Um fator comum a todos os brasileiros

Um fator comum a todos os brasileiros

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Observador e psicólogo por obrigação, sempre me interessou o que pensam as pessoas. Em certa época, uma curiosidade me assaltou: haveria algo que poderia ser considerado comum a todos os nossos patrícios? A princípio, pensei ser negativa a resposta. São enormes as diferenças culturais, raciais, religiosas, sociais e étnicas.

shutterstock_218405893Com relação a algumas questões, há quase unanimidade: o futebol, por exemplo. Anos atrás, Fernando Henrique Cardoso aconselhou Felipão a convocar o Romário para a seleção. Felipão reagiu com sua peculiar sutileza, dizendo que o FHC deveria cuidar de seu trabalho e deixá-lo cuidar do seu. Tremendo alvoroço! Jornalistas passaram madrugadas em claro. A nacionalidade viveu momentos de comoção. Acontecimento só comparável ao Dia do Fico, aquele do Pedrão I. E falando em fico, a coisa ficaria ainda pior se o ex–presidente teimasse em lançar uma tréplica sobre a réplica “filiposa”. Voltando ao início, ficamos no quase, pois nem o futebol é unanimidade. Há indivíduos que não dão a mínima para ele.

Há também casos esporádicos de paixão repentina. Lembram-se do Guga? Redundou em nova religião – o “gugaísmo”. De repente, quase todos os brasileiros se tornaram fanáticos por tênis. Torcida na frente da telinha: bolinha pra cá, bolinha pra lá, bolinha pra cá, bolinha pra lá… Resultado: aumento de casos de torcicolo. Já quase desistia de procurar o tal fator comum, que chamei de fator C, quando, certa manhã, conversando com um comerciante amigo, ouvi dele:
– Vamos ter paciência, com a queda do dólar as coisas devem melhorar.
– Eureca!!! Finalmente, por mero acaso, encontrei o fator C!
Retirei-me às pressas. Embasbacado, o homem ficou parado na porta do seu comércio sem entender bulhufas. Em casa, analisei seriamente o assunto. Tudo pensado e repensado, não havia dúvida alguma, por puro acaso eu descobrira o fator C. Este era composto de duas palavrinhas apenas: “depois de…”. Conselho para os que duvidam: perguntem como vão as coisas ao vizinho, ao padeiro, ao proprietário da banca de jornais, ao médico, ao advogado… Sempre ouvirão as rotineiras respostas:
– O momento não é dos melhores, mas depois do Carnaval…
– As coisas estão complicadas, mas depois da Páscoa…
– Tenho esperanças que depois da Copa… Isso se o Brasil ganhar…
– Ano eleitoral, você sabe como são as coisas, mas depois das eleições…
Creio não ser absurdo fazer uma pergunta, será que um dia esse otimismo do brasileiro, quase sempre infundado, terá fim? Também nada me custa dar uma de profeta e tentar encontrar uma resposta. Talvez depois de todos esses “depois de…”.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo e da União Brasileira de
Escritores. peabarca@yahoo.com.br

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