Os dois grandes impactos da vida

Os dois grandes impactos da vida

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c3a1rvore-da-vidaUm dia destes, ao passar pela Praça Sílvio Romero, dei com uma rotineira cena. Num dos cantos do logradouro, duas dezenas de idosos jogavam dama e dominó nas mesinhas de alvenaria lá existentes. Em seus rostos notei desencantamento e total falta de perspectivas. Afastei-me do local acabrunhado. Um mal estar me dominou pelo resto do dia. Entendi que, ao longo do tempo, algo morrera dentro daqueles homens. Qual o motivo para chegarem a tal estágio naquela altura de suas vidas? Pensei muito sobre o assunto, extraindo dele algumas explicações plausíveis.

Na infância, éramos paparicados todo o tempo por nossos pais e parentes. Eles absorviam todos os problemas surgidos, evitando que nos atingissem. Sentíamo-nos seguros, não tínhamos responsabilidades, apenas umas poucas relativas às questões escolares. O resto do dia era gasto em jogar futebol, caçar passarinhos, nadar nos córregos, empinar pipa e tantos outros.

Nas famílias de melhores condições econômicas, esses folguedos continuavam até os 18 anos, com a conclusão dos cursos secundários. Nas famílias mais pobres, as brincadeiras terminavam aos 14 anos, quando os garotos eram obrigados a procurar trabalho para ajudar no seu sustento.

Pois bem! Neste ponto surgia o primeiro e grande impacto. De repente, éramos obrigados a trocar aquela vidinha gostosa de brincadeiras descompromissadas, realizadas em amplos espaços e à luz do dia; por uma vida reclusa em espaços limitados, com horários preestabelecidos e com a obrigação de executar tarefas obrigatórias, geralmente, desagradáveis. Convenhamos, uma troca besta!

Mas, o que fazer? Navegar era preciso. A partir daquele momento começávamos a gostar do trabalho e das suas rotineiras tarefas. Dia após dia, éramos condicionados àquele tipo de vida, acabávamos viciados. Tornava-se a principal razão da nossa existência. Dávamos mais importância a ele que ao lar. Não gozávamos férias, achávamos que elas atrapalhavam a nossa vida profissional. Mas um dia… stop! Hora de despertar. Ninguém é insubstituíveis. Abrupto descarte. Aposentadoria!

Segundo impacto. Daquela vida frenética passamos para outra de total ócio. Nessa as pessoas se consideram descartáveis. Os intelectualizados demonstram melhores condições de se enquadrar, entendem ser uma etapa de realização de antigos sonhos. Os trabalhadores braçais, ao contrário, sentem-se incapacitados para a leitura, computação, pintura e outras. Alguns passam os dias reclusos em suas casas, outros fazem dos bares seu lar, um terceiro grupo encontra nos jogos das praças sua válvula de escape.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e Geográfico
de São Paulo e da União Brasileira de Escritores.
peabarca@yahoo.com.br

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