Questão de sobrevivência

Questão de sobrevivência

Em cartaz com a comédia musical As damas de paus no Teatro Fernando Torres, a atriz e autora Mara Carvalho fala sobre as dificuldades da carreira e a paixão pelo trabalho

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IMG_8443Mara Carvalho é um contraste de tranquilidade e energia, principalmente quando o assunto é trabalho, que ela define como a fonte de sua vida. Atriz e autora, ela se dedica às duas áreas com o mesmo afinco. Há nove anos, Mara está à frente da escola de teatro, cinema e TV Incenna, ao lado da sócia Genilda Mansonari. “Sou apaixonada por comédia. Posso dizer que é o gênero mais difícil de fazer, pois exige técnica, intuição e um nível de conhecimento muito difícil de alcançar”.
Ela recebeu nossa equipe em uma tarde de sol, em sua casa, nos Jardins, para falar sobre o espetáculo As damas de paus, em cartaz no teatro Fernando Torres, sobre a carreira e por que se considera uma “sobrevivente” da arte.

Quando foi seu primeiro contato com a arte?

Ainda na infância eu já sonhava em ser atriz. Era muito dramática, sensível, ria e chorava à toa. Mas como morava em Ourinhos (SP) e tinha uma vida simples no meio do mato, achava que estava distante demais do meu desejo. No entanto, nasci com instinto de sobrevivência, sempre fui muito batalhadora e independente. Vim para São Paulo para fazer faculdade de cinema e já comecei a fazer testes para publicidade. Logo fui aprovada no curso do Antunes Filho. Na mesma época conheci o Antônio Fagundes, que estava montando a peça Fragmentos de um discurso amoroso. Ele me indicou para fazer um personagem pequeno nessa montagem, e fui aprovada no teste. Assim, acabei indo para o teatro profissional muito cedo, com pouca experiência. Claro que a teoria embasa, mas a prática foi meu melhor aprendizado.

De que maneira o casamento com o Antônio Fagundes influenciou sua carreira?

Nada foi fácil pra mim. Sempre conquistei tudo com muita dificuldade. Ao mesmo tempo em que tinha uma porta aberta, também enfrentava o preconceito de acharem que tudo o que eu fazia era porque ele (Fagundes) arrumou, nunca por mérito meu. Na própria Rede Globo essa dificuldade era nítida. E mesmo depois que nos separamos, ainda enfrentei várias barreiras, como quando fui escrever o seriado Carga Pesada (protagonizado por Fagundes). Mas nunca me deixei abater. Primeiro porque eu não preciso financeiramente, graças a Deus, e segundo porque ele é muito profissional para me chamar só por uma questão familiar. Ele podia até me indicar, mas sempre passei por todos os testes. Não sei se o casamento mais me ajudou ou atrapalhou. Mas o que importa é que eu não mudaria nada na minha vida. Fagundes me ensinou muito e estou aí até hoje, indo atrás do que eu quero.

Por que grande parte da sua carreira foi dedicada ao teatro? Você sente falta da TV?

O teatro é um meio cheio de dificuldades. Ainda assim, acredito que dê mais chance para o ator nunca estar fora de cena. Aliás, essa sempre foi a minha busca: exercitar minha profissão. A TV é um veículo que eu gosto de fazer, mas faltam oportunidades, principalmente para quem faz teatro em São Paulo, onde não há muita visibilidade. Trabalhei um bom tempo como autora na Globo e isso também me distanciou da atuação. Cada veículo tem o seu prazer e importância, mas o teatro estimula mais o ator, pela resposta direta e sincera do público. Tenho muita vontade de ter um grande papel, seja na TV, cinema ou teatro. O importante é a chance de desenvolver, mostrar meu potencial. Não importa o tipo de trabalho, ele sempre te ensina algo, nem que seja a ter humildade.

Qual é a importância do seu trabalho como roteirista?

Quando estou escrevendo, não consigo ter vida própria. É cansativo e solitário, mas ensina muito, até mesmo a atuar e respeitar o ator cada vez mais Também aprendi que o ator deve respeitar o autor e não tentar mudar as falas. Quando alguma não tem muito meu perfil, encaro como um desafio para me superar. Porque se o ator não conseguir se apropriar da embocadura de autores contemporâneos, imagina como vai ser quando ele pegar um Shakespeare!

Qual é o seu maior desejo profissional?

O mais importante é sobreviver do meu trabalho. Se isso vai trazer ou não fama, é uma consequência, mas não o meu foco. Eu busco o sucesso, a realização. Se você não souber manter, a fama é rápida, tira sua privacidade e nem sempre te coloca no lugar real que você deveria estar. Ou seja, você fica famoso, mas nem sempre é competente. Não traz alicerce algum, só alimenta o ego, mas o meu está bem cuidado pela consistência do meu trabalho e por ter conseguido chegar até aqui.

Em As damas de paus você atua e escreve. Qual é a proposta desse projeto?

Elenco do espetáculo As damas de paus, em cartaz no teatro Fernando Torres
Elenco do espetáculo As damas de paus, em cartaz no teatro Fernando Torres

É um volume de trabalho muito grande. São oito horas por dia ensaiando e quando chego em casa ainda tenho que decorar o texto, as músicas e fazer algumas adaptações no próprio script. Mas é uma delícia. É uma comédia musical que critica a complexidade do ser humano e como ele é capaz de julgar o outro sem olhar pra si. É leve, bem humorada, mas tem uma mensagem interessante nas entrelinhas. Também carrega um suspense que, no final, te joga em um lugar onde você nem imaginava que ia chegar. Falar de relações é uma coisa deliciosa para mim, pois elas estão sempre vivas e são atemporais.

Serviço: As Damas de Paus Quando: Até 23/11. Sextas, às 21h30, sábados, às 21h, e domingos, às 19h. Onde: Teatro Fernando Torres – Rua Padre Estevão Pernet, 588, Tatuapé. Quanto: Sexta e domingo, R$ 50; sábado, R$ 60. Vendas: 4003-1212 – www.ingressorapido.com.br

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