Todos somos anormais

Todos somos anormais

Urge compatibilizar as anormalidades

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Webtelefone toca. Era a diretora de uma escola estadual do bairro. Agendamos um contato. Pede-me uma palestra em seu estabelecimento. Pergunto-lhe sobre a idade dos garotos.

— Não é para os garotos, é para as professoras — responde ela.

— E qual o tema que a senhora propõe? — perguntei.

— Gostaria que falasse sobre a harmonia no grupo.

— Então, pelo visto, deve estar havendo conflitos entre elas?

— Infelizmente! O senhor se dá bem com esse tema?

— Eu me dou bem com qualquer tema. Tanto falo sobre a História do Tatuapé, como sobre plantações de rabanetes no norte da Tunísia — brinquei.

Dia da palestra. A sala tomada por mais de 40 professoras. Elaborei, dias antes, uma estratégia de impacto. Após os cumprimentos de praxe, tasquei: Todas vocês são anormais!

Tumulto na sala, a diretora me olhou assustada. Não tenho a mínima ideia do que pensou.

— Então, o senhor também deve ser anormal — gritaram algumas.

— Claro que sim. Todos nós somos anormais. E querem saber, dos bilhões de seres que passaram por este nosso mundinho, apenas uma dúzia ou pouco mais foram pessoas normais.

— E como conseguimos viver em comunidade se somos anormais? — perguntaram.

— Vivemos mal. Impera entre nós: a falsidade, o egoísmo, o ódio, a inveja e outras tantas coisas. Em face disso, só há uma solução: compatibilizar as nossas anormalidades. Temos que “zerar” o nosso HD, ou seja, o nosso cerebelo. Proceder a uma lavagem cerebral.

— Sempre ouvimos dizer que é algo muito ruim ser submetida a uma lavagem cerebral.

— O termo está mal empregado. O que sofremos desde o dia do nascimento até a morte é um “entulhamento” do cérebro. Temos que limpá-lo para viver em harmonia. A lavagem consiste em erradicar as taras, os vícios, os preconceitos e os defeitos comportamentais.

— O senhor já lavou o seu cérebro, já lhe tirou o entulho? — pergunta óbvia.

— Estou desentulhando-o sempre. Todos os dias, procuro ser melhor do que fui no dia anterior, ser mais tolerante, mais compreensivo, mais sensível e menos preconceituoso.

A palestra se estendeu por hora e meia. Soube depois, pela diretora, que deu bom resultado.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da União Brasileira de Escritores.

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