Cirurgia plástica virou festa? 0 2125

Durante muito tempo, fazer uma cirurgia plástica era algo quase confidencial. A paciente sumia por alguns dias, aparecia “mais descansada” e, muitas vezes, evitava dizer o que havia feito. O procedimento existia, mas era cercado por silêncio, disfarce e até certo constrangimento social. Essa lógica parece estar mudando rapidamente.

“CHÁ REVELAÇÂO’
Nos Estados Unidos, jovens passaram a organizar festas para revelar o resultado de cirurgias plásticas, em um formato que lembra chá revelação, aniversário ou evento temático. Há casos de comemorações pós-rinoplastia, aumento de silicone e outros procedimentos estéticos, com amigos, decoração, brincadeiras, registros em vídeo e publicações nas redes sociais. A tendência foi repercutida recentemente no UOL e também em veículos internacionais, que destacaram a força do TikTok na popularização desses “plastic surgery reveal parties”.

ESPETÁCULO SOCIAL
O fenômeno chama atenção porque revela algo maior do que uma simples moda: a cirurgia plástica está deixando de ser tratada como segredo e passando a ocupar o lugar de espetáculo social.
Para o cirurgião plástico Luiz Anizio Wanna, essa mudança precisa ser analisada com equilíbrio. “Não existe problema em uma pessoa falar abertamente sobre uma cirurgia que realizou. A transparência pode ser positiva. O risco começa quando um procedimento médico passa a ser tratado como entretenimento, trend ou conteúdo para engajamento”, afirma.

QUANDO O PÓS-OPERATÓRIO VIRA CONTEÚDO
A nova geração cresceu em um ambiente onde quase tudo pode ser registrado, narrado e transformado em publicação. Viagens, términos, diagnósticos, mudanças de visual e, agora, cirurgias. A diferença é que procedimentos cirúrgicos envolvem anestesia, risco, recuperação, cicatrização e decisões permanentes ou de difícil reversão.
A American Society of Plastic Surgeons já havia apontado que as redes sociais têm tornado a cirurgia plástica mais aceita e menos estigmatizada, além de influenciar a procura de pacientes mais jovens por procedimentos estéticos. O problema, segundo o especialista, não é a popularização da informação, mas a perda da gravidade do ato cirúrgico.

RESPONSABILIDADE MÉDICA
“A cirurgia plástica pode melhorar autoestima e qualidade de vida, mas continua sendo cirurgia. Não é uma transformação de cabelo, não é maquiagem, não é filtro. Existe planejamento, indicação, limite anatômico e responsabilidade médica”, explica.
Em muitas dessas festas, o foco está no “antes e depois”. O que quase nunca aparece é o processo real: exames pré-operatórios, riscos, dor, edema, cicatrizes, tempo de recuperação e possíveis complicações.

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