Transplante de Medula Óssea 0 862

A Revista do Tatuapé conversou com o dr. Roberto Luiz da Silva, médico-hematologista formado pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Transplante de Medula Óssea.Ele também é o coordenador e responsável-técnico pelo serviço de Transplante de Medula/Células-Tronco Hematopoiéticas do IBCC, hospital considerado referência nacional

O Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), na Avenida Alcântara Machado, 2.576, Mooca, pode ser considerado uma referência nacional em saúde. Recebendo pacientes também das regiões norte e nordeste do País, tem à frente do setor de Onco-Hematologia, o dr. Roberto Luiz da Silva, especialista em Transplante de Medula Óssea, também chamado de Transplante de Células-Tronco Hematopoiéticas.

Na entrevista, o especialista destacou que o Transplante de Medula Óssea é utilizado como tratamento curativo para uma série de doenças, e que hoje o Brasil é um dos grandes países a realizá-lo. Só em 2017, foram 2.745 procedimentos no País.
Entre as doenças mais comuns tratadas com a técnica, está o Mieloma Múltiplo, que  apresenta precocemente dores óssea, quadro clínico que sugere fraqueza e astenia (perda de força física).  Pelo fato dos sintomas serem comuns a outras doenças, as pessoas geralmente procuram por muitos outros médicos antes de chegarem ao hematologista.

“Neste caso, quando feito o diagnóstico, o melhor tratamento é o Transplante de Medula Óssea Autólogo. Deve-se lembrar que o Transplante de Medula Óssea também é utilizado para tratar outras doenças como Leucemia, Linfoma, Anemia Falciforme, Anemia Pura da Série Vermelha e Anemia Aplástica Grave. Mais recentemente, tem sido utilizado também para o tratamento de outras doenças, como o Lúpus Eritematoso Sistêmico e a Doença de Crohn, entre outras que, no passado eram tratadas apenas com imunossupressão”, destacou o especialista.

DIAGNÓSTICO DAS DOENÇAS HEMATOLÓGICAS

É fundamental para que os resultados sejam positivos que se faça o diagnóstico precoce das doenças que possuem a indicação de transplante. “No caso do Mieloma Múltiplo, os principais sintomas, como já ditos, são dores ósseas, anemia e cansaço. No caso do Linfona Não-Hodgkin e Linfona de Hodgkin, são indicativos o aparecimento de gânglios e linfonódulos, as chamadas ínguas. Assim que a pessoa detecta a presença de gânglios, ela deve procurar o médico, que pode ser o seu clínico-geral mesmo. Na suspeita clínica de Linfoma ou qualquer doença proliferativa, esse paciente vai ser encaminhado a um hematologista. Com o diagnóstico fechado, ele será tratado e, dependendo da doença, escolhe-se fazer ou não parte do tratamento o Transplante de Medula Óssea”, explicou o dr. Roberto.

LEUCEMIA

A Leucemia é outra doença muito importante e que muitas vezes tem a indicação para se fazer o Transplante de Medula Óssea Alogênico. “Muitas vezes os primeiros sintomas são fraqueza, astenia (perda de força física) e sonolência, sintomas estes secundários à Anemia. Num exame simples de hemograma, já se consegue detectar se este paciente tem indicação de Leucemia.”

ANEMIA FALCIFORME

Recentemente, o Ministério da Saúde autorizou a realização de Transplante de Medula Óssea em pacientes acima de 16 anos, portadores de Anemia Falciforme, doença genética e que normalmente acomete afrodescendentes.

“Esses pacientes sofrem muito com dores ósseas, muitas vezes têm Acidente Vascular Cerebral (AVC), quadro de dor muito importante e são submetidos à analgesia e politransfusão. Agora com esta decisão, se tem a aprovação para a realização de transplante. Isso é muito importante porque poderemos proporcionar uma qualidade de vida melhor e um maior tempo de sobrevida a estes pacientes. A decisão foi um grande passo que o governo brasileiro deu”, observou.

DOENÇA DE CROHN

Entre as novas terapias vinculadas ao transplante ainda não autorizadas, mas que já são utilizadas para realizar o Transplante de Medula Óssea, pode-se citar a Doença de Crohn, de cunho inflamatório onde os pacientes sofrem muito.

“Com dor abdominal e diarreia, muitas vezes eles são internados com quadro de infecção abdominal e acabam tendo que usar muito imunossupressor, o que favorece o quadro de infecção. O transplante tem sido utilizado nestes casos, no sentido de ressetar o sistema imunológico e implantar um novo, para minimizar ou curar a Doença de Crohn”.

LÚPUS ERITEMATOSO

É uma doença que acomete principalmente as mulheres jovens. Muitas têm várias dores articulares, queda de cabelo e manchas no rosto. Tudo decorrente de processo inflamatório de uma doença autoimune. “Então, como princípio do Transplante de Medula Óssea, nós conseguimos ressetar o sistema imunológico dessas mulheres, desses indivíduos, e infundir uma nova medula, fazendo com que haja uma repovoação do seu sistema imunológico e a cura da doença ou melhora dos sintomas e qualidade de vida.”

ESCLEROSE MÚLTIPLA

O transplante, neste caso, é ainda usado de forma experimental. “É uma doença que, de fato, faz com que muitos pacientes sofram com o seu tratamento. Uma esperança tem sido o Transplante de Medula Óssea que, infelizmente, ainda está em caráter experimental. O racional da sua utilização é o mesmo para as doenças imunológicas. Ou seja, fazer com que o sistema imunológico volte a funcionar de forma adequada. Há o desequilíbrio do sistema imunológico e com o transplante, você faz com que volte a funcionar novamente. Existem trabalhos já descritos na USP de Ribeirão e no Hospital Albert Einstein, além de muitos trabalhos italianos e franceses, que têm dedicado bastante da sua pesquisa para o tratamento e a cura da Esclerose Múltipla”, disse o especialista.

ENCAMINHAMENTO O QUANTO ANTES

Segundo o dr. Roberto, quanto mais precoce for o diagnóstico, mais ele favorecerá os resultados positivos do tratamento. “Muitos pacientes demoram para chegar no médico transplantador. Ficam às vezes tratando com poliquimioterapia por muito tempo, o que acarreta mais complicações na hora da realização do transplante. É de fundamental importância que os médicos hematologistas e oncologistas encaminhem esses pacientes o mais precocemente possível, assim que se tenha a indicação de transplante. Os resultados dependerão muito do momento em que este paciente chega até nós e do tratamento prévio que realizou.”

COMO É FEITO O TRANSPLANTE DE MEDULA

Basicamente são duas formas: o Transplante Autólogo e o Transplante Alogênico. A técnica do Autólogo consiste em fazer com que o paciente produza mais células-tronco. A partir desta produção, utilizando hormônios G-CSF, consegue-se coletar as células-tronco e criopreservar.

“Essa medula fica congelada. Posteriormente se faz a quimioterapia em altas doses no paciente, e depois se reinfunde as células coletadas previamente. Com isso há o repovoamento da medula óssea com as células-tronco reimplantadas para começarem a se desenvolver. Em torno de 16 dias já tem a repovoação do sistema hematológico. Deve-se lembrar que estes pacientes também acabam perdendo o sistema imunológico. Ele deve demorar em torno de um ano para refazer o seu sistema imunológico e voltar à sua vida normal”, esclareceu o dr. Roberto.

ALOGÊNICO

Já no Transplante de Medula Óssea Alogênico é necessário se ter um doador. O paciente também recebe a quimioterapia ou a radioterapia em altas doses, enquanto se coleta as células tronco ou a medula óssea do seu doador.

“Esse doador pode ser aparentado ou não-aparentado. Fazemos o exame que chamamos de HLA, de compatibilidade para saber se o paciente é compatível ou não. Quanto maior for o grau de compatibilidade, melhores serão os resultados. Hoje conseguimos fazer o transplante até com pacientes que sejam 50% compatíveis. Essa modalidade se chama Haploidêntico.

Realiza-se como no Autólogo. Coleta-se as células-tronco num sistema de aférese, onde o sangue do doador passa por uma máquina e aspiramos as células-tronco. Após isso, essa medula óssea pode ser infundida no receptor que recebeu previamente a quimioterapia ou a radioterapia.”

OUTRAS TÉCNICAS

Outra técnica utilizada é levar o doador ao centro cirúrgico, sob anestesia peridural, ou geral, e realizar punções na crista ilíaca, no osso da bacia, onde aspira-se a medula óssea. Essa medula óssea, então, da mesma forma, que a célula-tronco, pode-se infundir previamente no receptor, e tratá-lo com quimioterapia ou radioterapia.

Há ainda os transplantes chamados Singêlo, através do irmão gêmeo idêntico, o Transplante Totalmente Compatível, o Fullmatch, e o Transplante Parcialmente Compatível, chamado de Haploidêntico.

A IMPORTÂNCIA DAS ACOMODAÇÕES

Durante o período em que o processo é realizado, esse paciente deve ficar em um local especial, reservado e protegido principalmente de infecções.

O serviço de Transplante de Medula/Células-Tronco Hematopoiéticas, do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), iniciou as suas atividades em 2008, com 25 leitos. Agora, no mês de maio, será inaugurada uma nova ala, que ampliará para 50, o número de leitos.

Outro grande avanço do serviço é a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) vinculada diretamente à unidade de transplante.
Só para se ter ideia da grandiosidade deste setor, só no IBCC, por ano, são realizados cerca de 85 transplantes, sendo os mais comuns os Não-Aparentado, Haploidêntico e Alogênico, sendo sua equipe especializada em casos de alta complexidade.
Como se trata de um procedimento muito delicado, com a ampliação do setor Onco-Hematológico do IBCC, os pacientes poderão ser submetidos ao procedimento mais rapidamente e, consequentemente, a fila do transplante irá diminuir.

NOVAS INSTALAÇÕES DO IBCC

Como os pacientes não podem correr nenhum tipo de risco, um dos grandes diferenciais da nova ala é o aprimoramento ainda maior da segurança do paciente, com um ambiente totalmente preparado para que não ocorra nenhum tipo de infecção hospitalar.

De acordo com o dr. Roberto, os apartamentos possuem uma anti-câmara com filtro de ar com pressão positiva. Toda vez que se abre a porta, o ar sai desta anti-câmara para o corredor. Nesse momento os profissionais da área da saúde, acompanhantes e visitantes fazem a lavagem das mãos e se paramentam para entrar no quarto.

“O apartamento também tem pressão positiva, ou seja, o ar sempre sai e vai para a região da anti-câmara. Todo ar passa pelo sistema de filtro e recolhe principalmente os fungos. Então o ar chega filtrado no apartamento evitando infecções”, destacou o especialista.

Outro diferencial são os aparelhos no próprio quarto para fazer as avaliações diárias nos pacientes, para que não haja cruzamento com outros locais.

O paciente também é monitorado o tempo todo e, se ele tiver uma emergência, irá receber os tratamentos iniciais de terapia intensiva ainda no quarto. Posteriormente ele segue para a unidade própria, que também fica dentro da Unidade de Transplante de Medula Óssea, do IBCC.

“Todos os quartos possuem câmeras para monitorar somente o paciente. Ele é visualizado com o objetivo de se detectar precocemente uma complicação. Ao mesmo tempo em que esse paciente está recebendo os seus cuidados, dentro do posto de enfermagem, ele é visualizado pelos enfermeiros e pelos médicos que lá estão. Mesmo à distância, os médicos responsáveis, no caso eu e a dra. Maria Cristina, conseguimos ter a visualização desses pacientes”, finalizou o dr. Roberto.

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