Um consultor literário improvisado

Um consultor literário improvisado

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Após 25 anos de atividades literárias, defronto-me com algo inusitado. Pessoas me pedem conselhos sobre o assunto. Não pretendo desanimar ninguém, mas, convenhamos, nem todos têm o dom para a coisa. Confesso não ser a melhor pessoa para dar opinião a respeito da vocação de cada um. Quando procurado, disparo uma crucial pergunta: qual seu motivo para escrever um livro? Resposta rotineira: deixar lembranças da vida para filhos e netos. Ah, ainda bem! Pois se o sujeito pretendesse ser escritor no Brasil, eu simplesmente o aconselharia a desistir. Os responsáveis pelos departamentos editoriais não estão nem um pouco preocupados com a literatura. O problema não é saber se o indivíduo tem talento, a questão é saber se é “vendável”. Se não for “vendável”, melhor esquecer. Contudo, se a pessoa for “turrona”, daquelas que não ouvem conselhos, digo-lhe para ir em frente. Às vezes lidamos com sujeitos saturados de livros de autoajuda, os tais que apregoam ser tudo possível. Se as editoras se negarem a fazer seu livro, partirão para produção própria.

shutterstock_159503864— Quantas páginas terá seu livro? — pergunto.
— Umas duzentas, mais ou menos.
— Então, prepare seu bolso, meu caro. Talvez venha a dilapidar sua magra poupança ou parte do seu fundo de garantia. Terá que mandar imprimir pelo menos mil exemplares para viabilizar seu projeto. Se tiver um bom rol de amizades, talvez venda quatro ou cinco dezenas de exemplares na tarde de autógrafos. Nos meses seguintes, talvez consiga vender mais alguns na papelaria de um amigo, na padaria da esquina ou numa barraca de churros. Após isso, é só contabilizar os prejuízos.

Outro bom conselho que costumo dar aos pretensos escritores: ao presentear um amigo com seu trabalho, jamais lhe pergunte se o leu. Sempre obterá as constrangedoras respostas: “ainda não tive tempo, mas deixe comigo, quando for para a praia…”, “tão logo acabe de ler o Harry Porter n° 4…” e outras tantas coisas do gênero. Vamos voltar ao assunto:

— Ah, perdão! Esqueci que apenas deseja fazer um livro para deixar para os filhos e netos.

Em tal caso tudo se simplifica. Faça apenas uma monografia encadernada. Ego massageado, sentir-se-á um Vitor Hugo ou um Saramago. No entanto, não seja muito otimista, pois seus filhos e netos provavelmente não se darão ao trabalho de ler sua obra prima. Não se surpreenda se à falta de papel higiênico vierem a pendurar seu livro na parede do banheiro.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da União Brasileira de Escritores.

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