Ser ou não ser, eis a questão!

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Eurípedes, famoso cientista, realizava o ato cirúrgico mais importante do século: o transplante de um cérebro humano. Após trinta horas de extenuante trabalho, o professor e sua equipe deram por encerrada a operação.

shutterstock_111727298Intensos debates emergiam. Discutia-se a situação jurídica do transplantado: deveria preponderar o corpo ou o cérebro? E a questão fiscal? Qual das partes pagaria os impostos? Os securitários entravam em parafuso, a apólice de seguro do doador deveria ou não ser paga? Os religiosos questionavam, a qual das partes se atrelaria a alma? À qual das famílias pertencia? A qual das empresas deveria voltar?

Duas semanas após o transplante, o doutor Eurípedes informou a todos sobre seu absoluto êxito. À saída do hospital, o transplantado não tinha um momento de descanso. Era assediado dia e noite pelos repórteres. Enfadonhas entrevistas eram transmitidas ou publicadas. Após a novidade se esgotar, o homem foi abandonado por todos.

Alvarenga, o receptor sexagenário, decidiu viver com D. Glória, sua esposa. A mulher e seus filhos o aconselharam a voltar à contabilidade da empresa. Nos primeiros dias foi recebido em clima de festa. Afinal, era agora uma celebridade. Com o passar dos dias, começaram a surgir os problemas. Acumulavam-se em sua mesa, pilhas de documentos aos quais não dava a menor solução. Em pouco tempo deram-se conta de que o homem não entendia bulhufas de contabilidade. Foi demitido.

No lar, não foi diferente. A princípio, a esposa o julgava seu marido, o semblante e o corpo não deixavam dúvidas. No entanto, com o passar dos dias, percebeu que seu caráter nada tinha a ver com seu velho Alvarenga. Ao assistirem a televisão, ela via novelas; ele, filmes de suspense. Seus diálogos não entrosavam.

Sempre jogava na pia o chá quente de camomila que ela lhe preparava todas as noites, trocava-o por uma cerveja gelada. Ao esgotar-se sua paciência, a mulher o expulsou de sua casa.

Resolveu mudar de vida. Encarnaria José Roberto, o doador. Ana Maria o recebeu temerosa, não estava preparada para viver com um sexagenário. Não obstante seus esforços, não conseguia convencê-la que dentro daquela velha carcaça existia o cérebro do seu jovem marido. Os dois filhos da moça transformaram sua vida num inferno. A tentativa de trabalhar na concessionária de veículos também não funcionou, sua figura afastava a clientela jovem. Admitiu ser um híbrido, sem passado e sem futuro.

Certa manhã, a mídia noticiou seu suicídio. Desgostoso por não ter família, por lhe faltar o trabalho e por não ser entendido por ninguém, Alvarenga meteu uma bala nos miolos. Aqueles preciosos miolos colocados em seu crânio pelo doutor Eurípedes.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e Geográfico
de São Paulo e da União Brasileira de Escritores.
peabarca@yahoo.com.br

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