Entrevista: Grazi Massafera 0 2420

A trama de “Dona Beja”, original da HBO Max, pode até se passar no Brasil Império no Século XIX. Mas Grazi Massafera encarou a personagem com a consciência de que, por trás dos vestidos de época e dos cenários históricos, há questões sociais que continuam a reverberar até hoje. Ao aceitar o papel, ela buscou se afastar de comparações com versões anteriores e preferiu construir sua própria leitura, guiada pela intuição e pela força de uma figura feminina que, mesmo situada em outro tempo, dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre autonomia, poder e liberdade. “Eu vivo intensamente minhas personagens. Assim como estou vivendo a Arminda, eu vivi a Beja. Falar sobre questões femininas é o meu dia a dia. Eu sou uma mulher solteira, livre, faço o que eu quero e sou constantemente julgada: pelos meus namorados, pelo meu corpo, pela minha relação com a minha filha, pela minha beleza, pelo meu envelhecimento. Esse julgamento continua e não vai parar”, aponta Grazi, que também vive a vilã Arminda em “Três Graças”, da Globo.

Com 40 episódios, “Dona Beja” acompanha a história de uma mulher que desafia as normas sociais impostas à sua época em um contexto marcado por restrições e desigualdades. Ao longo da trama, temas como desejo, liberdade, poder e vingança se entrelaçam na construção de uma personagem complexa, cuja inteligência e postura independente a colocam em constantes confrontos. “Mulheres como a Beja abriram portas para a gente e continuarão abrindo. E eu também quero ser uma dessas mulheres. Eu não quero sucumbir ao que me delegam. Estou sempre me desconstruindo e me conhecendo melhor nesse processo de amadurecimento”, aponta.

Você está no ar simultaneamente com duas personagens muito distintas, uma protagonista e uma antagonista. O que conduziu para esse encontro curioso?
Não foi nada pensado. O destino acabou ajudando e trouxe duas figuras muito interessantes e completamente diferentes. Isso me dá uma versatilidade como atriz que até eu mesma gosto de observar, porque vivo intensamente cada momento do ano em que estou trabalhando.

Em “Três Graças”, você vive uma vilã que transita entre comédia e fantasia. Como foi o processo de se permitir nesse lugar novo?
No início eu entrei em crise, porque vinha de um estudo profundo desde a pandemia para me reestruturar. Estava estudando sobre estruturas raciais e sociais. De repente, precisei inverter tudo isso e assumir um caráter oposto. Mas depois veio a diversão. Esses vilões têm um tom acima, são personagens de composição, e isso é muito novo para mim.

Como tem sido a receptividade do público sobre a Arminda?
Mudou o olhar do público sobre os vilões. Hoje estamos em uma boa época para fazer vilões. O público entende melhor que é arte, que é composição. E o texto do Aguinaldo tem esse carisma, que faz os vilões serem amados de outra forma.

“Dona Beja” foi lançada como uma releitura e não um remake da novela de 1986. Qual é a importância dessa diferença para você?
É essencial. O Dani (Daniel Berlinsky, que escreveu a trama ao lado de António Barreira) escreve com poesia, e isso dá uma nova camada à história. Não estamos repetindo, estamos reinterpretando. Isso provoca reflexões, mexe com a sociedade, enfia o dedo na ferida. E eu acho maravilhoso que a obra tenha esse poder.

Como assim?
Os mais conservadores vão falar coisas absurdas, vão falar que é lacração. E isso é bom também. Dane-se. A gente quer isso. Porque a novela traz poesia, reflexão, e abre espaço para debates que são necessários.

Você chegou a conversar com Maitê Proença sobre a personagem?
Claro! Fui pedir a benção. Foi um ato de respeito e admiração. A Maitê transformou a Beja em ícone, em lenda. Eu precisava desse encontro para me sentir autorizada a seguir. Ela é minha musa, uma inspiração, e essa troca foi muito especial.

A Beja foi alvo de narrativas inventadas por jornalistas da época, quase como acontece hoje nas redes sociais. Como você enxerga essa conexão entre passado e presente?
É impressionante. Na época, criaram histórias sobre ela porque vivia sozinha, e isso virou escândalo. Hoje, nas redes, acontece o mesmo: alguém inventa uma narrativa e ela ganha força. A Beja mostra como a sociedade sempre tentou controlar mulheres independentes. Mulheres como a Beja abriram portas para a gente e continuarão abrindo. E eu também quero ser uma dessas mulheres. Eu não quero sucumbir ao que me delegam. Estou sempre me desconstruindo e me conhecendo melhor nesse processo de amadurecimento.

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