De olho na nova gripe 0 993

Marco Aurélio Sáfadi, infectologista do Hospital São Luiz, esclareceu dúvidas sobre o tema em palestra no Tatuapé

Desde que foi identificada, a chamada gripe suína – doença respiratória causada pelo vírus influenza A (H1N1) – tem preocupado autoridades do mundo inteiro. A confirmação das primeiras mortes no Brasil intensificou o temor dos brasileiros, que ainda têm muitas dúvidas sobre o contágio, sintomas e tratamentos disponíveis. “Ainda há muita confusão e equívocos quando se fala em gripe suína”, afirmou o médico Marco Aurélio Sáfadi, infectologista do Hospital São Luiz, em palestra no auditório da unidade Anália Franco, no último dia 15.

Esclarecer e informar a população foi  justamente o objetivo do evento. Para facilitar a compreensão do público, o médico tratou logo de apresentar uma definição sobre a gripe de um modo geral. “Gripe é, única e exclusivamente, a doença causada pelo vírus influenza, que tem como característica infecções relacionadas ao trato respiratório superior (garganta, nariz, etc) e inferior (pulmões)”, esclareceu Sáfadi, acrescentando que a doença tem uma “sazonalidade muito bem definida”, ou seja, circula apenas nos meses frios.

O infectologista também apresentou informações sobre a transmissão do vírus influenza. Segundo ele, o período de incubação do vírus dura de 2 a 4 dias e, durante esse tempo, a pessoa não apresenta sintomas. No entanto, um dia antes de os sintomas se manifestarem, a pessoa já é capaz de transmitir o vírus. Sáfadi explicou ainda que, após o início dos sintomas, um indivíduo adulto continua a disseminar o vírus por até sete dias. “As crianças, por sua vez, transmitem o vírus por mais tempo, geralmente mais de uma semana”, ressaltou.

MUTAÇÕES

O infectologista também explicou por que costumamos “pegar gripe” várias vezes, diferentemente de outros vírus, como o sarampo e a rubéola, que só adquirimos uma vez na vida. “O vírus da gripe tem a peculiaridade de sofrer mutações, o que ocorre praticamente todo o ano. Isso faz com que o vírus ‘engane’ os anticorpos. Mesmo que o indivíduo tenha o anticorpo, este não vai funcionar mais, ou então funcionará de maneira parcial, de modo que o organismo fique novamente suscetível”, observou o médico.

De acordo com o infectologista, essas alterações são chamadas de “mutações menores” e espera-se que ocorram praticamente todo ano. No entanto, esse não é o único tipo de mutação. “Existe outro tipo, chamado de ‘mutação maior’, que felizmente não ocorre todo ano. Costuma ocorrer duas ou três vezes por século, mas é uma mudança substancial. Ele muda tanto que, para o organismo, é um vírus totalmente novo”, afirmou, acrescentando que as espécies animais também participam desse processo.

Segundo ele, com as “mutações maiores” os vírus adquirem a capacidade de passar dos animais para os seres humanos e, às vezes, adquirem a capacidade de passar de uma pessoa para outra. “No caso da gripe aviária (H5N1), o vírus que só acometia aves passou a ter a capacidade de passar dos animais para as pessoas. Só não virou uma pandemia, porque não adquiriu a capacidade de passar de uma pessoa para outra: infectava o homem e parava por ali”, lembrou Sáfadi.

Já no caso da gripe suína, segundo o médico, o mais provável é que tenha ocorrido uma “orgia genética” com os vírus que acometem homens, aves e suínos, resultando em um novo vírus. Entretanto, diferentemente da gripe aviária, o vírus também adquiriu a capacidade de passar de uma pessoa para outra.

SINTOMAS E DIAGNÓSTICO

O médico também apresentou dados de um estudo, realizado com os primeiros 300 pacientes norte-americanos a contraírem o influenza A (H1N1), que concluiu que os sintomas da nova gripe são praticamente idênticos aos da gripe sazonal. “É impossível você diferenciar a nova gripe daquela que nos acomete anualmente baseando-se apenas nos sintomas”, disse o médico.

Segundo o infectologista, a única maneira de se confirmar um caso de gripe suína é com um diagnóstico clínico. “São técnicas modernas que identificam o tipo e o subtipo do vírus. É um exame importante para a vigilância epidemiológica. No entanto, não se presta a ser feito em todos os pacientes. É muito caro e apenas alguns institutos os realizam. O exame só é solicitado em casos muito graves, mesmo porque a confirmação não tem peso na decisão terapêutica a ser tomada, que é praticamente a mesma dos casos de gripe comum”, explicou o médico.

TRANSMISSÃO E PREVENÇÃO

Marco Aurélio Sáfadi informou que o vírus da gripe suína é transmitido, através de tosse ou espirros, a pessoas até dois metros de distância. Segundo ele, objetos manuseados também são meios de transmissão. “O saudável hábito de lavar as mãos frequentemente é uma iniciativa que diminui muito o risco de contágio. Deve-se tomar essa precaução depois de andar de ônibus ou metrô e depois de ir a restaurantes, por exemplo”, orientou o médico.

Sáfadi disse ainda que é recomendável evitar aglomerações em locais sem circulação de ar, muito comuns no inverno quando as pessoas tendem a fechar as portas e janelas dos ambientes. O médico afirmou ainda que não há estudos científicos que permitam dizer que o uso de máscaras traga um risco menor de contágio. “Quando você começa a transpirar, a máscara fica molhada e perde a eficiência. Baseado nos fatos de hoje, não se recomenda o uso de máscaras fora do ambiente hospitalar. É muito discutível o grau de proteção que elas oferecem”, afirmou.

VACINAS

Segundo o médico, a vacina contra a gripe suína deve demorar mais tempo que o usual para ficar pronta. “O vírus não tem se multiplicado bem em laboratório e a vacina deve demorar de três a seis meses para ficar pronta. Alguns países do primeiro mundo já saíram na frente na produção. No Brasil, há a promessa de que o Butantã irá produzi-la”, disse o infectologista.

Sáfadi também informou que o Centro de Controle de Doenças, de Atlanta (EUA), já estipulou uma lista de prioridades para a distribuição da vacina. A relação estabelece que quem deve receber a vacina primeiro são os médicos e paramédicos, seguidos pelas gestantes, prestadores de serviços essenciais, crianças e adultos com agravantes (como diabetes, câncer e problemas no pulmão), crianças e adultos saudáveis e, por último, os idosos.

Sáfadi explicou que, diferentemente da vacinação contra a gripe comum, os idosos não foram priorizados. Segundo ele, estudos recentes revelaram que quase metade dos maiores de 60 anos tinham anticorpos contra o novo vírus. “A hipótese é de que um ancestral desse vírus novo circulou há aproximadamente 60 anos. Por isso, quem viveu nessa época deve ter tido contato com um vírus similar e apresenta um certo nível de proteção”, revelou o infectologista.

MEDICAMENTOS

Segundo o infectologista, os medicamentos para o tratamento estão em poder do governo e a decisão de utilizá-los cabe à Secretaria de Saúde. “A recomendação da secretaria é de priorizar a sua utilização em pacientes considerados em grupo de risco e em casos de maior gravidade. Esses medicamentos não matam o vírus, mas inibem o alastramento da doença, sendo muito eficazes nas primeiras 48 horas de sintomas”, observou.

“A transmissão do vírus me parece consistente e o cenário atual subestima a real carga da doença, pois os casos conhecidos são apenas os confirmados. O espectro de casos é muito amplo, indo desde os mais leves – a grande maioria, com excelente evolução – até, os mais graves. No entanto, a doença tem se mostrado sensível aos medicamentos”, concluiu Sáfadi.

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