. “Buscamos parcerias com a iniciativa privada e com órgãos públicos para preservação dos edifícios principais, além da reforma e restauração de alguns prédios que ainda precisam de cuidados para, futuramente, transformá-los em espaço cultural para os moradores da Mooca e região”, expõe. Mas a única fonte de recursos, por enquanto, vem da renda obtida com a locação dos espaços.

E faz um alerta aos vizinhos que vêm chegando em profusão para habitar os diversos apartamentos nos inúmeros edifícios ao redor e no entorno, para que saibam e entendam que o Moinho funciona há mais de 20 anos como espaço para eventos, shows e entretenimento numa área, até então, de perfil industrial mas que nos próximos anos mudará para um perfil residencial.

Irineu Ruffo é um dos proprietários e trabalha para conseguir preservar cada vez mais o prédio histórico

Passaporte para a Mooca

Para esse aquariano de origem meio galega, meio italiana, Irineu Salvador Ruffo, a Mooca tem uma participação muito importante em sua vida: “afinal de contas, nasci aqui, em 1939, mais precisamente na Rua Padre Raposo, cresci, passei minha infância, estudei e constituí a minha família. Só saí depois de 30 anos por conta de meu trabalho e me estabeleci na zona sul. Minha esposa também é da Mooca, assim como meus filhos – Marcelo e Claudia. Somente a Luciana nasceu em outro bairro, pois eu já havia mudado. Tenho ainda uma irmã que permanece no bairro, na Rua Dias Leme”, conta.

Formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), Irineu faz questão de ressaltar que tem colado no carro um adesivo com a frase ‘Amo a Mooca’, em sinal de carinho ao bairro, e que recebeu da entidade do bairro de mesmo nome, o ‘Passaporte da República da Mooca’ número 1, na verdade uma ideia sua que foi abraçada por alguns membros da entidade, e que é uma espécie de homenagem à italianidade da Mooca e de seus filhos, nascidos e adotivos. Com sua visão empresarial e o tino comercial, Irineu explica que o passaporte, quando começar a ‘funcionar’ para valer, terá uma série de estabelecimentos comerciais, de lazer e de cultura a ele vinculados, que darão descontos e ofertas especiais aos seus portadores.

Mas a menina dos olhos é mesmo o Moinho e seus espaços, constantemente cuidados e preservados por Irineu, sócios e toda sua equipe. É ele quem fala do local, com bastante entusiasmo: “confesso que o Moinho me agrada muito como local, além do fato de ser um negócio que me dá prazer vivenciar. Ele é um imóvel que preserva as raízes do bairro e contribui com a dissipação da cultura e do conhecimento, pois abrimos constantemente nossas portas para estudantes de Arquitetura e visitantes em geral. Cuidamos do Moinho como se ele fosse uma ‘relíquia’ e poderia dizer, sem dúvida alguma, que é um dos patrimônios tombados mais bem cuidados sem o auxílio de ninguém. Tudo o que fazemos aqui é com o mesmo cuidado que fazemos na nossa casa”, exclama.

Vista do prédio em 2012 e na época em que ainda era industrial, com o trem passando bem a sua frente

E como esse empresário irrequieto não para mesmo, há diversos projetos que estão sendo gestados para dar mais vida ainda ao Moinho, e que trarão as pessoas com mais frequência àquele endereço. “Por enquanto não dá para falar, mas tenho certeza que as pessoas vão gostar muito. E finaliza dizendo, como um típico bairrista, que “a Mooca teve, tem e sempre terá uma importância muito grande em sua vida”. Sobre o Moinho, faz eco ao sócio Braga, ao afirmar que, com certeza, é um dos espaços mais bonitos de São Paulo, com uma beleza ímpar que extrapola a simples condição de marco arquitetônico. “É mais do que isso”, comenta. “Esse é um oásis no deserto da cidade, com um clima interno muito agradável, que movimenta a economia da cidade e gera empregos, por que não dizer? Mas queremos que as pessoas, em especial os mooquenses, reconheçam nosso esforço contínuo em estarmos à frente dessa casa, que é o nosso negócio, sim, porém é para nós motivo de orgulho e de realização pessoal, pois estamos fazendo a nossa parte em prol da memória do bairro”.

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