O “M” da Mooca

O “M” da Mooca

No coração do bairro, monumento lembra que o local serviu de palco para manifestações públicas do operariado

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Marco da Mooca - Carol (4)Ao pesquisar nos sites de busca, encontramos que um monumento serve para você lembrar e refletir sobre o que ali ocorreu ou o que aquilo representa. Assim como admiramos uma paisagem, uma foto ou um filme, e isto remete a uma série de sensações e lembranças, o monumento também cumpre esse papel. Caso você desconheça o seu significado é uma ótima oportunidade para procurar saber e melhorar a sua cultura.

Um desses exemplares, um tanto perdido na paisagem, já que na correria do dia a dia esquecemos até de olhar para o céu, está localizado num local de confluência entre as três principais vias de acesso do bairro da Mooca, quais sejam: ruas do Oratório e da Mooca, e o início da Avenida Paes de Barros. Conhecido como o “M” da Mooca, o símbolo erigido em 2006, em homenagem aos 450 anos do bairro, cumpre o papel de lembrar que aquele local serviu de palco para manifestações públicas do operariado que trabalhava nas extintas fábricas, entre elas o Cotonifício Crespi, logo ali, na Rua Taquari, que também foi palco, em 1917, de um grande movimento operário, o primeiro do País.

A iniciativa partiu de empresários em reunião da associação de moradores Amo a Mooca, e quem levantou a questão e as pesquisas foi o morador Pedro Felice Perduca, que tem nos levantamentos históricos um hobby e uma quase ‘febre’ de saber. “Talvez poucos saibam que a Mooca foi local de manifestações tidas como de esquerda, dada a concentração de estrangeiros que ali viviam e trabalhavam, com destaque para os italianos e os espanhóis. Por isso o M, que é a inicial do bairro, vem pintado em vermelho, em alusão ao apelido que o local recebeu, de Praça Vermelha”, comenta Pedro.

Se pensarmos um pouco, bem que o M, além de Mooca, poderia, então, representar termos como ‘movimentos’ e ‘manifestações’, já que era ali, naquela quase rotatória, que os operários e manifestantes se dirigiam para fazer suas reivindicações e manifestar o que não estava de acordo com os interesses populares, comuns a todos. Talvez por isso o termo ‘comuna’ tenha servido para grafar o surgimento de uma outra palavra, ‘comunista’.

Se procurarmos no dicionário, o termo comuna vem grafado, entre outras coisas, como “associação de burgueses da mesma localidade que tinham o direito de se governar a si próprios”. Os termos vão se perdendo ao longo do tempo de uso, bem como locais e acontecimentos.

Além disso, importante núcleo do Partido Comunista funcionava também na região, que tinha um forte movimento sindical, até por conta da quantidade de fábricas que funcionaram em todo o bairro até o início dos anos 1990. E todo esse processo de esvaziamento do movimento operário deu-se em conjunto com a chamada “desindustrialização” da Mooca, já a partir dos anos 1960, com a falência de grandes complexos industriais. Um processo que trouxe, entre outros resultados, abandono e degradação para o bairro. Ou, como os economistas gostam de dizer, “fuga de capitais”.

Um dado curioso é que em meados dos anos 1940, a Mooca, com quase 100 mil habitantes, chegou a ser considerada o bairro mais populoso da cidade de São Paulo, além de possuir o maior colégio eleitoral, com mais de 30 mil eleitores.

Caminho de índios e jesuítas

O busto do Padre José de Anchieta fica no início da Avenida Paes de Barros
O busto do Padre José de Anchieta fica no início da Avenida Paes de Barros

Outra ‘lenda’ urbana bem aceita e até comprovada em documentos de época, está no fato de que a Mooca tem quase a idade de São Paulo, até porque já existia como um caminho ou uma via de travessia importante para quem vinha do centro da capital e seguia a caminho da Serra do Mar. Neste caso, índios e jesuítas. E para marcar essa passagem importante e lembrar a verdadeira idade da Mooca é que, a partir de 1985, empresários da época, Rotary, Associação Comercial, Associação Esportiva e Cultural Pepe Legal, Biblioteca da Mooca Affonso Taunay, entre outros, resolveram erigir o monumento do padre José de Anchieta no canteiro central, bem no início da Avenida Paes de Barros. Cabe lembrar que as pesquisas documentais sobre a origem do caminho da Mooca foram feitas por Eugênio Luciano Junior, membro da Escuderia Pepe Legal conhecido como Geninho, com indicações de Ana Maria Pantaleão, então bibliotecária chefe da Biblioteca da Mooca.

Após a pesquisa, a Mooca que em 1984 possuía 117 anos, passou a comemorar no dia 17 de Agosto de 1985, com a inauguração do Monumento Histórico, o seu 429º aniversário, resgatando 312 anos de história. O Projeto do Monumento é do Arquiteto Luiz D’Amore e a escultura do Padre José de Anchieta do escultor Victorio Simigaglia, um mooquense à época com 83 anos.

Em tempo, o escritório responsável pela escultura em forma de M, que ainda tem a graça de projetar sua sombra da inicial do bairro em dias de sol, foi o Budaugalo, especializado em projetos de grande porte, com ênfase para redes comerciais e de varejo.

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