Alma de cozinheira 0 932

A banqueteira Tatá Cury organiza eventos badalados para milhares de pessoas sem deixar de lado a afetividade que a comida deve passar

Prosa boa precisa ser acompanhada de bolo e café bem quentinho, como se faz no interior. Quem entende isso bem é a banqueteira Tatá Cury que, embora more na cidade grande, parece carregar consigo um pouco dessa alma interiorana. Seja quando organiza seus banquetes para grandes empresas, cozinha em casa para os amigos, ou no fogão à lenha da fazenda, o que ela procura é oferecer momentos de prazer e despertar sensações que fiquem na memória das pessoas. Para ela, poucas coisas são tão agregadoras quanto a comida e a cozinha. “Tanto a cozinha quanto a comida integram porque elas precisam ser compartilhadas”, diz.

Famosa por seus banquetes refinados, que vão desde lançamentos de novelas globais (como Paraíso e Desejo Proibido) até um casamento em Portugal, Tatá é um rosto constante em eventos importantes e nas páginas das revistas de celebridade. Pela Zona Leste, esteve por trás da inauguração do Shopping Anália Franco e, no mês passado, do Espaço Gourmet, do Shopping Tatuapé. Mas esse lado badalado consegue perfeitamente dividir espaço com alguém simples, que adora conversar e receber as pessoas. Tatá é alegre, sorridente, alto astral e procura levar esse clima de felicidade para a comida que prepara.

A história da Tatá banqueteira começou ainda na adolescência, quando ela gostava de acompanhar o pai na cozinha. O exportador que também criava gado leiteiro viajava muito e, quando voltava, sempre trazia uma receita nova no bolso. “Ele viajava sempre pela Varig, que tinha a melhor cozinha de 1ª classe. Então, ele contatava os chefs, que normalmente estavam no voo, e começava a anotar as receitas dos pratos. Quando chegava de viagem eu já sabia que vinha uma festa e adorava ajudar”. Naquela época, ela era a assistente, aquela que picava os ingredientes, mexia as panelas e lavava as verduras. “Até que fui me graduando para começar a distribuir os ingredientes na comida e fazer virar um prato”.

Mas essa história de ajudar o pai não tinha, necessariamente, a pretensão de virar uma profissão. Até que um dia, participando dos leilões que ele organizava na fazenda da família, ela achou que seria importante ter algumas comidinhas para acompanhar a água e o uísque que eram servidos. Resolveu encarar a empreitada e, de cara, fez um coquetel para servir 300 pessoas. Deu tão certo que acabou sendo contratada para fazer os leilões de outros fazendeiros, além de eventos corporativos para as empresas que eles administravam. E assim, a artista plástica de formação começou a carreira de banqueteira.

Admiradora daquela cozinha de avó e dos ingredientes brasileiros, Tatá busca imprimir em suas criações essa essência afetiva, mas com um toque um pouco mais moderno. “Vamos falar de um simples bolo de chocolate que, normalmente, remete à infância. O que eu desenvolvi leva a massa comum, aquela que a gente compra pronta no supermercado, mas, em vez de misturar todos os ingredientes de uma vez eu bato os ovos com três cenouras no liquidificador. Já mudei tudo, mas continuo com a alma da memória gustativa. Ainda existe a essência da simplicidade”.

Outra preocupação é que a sua comida seja facilmente entendida por todos. Por isso, ela não é 100% adepta dessa onda da chamada gastronomia molecular, que transforma a comida em espuma, spray ou gelatina. “Como não posso lutar contra isso, eu me adapto. Faço espumas para enfeitar alguns pratos, mas usando aquilo que dá entendimento. O meu caso é diferente do de um chef, que apresenta um cardápio e as pessoas escolhem o que querem comer. Eu ofereço um banquete inteiro, para muitas pessoas, e quero que todos degustem tudo. Então, para que todos comam é importante que tenha esse bom entendimento”.

Para Tatá, o grande trunfo de quem trabalha com comida é fazer algo que transmita o poder da memória gustativa. “As pessoas precisam se lembrar sempre daquilo que comeram. A leveza que eu imprimo nos meus pratos é para que elas possam degustá-los do começo ao fim e saiam com uma sensação de bem-estar”. Para ela, por exemplo, a memória gustativa mais forte é o cozido que seu pai fazia em casa. “Toda vez que o papai fazia esse prato ele dizia ‘é tão prazeroso fazer esse cozido para a Tatá porque é a única coisa que eu vejo ela comer mesmo’. Quando papai morreu, uma das coisas que não me saíam da cabeça era que ele não ia mais fazer o cozido para mim”.

A banqueteira Tatá Cury recebeu a reportagem da revista em sua casa com bolo de chocolate e café quentinho

Sustentabilidade

Outra bandeira que Tatá levanta na sua cozinha é a da sustentabilidade. Contra o desperdício, a banqueteira sempre procura aproveitar ao máximo os alimentos. O sorvete de banana que ela criou, por exemplo, leva, inclusive, a casca da fruta. “Uma vez fui procurar em quatro lugares um sorvete de banana. Os preços iam de R$ 87 a R$ 220 o quilo, uma coisa absurda porque a banana é fácil de encontrar no Brasil e não tem sazonalidade. Então eu decidi que ia fazer o sorvete. E fiz um sorvete de banana com base em sorvete de creme e nata que leva a casca caramelizada para dar um diferencial, uma crocância. Esse é um caso de reaproveitamento”. A cozinheira também procura usar ingredientes orgânicos e naturais que, além de contribuírem para o meio-ambiente, são mais saudáveis. E essa preocupação não é uma coisa recente, mas algo que sempre a acompanhou. “Eu sou neta de uma mulher que sempre lutou e defendeu o não desperdício e a sustentabilidade. Estou falando de uma senhora que morreu com quase 90 anos, 20 anos atrás. Ela tinha um instituto de hidroterapia no Conjunto Nacional da avenida Paulista e lá mantinha um restaurante. Todas as receitas eram dela, que sempre usou muito legume, arroz integral e nunca usou carne vermelha. Então, eu venho com essa cultura desde pequena. Aplicar isso foi fácil”.

História de amor

Um capítulo à parte na vida de Tatá Cury é sua história de amor com Guilherme London, com quem está casada há nove anos. Namorados na adolescência, eles seguiram suas vidas separados, casaram-se, tiveram filhos e se separaram. O reencontro aconteceu 25 anos depois da adolescência e resultou um romance que já saiu nas páginas de várias revistas. É melhor, ela mesma contar.

“Eu tinha 15 para 16 anos quando encontrei o Gui e começamos a namorar. E fomos até os 17 anos. Ele viajava muito porque gostava de surfar e também começou a atuar como modelo na Europa (ele era chamado por Yves Saint Laurent para desfilar as roupas de caça dele para a realeza). Então, a gente terminou e cada um seguiu sua vida, fez sua família e teve seus filhos. Um dia, ele já estava separado e eu também, minha irmã e meu cunhado o encontraram em um restaurante e decidiram armar uma história pra gente se encontrar. Eu descobri e, antes de pagar esse mico todo, fui onde ele morava para pegar o telefone. Eu liguei e, quando disse alô, ele falou “eu não acredito”. Fazia 28 anos que a gente não se falava e ele reconheceu minha voz. Descobri que ele não tinha jogado nada fora. Ele tinha uma caixa com tudo guardado, florzinha, folha seca, pulseira, diário etc. Foi um reencontro emocionante. Voltar com o Gui foi fácil. Faz 9 anos”.

Parece que cozinha e amor andam realmente lado a lado, não é?

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