Sírios e libaneses no Tatuapé

Sírios e libaneses no Tatuapé

Apesar da imigração portuguesa e italiana ter sido predominante no bairro, os sírios e libaneses também tiveram sua história na região

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O Tatuapé do começo do século 20 ainda tinha ares rurais e estava longe de ser o bairro pulsante que é hoje. Naquela época, essa porção da cidade era dominada por chácaras de frutas e verduras e também por algumas olarias, que se instalaram às margens do Rio Tietê quando este ainda era sinuoso e limpo. Muitos dos trabalhadores e proprietários de terras eram imigrantes portugueses e italianos.

As instalações do Lar Sírio Pró-Infância atualmente. Algumas alas estão em reforma
As instalações do Lar Sírio Pró-Infância atualmente. Algumas alas estão em reforma

Mas os sírios e libaneses – que se instalaram principalmente na região da Rua 25 de Março quando chegaram a São Paulo – também tiveram o seu quinhão na história do bairro. Eles estão por trás do loteamento do Parque São Jorge, da criação do Lar Sírio, de algumas importantes indústrias que se instalaram no Tatuapé e também de um consulado informal do Líbano que movimentou a Rua Filipe Camarão. Que tal conhecer um pouco dessa história?

Parque São Jorge

Em 1916, Assad Abdalla – que chegou ao Brasil em 1895 vindo de Homs, na Síria -, já estava com seus negócios estabelecidos na Rua 25 de Março. Seguindo a risca o princípio de que deveria guardar metade do lucro anual para investir em imóveis, comprou um terreno de um milhão de metros quadrados no Tatuapé, terras que iam da Avenida Celso Garcia até o Rio Tietê. Em uma época na qual o bairro ainda tinha características rurais, muita gente achou que Assad estava fazendo uma grande besteira. Bem, parece que ele tinha mesmo visão de futuro. Afinal, o terreno lhe rendeu vários negócios.

Crianças internas do Orfanato Sírio em atividade (foto sem data de identificação)
Crianças internas do Orfanato Sírio em atividade (foto sem data de identificação)
Corgie e Assad Abdalla, ao centro, com os 10 filhos, em foto de 1930
Corgie e Assad Abdalla, ao centro, com os 10 filhos, em foto de 1930

Em uma parte, Assad abriu ruas – sendo a principal delas a Rua Síria – e construiu imóveis, começando, assim, o Parque São Jorge. Em outro ponto, mais ao fim da Rua São Jorge, havia uma quadra esportiva e um parque para passeios e lazer. Esse terreno, com cerca de 45 mil m2, foi vendido ao Sport Club Corinthians Paulista em 1926, por 750 contos de réis, que deveriam ser pagos em 12 anos. Antes, o Esporte Clube Sírio, fundado em 1917, chegou a usar as instalações como sua sede social.

Mas a venda do terreno para o clube paulista não encerrou a relação de Assad com o bairro. Afinal, ele foi um dos benfeitores do Lar Sírio, instituição de caridade fundada pela colônia síria na Rua Serra de Bragança em 1923, e ainda teve um indústria têxtil no mesmo Parque São Jorge que ajudou a povoar. A “Indústrias Santa Virgínia de Fiação e Tecelagem” foi fundada em 1941 e chegou a ter 20 mil fiandeiras e 600 funcionários. Em dois anos, essa fábrica se transformou na “Têxtil Assad Abdalla S.A” e, mais tarde, deu origem ao Grupo York S.A Indústria e Comércio – a junção da indústria têxtil com as Indústrias York – de produtos cirúrgicos (fundada por filhos de Assad) – e a Plásticos York. O prédio onde a fábrica funcionou, logo ao lado Parque Piqueri, ainda existe, mas já não pertence mais à família, que continua se dedicando aos negócios na Rua 25 de Março, com a loja Doural.

Lar Sírio

Desde 1923, o Lar Sírio Pró-Infância funciona na Rua Serra de Bragança. A história começou quando a colônia síria de São Paulo resolveu criar uma instituição para ajudar cinco órfãos da comunidade e criou o Orfanato Sírio, implantado no terreno de 15 mil m2 comprado do português Manuel Jacinto Pavão. Na casa simples que já havia no terreno é que foram instaladas as cinco crianças e mais um casal para tomar conta delas. Em 1945, foram comprados os últimos 10 mil m2 desse mesmo terreno, formando o que hoje é todo aquele espaço entre as ruas Serra de Bragança, Apucarana, Cantagalo e Itapura.

A Capela de São Jorge, que fica dentro do Lar Sírio, em foto da década de 1950
A Capela de São Jorge, que fica dentro do Lar Sírio, em foto da década de 1950

Lá no seu começo, o lar atendia apenas as crianças sírias, mas logo abriu espaço para crianças brasileiras. Com o aumento da demanda, a colônia se uniu para apoiar financeiramente a construção de novos espaços de atendimento. Assim, as família que viviam no Brasil faziam doações para que se pudesse construir as diversas casas e pavilhões que ocupavam o terreno do orfanato, que chegou a abrigar cerca de 200 crianças. Muitos doaram imóveis de aluguel em outros bairros da cidade para que a renda fosse revertida à instituição. Assad Abadalla, o sírio que fundou o Parque São Jorge, foi um importante benfeitor do orfanato, tanto que foi presidente honorário da instituição durante 20 anos. Mesmo depois de sua morte, sua esposa, Corgie Abdalla, continuou ajudando a instituição.

Lá dentro, há uma curiosidade. A capela de São Jorge foi construída em 1937 com recursos doados por Elias Dib Schwery.

A igreja é uma réplica em menor escala da Igreja Ortodoxa Antioquina, que fica na região do Paraíso e já foi palco de muitas celebrações.

Desde 2015, o Lar Sírio não possui mais nenhuma criança em regime de internato, ou seja, a função de orfanato não existe mais. Hoje, a instituição, que continua sendo administrada por membros da colônia síria, atende 2.500 crianças e adolescentes por ano em diversos programas sociais e profissionalizantes.

Chucri Curi

Uma casa na Rua Filipe Camarão funcionou como uma espécie de consulado informal do Líbano em São Paulo durante alguns anos. Lá vivia a família de Chucri Curi, um jornalista que emigrou do Líbano para o Brasil em 1897, aos 27 anos, com o sonho de abrir seu próprio jornal. E conseguiu. Em 1906 ele fundou “A Esfinge”, uma publicação escrita em árabe que durou 36 anos, até a sua morte. “Meu pai veio para o Brasil porque queria fazer um jornal fora do Líbano. Lá ele escrevia em jornais locais e já era conhecido. Queria ampliar o horizonte para a língua libanesa”, conta sua filha Isabel Curi Nader, 93 anos. Ela conta, também, que ele primeiro se instalou no centro da cidade, e foi para o Tatuapé porque havia um italiano construtor de casas, de nome Caetano, que oferecia imóveis para os imigrantes.

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Foi nessa casa da Rua Filipe Camarão que a família de Chucri Curi cresceu. Ele e a esposa, Mathilde, tiveram cinco filhos (Hend, Najla, Anníbal, Salma e Isabel). Em um escritório montado no porão do imóvel, Chucri Curi escrevia seus artigos e editava o jornal, que era impresso em uma gráfica própria, que ficava na Rua Formosa. Na década de 1930, ele comprou uma cartonagem que funcionava no andar de cima de sua gráfica para que o único filho homem, Annibal, tomasse conta. Mas o rapaz sofreu uma acidente e ficou paralítico. “Ele ficou bem desanimado com o acidente do meu irmão e vendeu a cartonagem para o marido da minha irmã”, conta Isabel. O genro, no caso, era Nagib Izar (avô do Deputado Ricardo Izar Filho), que transferiu a cartonagem para a Rua Filipe Camarão, em frente à casa do sogro.

Por seu envolvimento com a imprensa e os assuntos do Líbano, a casa de Chucri Curi virou um ponto de encontro da comunidade, de novos libaneses que chegavam, jornalistas e intelectuais. Há quem diga que a primeira versão da bandeira libanesa foi criada no imóvel da Rua Filipe Camarão, onde ele mantinha um lugar, em todas as janelas, para hastear as bandeiras do Líbano e do Brasil.

Chucri Curi com a esposa Mathilde e as filhas, Hend e Najla, em frente à casa da Rua Filipe Camarão, onde moraram. A foto é do começo do século 20. No alto, reprodução de exemplar do jornal A Esfinge, de 1908
Chucri Curi com a esposa Mathilde e as filhas, Hend e Najla, em frente à casa da Rua Filipe Camarão, onde moraram. A foto é do começo do século 20. No alto, reprodução de exemplar do jornal A Esfinge, de 1908

Quando Getúlio Vargas proibiu a circulação de jornais em língua estrangeira no País, em 1942, ele enviava os artigos de A Esfinge para Buenos Aires, onde uma página era publicada dentro de uma publicação argentina. Nesse mesmo ano, ele teve um mal súbito e faleceu. Sua esposa, Mathilde, que encadernava anualmente os exemplares do jornal para guardar, deciciu doá-los a uma instituição em Bikfaya, sua cidade natal, mas o local sofreu com bombardeios e tudo acabou destruído.

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