Outros tempos

Outros tempos

No mês em que o Tatuapé completa 347 anos, conheça a história do Conjunto Acrópole, empreendimento imobiliário que trouxe muitos moradores de outros bairros de São Paulo para o Tatuapé na década de 1950

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O Tatuapé dos anos 1950 passava por uma fase de transição. As chácaras, que dominaram o cenário até os anos 1940, começavam, aos poucos, a perder espaço para as indústrias. Por isso, algumas partes do bairro ainda tinham características rurais, com ruas de terra e chácaras de verdura. Isso acontecia principalmente na parte alta, que era menos desenvolvida do que a parte baixa.

Nessa época, o bairro estava bem longe de ser tão valorizado como é hoje. A vizinha Mooca era um lugar muito mais desenvolvido. Com preços de imóveis mais baixos do que na região central, o Tatuapé surgiu, para muita gente, como a oportunidade para sair do aluguel. E foi em busca da casa própria que muitas famílias vieram morar no Conjunto Acrópole, o primeiro grande empreendimento imobiliário do bairro. Eram cerca de 400 casas de muro baixo e jardim na frente que ocupavam cinco quadras no quarteirão entre as ruas Itapura, Serra do Japi, Emília Marengo e Itapeti. As casas ainda estão lá, mas foram completamente modificadas. Os muros baixos foram trocados por portões fechados e algumas moradias se transformam em prédios comerciais.

Os filhos de José Roberto Daminello brincando na rua E nos anos 1970. As casas já estavam bem modificadas. Ao fundo, é possível ver o prédio em construção na Rua Emília Marengo.
Os filhos de José Roberto Daminello brincando na rua E nos anos 1970. As casas já estavam bem modificadas. Ao fundo, é possível ver o prédio em construção na Rua Emília Marengo.
Nádia Stasola (1ª à esquerda) com a irmã em frente a uma das casas da Rua E, no começo da década de 1960.
Nádia Stasola (1ª à esquerda) com a irmã em frente a uma das casas da Rua E, no começo da década de 1960.

A empresa Acrópole S.A, que construiu os imóveis, fez diversos anúncios no jornal Folha da Manhã, entre 1953 e 1954, e isso chamou a atenção de pessoas que nem conheciam o bairro. A propaganda dizia que aquela era a oportunidade para comprar um imóvel novo “a 5 mil metros da Praça da Sé”, com condução ‘fácil’ para o centro da cidade. De fato, embora ainda não existisse metrô e nem mesmo a Radial Leste (o trecho entre o Viaduto Bresser e Conselheiro Carrão foi inaugurado no começo da década de 1970), o Tatuapé tinha ônibus para o centro da cidade e o conjunto ficava bem localizado, próximo ao Largo do Bom Parto, por onde passavam muitas conduções. As casas foram vendidas na planta e podiam ser pagas em prestações a perder de vista.

José Roberto Daminello na Rua A no final da década de 1950. É possível observar como eram as casas naquela época.
José Roberto Daminello na Rua A no final da década de 1950. É possível observar como eram as casas naquela época.

Os pais de José Roberto Daminello viram o anúncio no jornal e vieram conhecer o empreendimento. Eles moravam em uma vila que foi desapropriada para a construção da Radial Leste, onde hoje fica a loja da C&C (este trecho da Radial foi inaugurado em 1967). “Na Serra de Japi tinha algumas casas até na esquina com a Rua Itapeti. Dali para frente era só chácara. Com a chegada dos moradores do Acrópole é que a região começou a se desenvolver mais, em meados da década de 1960”, relembra José Roberto.
Os pais de Francisca Nádia Stasola, 68, que mora na mesma casa até hoje, também vieram influenciados pelos anúncios que saíram no jornal. A família morava na Mooca e se mudou em julho de 1957, quando ela tinha 10 anos. “Aqui não tinha nada. Na Mooca já era tudo asfaltado, iluminado. A Avenida Paes de Barros era bonita, estreitinha, de paralelepípedo. O pessoal achava estranho você sair de um lugar desses, já estruturado, e vir pra cá”. Mas trocar o aluguel por um imóvel próprio sempre foi um bom negócio.

As ruas do Acrópole, que eram identificadas por números e não por nomes, foram entregues concretadas, mas o entorno era todo de terra. Na Serra de Japi e Emília Marengo ainda havia muitas chácaras de verdura. “Em 1958 foi inaugurada a Padaria Fundadores, com uma grande festa. Em frente, na Emília Marengo, tinha um armazém de secos e molhados. No Largo Bom Parto já tinha a padaria Rainha do Tatuapé. E tinha a feira de domingo na Rua Tuiuti”, lembra Nádia. Um cenário bem diferente do atual, quando não se precisa sair do bairro para nada.

A família de Célia de Oliveira Daminello, 65, se mudou quando ela tinha sete anos, no dia em que a Padaria Fundadores (fechada em 2013) foi inaugurada. Eles moravam na Vila Mariana, onde os imóveis eram bem mais caros, e também resolveram vir para o Tatuapé para realizar o sonho da casa própria.

Troca de nomes Rua A – Rua Padre José Morschhauser Rua B – Rua Dr. Roberto Reid Kalley Rua C – Rua Mozart de Andrade Rua D – Otelo Rizzo Rua E – Rua Adrianópolis
Troca de nomes
Rua A – Rua Padre José Morschhauser; Rua B – Rua Dr. Roberto Reid Kalley
Rua C – Rua Mozart de Andrade; Rua D – Otelo Rizzo; Rua E – Rua Adrianópolis

A forte campanha no jornal e a oportunidade de comprar um imóvel em diversas prestações atraíram muitos casais recém-casados e também, como as histórias acima não deixam mentir, muitas famílias com filhos pequenos. Com isso, formou-se uma turma de amigos que cresceu brincando pelas ruas do Conjunto. Teve até casamento, como foi o caso de José Roberto e Célia. “Eu morava na Rua A e ela na Rua E. Começamos a namorar em 1965”, diz José Roberto.

As brincadeiras eram na rua mesmo. Uma corda amarrada no poste fazia as vezes da rede de vôlei. Havia, também, uma eterna amarelinha, pintada pelas crianças. Ainda assim, elas gostavam de desenhar outras pelo simples prazer de fazer o desenho. “Gastávamos mais tempo desenhando a amarelinha do que jogando. Cada uma queria fazer um número mais bonito”, lembra Célia.

Esse grupo de amigos era conhecido como “A turminha”. Um dos programas prediletos deles, quando já estavam na adolescência, era fazer bailinhos em casa. Normalmente, a casa escolhida era a da Nádia, que tinha uma vitrola montada por seu pai e algumas coleções de discos. Esses bailinhos aconteciam aos sábados e eram embalados pelas músicas da época, como Paul Anka, Elvis Presley e Ray Conniff, além de sanduíches, salgadinhos e Cuba Libre. Em junho, havia festa junina com direito a fogueira e comidas típicas. Na Copa do Mundo de 1958, houve muita festa na rua quando o Brasil voltou da Suécia com a taça na mão.

Nádia Stasola, 68, mora há 59 anos no Conjunto Acrópole
Nádia Stasola, 68, mora há 59 anos no Conjunto Acrópole

Como se pode ver, a rua era o playground das crianças. Poucas pessoas tinham carro e o movimento não era grande. Então, não havia preocupação. “A preocupação das nossas mães era que entrássemos nas chácaras. Éramos proibidas. Minhas amiguinhas chacareiras abriam o portão e a gente tentava espiar, mas nunca fomos convidadas a entrar. Elas ficavam acanhadas, mas devia ser um espaço maravilhoso”, conta Célia. Para os adultos, as casas de muro baixo funcionavam como uma sala de bate-papo. Era fácil prosear com o vizinho a qualquer momento.

Na década de 1970, os números que identificavam as ruas foram substituídos por nomes. “Não participamos dessa mudança. Quando vimos já estavam colocando as placas. Na cabeça das pessoas da minha geração, essa mudança ainda não aconteceu. Chamamos ainda de rua A, B, C, D ou E”, diz Célia.

As casas

Os anúncios da época anunciam as casas com terraço, sala, copa-cozinha, lavanderia, 2 dormitórios, armários embutidos, banheiro completo, amplo jardim e quintal, além de luz, água, esgoto e telefone.

As casas eram geminadas e, a cada seis imóveis, havia um corredor lateral separando as residências. Os muros entre as casas era bem baixinho, tanto que as crianças gostavam de descer a rua pulando de uma casa para a outra.

Nas lembranças de Nádia, as casas tinham um jardim, que muita gente cimentou assim que recebeu as chaves, um muro baixo, pintado de branco, com um caibro verde. O esgoto foi colocado depois que as casas foram entregues e telefone era algo bem raro naquela época. “Quando mudamos pra cá telefone não existia.

Tinha um posto de telefone na Praça Silvio Romero e tinha uma farmácia que tinha telefone e tinha fila”, conta José Roberto. A água costumava faltar com frequência, por isso muitas casas tinham poço.

Quando a empresa Acrópole S.A fechou, a dívida dos compradores que haviam parcelado a casa em muitas vezes, foi assumida pela Caixa Econômica Federal. Nádia lembra que era preciso ir até a Praça da Sé para fazer o pagamento. “Você tomava o ônibus Maria Luiza para ir. Era engraçado porque era mais caro o que você gastava de condução para ir e voltar do que o valor da prestação. Depois de alguns anos, chamaram o pessoal para fazer um acerto e pegar a escritura”.

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