
Durante muito tempo, as mocinhas das novelas foram reduzidas à ideia de delicadeza, pureza e previsibilidade. Letícia Colin quer justamente romper com esse imaginário em sua nova protagonista. Em “Quem Ama Cuida”, a intérprete de Adriana encontra uma mulher atravessada por contradições, força emocional e senso de justiça. Mais do que defender a complexidade das protagonistas femininas, Letícia acredita que o público está cada vez mais interessado em personagens humanos, que escapem dos arquétipos tradicionais. “Discordo completamente dessa ideia de que mocinhas são menos interessantes. Acho que o público gosta de personagens que carregam humanidade, independentemente do rótulo. A Adriana é contraditória, intensa, charmosa, forte, imperfeita. Pode ser doce e, ao mesmo tempo, extremamente combativa”, defende.
Na história das nove, Adriana é jovem determinada e batalhadora, que aprendeu desde cedo a encarar a vida de frente e de peito aberto. A fisioterapeuta é demitida justamente no dia em que perde o marido e a casa onde mora em uma enchente implacável. Ao parar em um abrigo, junto dos parentes que sobrevivem, ela conhece o advogado Pedro, papel de Chay Suede. O encontro mudará a vida de ambos. “A família da Adriana é feita de união, emoção e teimosia, no melhor sentido. É um núcleo humilde, que vive com dignidade e luta por respeito. O avô é o sol dessa família, passa para todos este DNA de coragem e justiça”, explica.
P – A Adriana foge da construção clássica da mocinha idealizada. Como você trabalhou essa personagem para escapar do óbvio?
R – Me interessa justamente inverter essa lógica. A Adriana entende o afeto como potência, como algo que organiza relações, sustenta famílias e movimenta escolhas muito corajosas. Ela não ama de forma passiva. Existe uma firmeza nela, uma capacidade de agir, de lutar e até de acessar uma certa violência quando o senso de justiça é atravessado. Acho bonito pensar o cuidado como uma força transformadora e não como um sinal de fraqueza.
P – Como assim?
R – Acho que existe uma profundidade muito interessante nela porque os desejos da Adriana não são superficiais. Claro que ela quer melhorar de vida, dar conforto para a família, ascender socialmente. Ela vem de uma realidade difícil, mas isso nunca acontece às custas dos valores dela. O eixo da personagem está na dignidade, no senso de justiça, na capacidade de permanecer humana diante das durezas da vida.
P – Em vários momentos você associa a trajetória da Adriana à mulher brasileira invisibilizada. Como essa dimensão social atravessa a novela?
R – Atravessa o tempo inteiro. Estamos falando de uma mulher que representa tantas outras: mulheres que sustentam famílias, trabalham sem reconhecimento, ganham menos, enfrentam injustiças e seguem em frente. Acho que a novela consegue olhar para essas mulheres com grandeza, colocando-as no centro da narrativa não como vítimas, mas como protagonistas das próprias transformações.
P – Você chegou a pedir para fazer testes para viver a Adriana. O que chamou sua atenção nesse projeto?
R – Foi uma conexão muito imediata. Quando soube da Adriana, eu senti que precisava disputar esse encontro. Não era só vontade de fazer uma protagonista; era vontade de viver essa trajetória específica. Acho que meu coração reconheceu alguma coisa ali. E hoje, vivendo a personagem, percebo que ela realmente precisava passar por mim e eu por ela.
P – Por quê?
R – Ela me oferece transparência emocional. A Adriana não tem cinismo. Ela vive as coisas profundamente, acredita nas pessoas, acredita no amor, na família, na justiça. Isso exige um lugar de entrega muito grande, porque não existe distanciamento emocional possível. É uma personagem que me convoca a acessar uma delicadeza muito radical.
P – A relação familiar é um dos pilares da trama. O que mais toca você nesse núcleo?
R – A noção de elo. Essa família se movimenta muito pelo desejo de proteger uns aos outros, mesmo com conflitos, diferenças geracionais e dores internas. Existe um respeito entre eles que me emociona muito. A relação da Adriana com o avô, por exemplo, é de um afeto quase passional, muito profundo. São vínculos que ajudam a personagem a permanecer de pé.
P – Na novela, você também reencontra São Paulo de uma maneira afetiva. Como foi voltar a esse universo?
R – Muito emocionante. Eu sou de Santo André e, apesar de já viver há muitos anos no Rio, revisitar São Paulo através desse trabalho mexeu comigo. Me reconectou com referências muito íntimas, com uma energia que faz parte da minha formação. E acho bonito a novela abraçar essa diversidade paulistana, essa mistura de origens e trajetórias.









