
Atriz vê legado feminino como motor da protagonista Agrado, de ‘Coração Acelerado’
Poucos dias após a estreia de “Coração Acelerado” na faixa das 19 h da Globo, Isadora Cruz já concluiu que tem uma personagem que atua como uma espécie de régua moral da trama criada e escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento. Agrado não é apenas uma jovem compositora que tenta abrir caminho no sertanejo: ela é o retrato de um tipo de força que o folhetim relaciona com ancestralidade e persistência. “Agrado é um exemplo de ética, de coragem, de um caminho certeiro, que é do bem e de luz”, define a atriz.
A novela articula o sonho musical da mocinha, que tem um passado familiar atravessado por segredos, culpa e silêncios. Agrado carrega um talento que, na verdade, nasce antes dela e acaba por mudar o peso de cada passo dado. Para Isadora, o que diferencia a personagem é menos a ambição de virar uma estrela e mais o modo como ela atravessa as negativas e se recusa a desistir. “Mesmo com tantas portas se fechando, Agrado ainda corre atrás de novas portas para abrir e tem uma resiliência e uma esperança que só uma criação feminina dá”, afirma.
Esse lar é o alicerce dramático da protagonista. Agrado cresce em um ambiente totalmente feminino, guiada por referências que não abrem espaço para fragilidades: são mulheres que seguem trabalhando, insistindo e cuidando, mas sem romantização. “Ela vem de uma família totalmente matriarcal e foi dessa forma, sendo criada por duas mulheres, que ela conseguiu florescer como essa mulher tão corajosa e sem medo”, defende Isadora.
Com o enredo avançando, Agrado se movimenta entre o impulso de cantar e as tensões que cercam o triângulo com João Raul e Naiane, papéis de Filipe Bragança e Isabelle Drummond. Mas sua intérprete parece não definir a personagem pela disputa amorosa, e sim pela trajetória de luta. “Agrado é uma heroína tão bem escrita, que vem sendo construída com muito amor e cuidado por mim e pela direção”, enaltece.
Como você se sente interpretando a Agrado em “Coração Acelerado”?
Primeiramente, estou muito feliz. Agrado é uma heroína tão bem escrita, que vem sendo construída com muito amor e cuidado por mim e pela direção. Acho necessário pontuar a importância de “Coração Acelerado” ser uma novela escrita por duas mulheres. Eu venho de outra também escrita por uma mulher, a Claudia Souto, e minha personagem em “Volta por Cima”, a Roxelle, passou uma mensagem sobre o símbolo da mulher em perigo, que é um símbolo universal. Foi muito importante para as mulheres saberem da existência dele, porque eu, Isadora, não sabia que se a gente vir esse símbolo na rua é porque a mulher está em perigo e não está podendo verbalizar isso. E eu sinto muito isso no texto da Isabel e da Maria Helena: vemos não só o que está escrito pelas palavras ditas, mas também o que fica no inconsciente.
Como você vê a Agrado nesse sentido?
Agrado é um exemplo de ética, de coragem, de um caminho certeiro, do bem e de luz. Ela vem de uma família totalmente matriarcal e foi dessa forma, sendo criada por duas mulheres, que ela conseguiu florescer como essa mulher tão corajosa e sem medo. Quando você cresce com esse exemplo de mulheres trabalhadoras, que enfrentaram tanta coisa e persistiram nos seus sonhos, que passaram por tantas adversidades e conseguiram manter esse brilho e essa alegria de viver, isso traz um exemplo de muita crença. Acho que Agrado consegue crescer sem medo, sem traumas, de peito aberto.
O que mais marcou você quando leu sobre a Agrado?
Assim que eu peguei o texto, a coisa que mais me marcou foi a Agrado vir desse lar tão bonito e consistente. E apesar de não ter uma figura paterna, ela tem essa crença na vida, essa esperança, essa fé de que as coisas vão dar certo. Mesmo com tantas portas se fechando, Agrado ainda corre atrás de novas portas para abrir e tem uma resiliência e uma esperança que só uma criação feminina dá.
Como é sua relação com a Leticia Spiller e a Elisa Lucinda, que interpretam a mãe e a madrinha de Agrado na história?
Eu tive um sonho em que eu, Elisa Lucinda e Leticia Spiller fazíamos “As Bruxas de Eastwick”. Elisa fazia a Cher, eu fazia a Michelle Pfeiffer e Letícia era a Susan Sarandon. A gente tem essa coisa muito mística! Acho que esse encontro energético de nós três estava escrito. É a beleza dessa profissão: artistas que talvez nunca esbarrassem com a gente na vida, mas aí escolhem a dedo essas almas, essas histórias, para se entrelaçarem, para se conectarem. A gente tem se divertido muito e é gostoso estar com as duas. Sou grata pela troca, são artistas que eu sempre admirei e contracenar com elas e, em tão pouco tempo, chamá-las de amigas, de irmãs, é uma alegria para mim.
O que você tem achado do texto de “Coração Acelerado”?
Esse texto é incrível! A gente se segura muito, o tempo todo, para não chorar. Quando pegamos o texto, é lágrima escorrendo. Quando vamos passar cena, é a gente se segurando para não chorar. É avassalador, nos atravessa de uma forma muito profunda. Elas (as autoras) sabem exatamente quais palavras colocar na boca dessas mulheres fortes e potentes. E é muito bonito poder passar essa mensagem para o Brasil. São cenas muito poéticas, mas até nas triviais, de passagem da novela, que estão reiterando uma mensagem, é uma filosofia que está sendo passada ali.
Você parece ter se dedicado bastante ao sotaque da Agrado…
Eu acho importante manter essa fidelidade. É muito bonito ver artistas que, quando eles tentam, fazem o máximo. Em “Guerreiros do Sol”, vimos vários sudestinos fazendo sotaque nordestino muito bem. Pessoas que se dedicam e fazem essa pesquisa que, para mim, é muito importante. É uma das partes mais cruciais trazer essa representatividade e honrar essas agrados do país. Quando é o meu sotaque, eu fico realmente muito preocupada de me ver na tela, de a novela ser realmente um espelho fiel da realidade da região que está sendo retratada. Nesse sentido, o trabalho da Iris Gomes (da Costa), que é nossa professora de prosódia, tem sido muito importante.
Como foi gravar em Goiás?
Foi um presente pisar naquela terra e começar nossas gravações por lá, porque não é a gente quem escolhe esses calendários todos de gravação. Muitas vezes, a gente acaba terminando pela viagem. Foi generoso da produção, da direção, permitir que a gente começasse ali, tendo essa imersão. E foi muito bonito. As terras que eu e Leticia pudemos desbravar, os passeios que pudemos fazer, as trilhas, entender esse amor que o goiano tem com a terra, essa conexão e esse orgulho de ser de lá… O Brasil é tão gigantesco, tem tantas culturas e tantas belezas para a gente descobrir! E Goiás não era um estado que eu conhecia.
Você pretende voltar?
Estou esperando as minhas férias, em agosto, para passar lá. Eu estou apaixonada pelas belezas naturais e pela energia que tem naquela terra. Agora, eu compreendo esse orgulho que o nordestino tem de ser nordestino e que o goiano também tem de ser goiano.









