Patrimônio resistente

Patrimônio resistente

Resquícios de antigamente ainda sobrevivem na paisagem árida da Mooca

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São Paulo é uma cidade antropofágica, que devora a si mesma o tempo todo, demolindo trechos inteiros de um bairro para atender às necessidades imobiliárias de construção. É de se admirar, portanto, que na paisagem resistam vestígios de um tempo que movimentou a economia e o capital desse País. O tempo das fábricas e, com elas, as construções de vilas e de casas com quintal e canteiro de flores, algum detalhe na fachada que podia imprimir um pouco mais de poesia na vida daqueles habitantes da época. Para perceber alguns desses vestígios arqueológicos da Mooca, nada como uma boa caminhada e um olhar mais atento.

Sabemos que o momento presente é o que nos move e que o futuro é algo incerto. Porém, o olhar que se volta ao passado, sem saudosismos, permite conhecer e cuidar do patrimônio da cidade e, de quebra, é uma forma de autoconhecimento e afirmação da nossa identidade. E quanta poesia podemos encontrar num simples detalhe, numa janela, num portão, num ferrolho de uma porta de fábrica.

Andar é um exercício aeróbico muito bom para todo corpo e também para a mente. Andar pela Mooca é redescobrir coisas incríveis, como as que destacamos nesta reportagem.

Tijolo Personalizado

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Tijolo com as iniciais das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo

Os técnicos do DPH, órgão de preservação do município, deveriam destacar gente especializada em prospecção para acompanhar as demolições de complexos fabris. Numa simples mexida em restos do imóvel que abrigou uma unidade da Matarazzo, na Borges de Figueiredo, um tijolo personalizado revela sua origem: IRFM, sigla de um conglomerado poderoso em seu tempo, as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo.

Iluminação à moda antiga

Lampião a gás na Rua João Antonio de Oliveira
Lampião a gás na Rua João Antonio de Oliveira

O homem civilizado, dito assim, é aquele que conseguiu controlar fenômenos da natureza. Fogo, água e luz estão entre os adventos mais importantes da passagem humana em todos os tempos. Sobre este último, conhecer que tipo de iluminação pública servia as ruas desta cidade, por exemplo, é no mínimo, interessante. No centro de São Paulo dá para encontrar mais desses exemplares, como o que se vê na Rua João Antonio de Oliveira, na esquina com a Rua Conselheiro Benevides. O morador em cuja calçada está localizado o antigo lampião a gás, fez o improviso e colocou uma lâmpada incandescente e um globo de vidro no alto do mesmo. A tal lâmpada funciona e é ligada à noite.

A estrutura original, totalmente preservada, talvez passe despercebida na correria diária, mas é motivo de orgulho dos moradores que relatam que este era um autêntico lampião a gás, e antecede as lâmpadas elétricas (a primeira viria só em 1879). O surgimento dos lampiões foi uma das circunstâncias que possibilitaram o aumento da jornada de trabalho nas fábricas, principalmente da Inglaterra, lá pelos idos de 1792. Populares, há relatos de 1783, de um tipo de lampião a óleo menos bruxuleante, conhecido como Argand.

Alimentados a querosene mais tarde, ou a óleo de baleia, e até mesmo por um tipo de nabo (colza), suas versões menores encontravam lugar cativo entre as famílias até os anos 1960. Hoje está mais para um item de colecionador ou de aventureiros em acampamento. Sabe-se que os lampiões a gás para iluminação pública das ruas começam a ser desligados em 1930 e demandavam um funcionário em cada canto para acender e apagar a luz dos lampiões, tal como vagalumes.

Portão da Fábrica

Portão da antiga Tecelagem Labor
Portão da antiga Tecelagem Labor

Na Rua da Mooca, é possível ver os portões da antiga Tecelagem Labor, composta até o término de suas funções por cinco galpões, sendo dois voltados para a Avenida Alcântara Machado, outros dois com acesso mais interno, na Barão de Jaguara, e um voltado para a Rua da Mooca, no número 815. Segundo dados levantados em publicações especializadas, o conjunto comporta, ainda, uma residência e um anexo construído na década de 1940.

Há informações de que os referidos galpões teriam sido construídos em 1896. O edifício voltado para a Rua da Mooca, que já foi ocupado por moradores sem teto e mantém uma pessoa vigiando o local, abrigava, na época da fundação da fábrica, as máquinas têxteis e a administração. Os proprietários da tecelagem residiam na casa ao lado. O local também abrigou outra tecelagem, a Supertest, e mais tarde, por cerca de 20 anos, a Fábrica de Cadeados Pado. Até os anos 2000, parte do imóvel na Alcântara Machado foi ocupado por uma danceteria, o Fabbrica 5, que teve como sócio o global Miguel Falabella.

Vilas operárias

Vila da Rua Catarina Braida, que ainda mantém características originais da época
Vila operária na Rua Barão de Jaguara, concebida pelo arquiteto Gre­gori Warchavchik

Pequenos lotes de terra geraram moradias bucólicas em toda a região da Mooca. Algumas delas formavam vilas de casas grudadas umas nas outras, como a extinta Vila Crespi, na Rua Visconde de Laguna, e a Vila Operária, na Barão de Jaguara, bem descaracterizada, mas que ainda guarda traços originais do arquiteto modernista de origem ucraniana, radicado no Brasil, Gregori Warchavchik. A influência do movimento alemão Bauhaus, cujo espírito era refletir a funcionalidade de objetos e moradias, foi a inspiração do arquiteto que, em 1929, erigiu uma série de casas econômicas destinadas a operários.

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Vila da Rua Catarina Braida, que ainda mantém características originais da época

O exemplar da Rua Catarina Braida é dessas espécimes raras, que mantém ares de um período que há muito deixou de existir em São Paulo. Em uma delas funciona a redação do Jornal La Fanfulla, que teve seus tempos de glória na época em que os operários de fábrica buscavam condições melhores de trabalho e expressavam seus anseios por meio desse jornal panfletário. Muitas das más condições de trabalho e insalubridade foram relatadas em suas páginas. Imaginem se a intolerância que reina nos dias de hoje resolvesse dar cabo do jornal?

Cia Antarctica Paulista e o ramal da São Paulo Railway

Mosaico de azulejos da Antarctica, que ainda está no local onde ficava a fábrica
Mosaico de azulejos da Antarctica, que ainda está no local onde ficava a fábrica

Um amigo andou junto pelo que restou do complexo industrial que um dia foi a Antarctica, sediada na Mooca até o início dos anos 2000, e pode ver de perto detalhes e vestígios do que um dia foi essa efervescente fábrica, nascida ‘Antarctica Paulista – Fábrica de Gelo e Cervejaria’ , em 1888, na Água Branca, para depois, em 1891, vir se instalar como ‘Companhia Antarctica Paulista’, e que viria a comprar, em 1904, a ‘Fábrica de Cerveja Bavária’, já instalada na Mooca desde 1890, e iniciar produção em larga escala de cervejas e refrigerantes. Nessa época, se destacava na paisagem a forte ligação dessas plantas industriais com a ferrovia. Enquanto o vizinho Brás avançava para leste ao longo da central do Brasil, a Mooca apresentava extensas áreas arruadas, sobretudo em torno da chamada Estação da Inglesa e nas proximidades do Hipódromo, inaugurado em 1876.

A São Paulo Railway (SPR) teve presença marcante no processo fabril, já que boa parte das fábricas do bairro possuíam desvios particulares para o recebimento e escoadouro de mercadorias. Os fundos das indústrias e armazéns davam para a via férrea e o acesso principal para ruas paralelas, como a Avenida Presidente Wilson, antiga Alameda Bavária, e a Rua Borges de Figueiredo, antes Alameda Taubaté.

Ruínas da Antarctica, que teve sede na Mooca até o início dos anos 2000
Ruínas da Antarctica, que teve sede na Mooca até o início dos anos 2000
Passarela de pedestres sobre a linha férrea, que está bem degradada
Passarela de pedestres sobre a linha férrea, que está bem degradada

Indo para a Rua Visconde de Parnaíba, endereço do Museu da Imigração, temos a presença de uma passarela de pedestres sobre a linha férrea, cuja integridade vem sendo mantida um pouco “na marra”, com o fechamento, do lado em que está o Museu, com um portão, dificultando o acesso por lá. A passarela ferroviária data do século 19 e sua estrutura metálica deixa ver, nitidamente, o trabalho de engenheiros ingleses, já que a mesma foi importada da Inglaterra. Outra passarela semelhante, na Rua da Mooca, visível do alto do Viaduto Alberto Mesquita, encontra-se também em estado de abandono e deterioração, mesmo ambas tendo sido consideradas patrimônio ferroviário e histórico da cidade de São Paulo.

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