Todos são culpados até prova em contrário

Todos são culpados até prova em contrário

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shutterstock_158768201A semana fora cheia de acontecimentos desagradáveis. Munido do carnê, totalmente pago, Ambrósio comparecera ao escritório de uma financeira para provar a quitação de uma dívida. Explicação: falhas no sistema, foram deletados os registros de pagamentos.

Visita ao Procon: queixa referente ao valor de uma conta de energia elétrica, cinco vezes acima do normal. Justificativa: o funcionário errara ao ler os números do relógio. Ao sair de um posto, seu carro apresentara problemas, morria a todo instante. Visita ao mecânico.

– Ambrósio, fique esperto! Botaram gasolina “batizada” na sua caranga. Agora, vamos ter que esvaziar o tanque, fazer uma limpeza e reabastecer.
No caixa de um supermercado, os preços não correspondiam aos fixados nas prateleiras.
– Sabe o que é, senhor, o sistema ainda não atualizou os preços de alguns produtos com os códigos de barra – desculpou-se a garota.
Foi a gota d’água! Ambrósio sofreu uma crise “promotórica”.
Deixou a esposa no mercado e saiu pela rua encarando e acusando a todos que encontrava. Dedo em riste, apontou para um casal de meia-idade que passava agarradinho:
– Então, seu velho safado, o que anda aprontando?
O homem empalideceu. Soltou os braços da cintura da mulher e se desculpou:
– Como foi que descobriu? Pelo amor de Deus, não diga nada à minha esposa!
Na sequência, cruzou com um sujeito bem trajado e posudo. Não deixou por menos:
– Ei, você aí, cara! Não disfarce não, estou de olho em você.
– De que diabo você está me acusando, seu imbecil?
– Ainda não sei, mas vou investigar. Mas, vou ferrar você na hora em que descobrir.
O indivíduo balançou a cabeça e se retirou rindo.
Ambrósio passou a tarde inteira acusando a todas as pessoas com as quais cruzava. Cansado de tanto andarilhar, entrou numa igreja. Na penumbra do recinto, algumas mulheres se confessavam a um jovem padre. Chegada sua vez, ajoelhou-se.
– Padre, uma grande dúvida me assalta, não sei se devo…
– Não estou entendendo… Não sabe se deve o quê, meu filho?
– Continuar ou desistir de denunciar todos os pecadores desta maldita cidade.
– Sabe mesmo o nome de todos os pecadores da comunidade? – perguntou o sacerdote.
– Tenho uma lista imensa, daria para encher um dicionário.
– Por favor, meu filho, não conte nada ao pároco da nossa igreja. Afinal, todos erramos. Juro ao senhor que foi apenas uma vez, eu nem sabia que a jovem era casada.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo e da União Brasileira de
Escritores. peabarca@yahoo.com.br

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