Ninguém é de ninguém

Ninguém é de ninguém

Possuir é um verbo que deveria ser usado apenas para designar objetos, mas o ser humano o acaba usando para definir pessoas de seu relacionamento e sofre quando descobre que isto não é verdade

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shutterstock_96618349É muito comum ouvirmos alguém se referir a outra pessoa como se ela fosse sua propriedade. Uma garota invariavelmente diz “este é o meu namorado”, ou um marido, ao se referir à esposa diz: “esta é a minha mulher”, e o que sentimos, na maioria dessas citações não é um mero jargão linguístico. Percebe-se claramente que essas pessoas estão se referindo a outras como se estas fossem sua propriedade.

Pode parecer retórica do tempo da Tropicália dizer “ninguém é de ninguém”, mas, para a psicanálise, isso é a mais pura verdade e acreditar que um indivíduo está preso a nós não passa de uma fantasia neurótica que mascara o nosso verdadeiro medo, ou seja, o de deixar de ter alguém ao nosso lado.

Alguns disfarçam este medo em ciúmes, outros desenvolvem verdadeiras compulsões, como, por exemplo, trocar telefonemas com o amado (ou a amada) diversas vezes durante o dia e outros chegam ao ponto de cercear a amizade de seus “amores” ou, até mesmo, a tirar a vida daqueles a quem se sentem ligados.

Perder significa desprazer, representa deixar de ter por perto aquele em quem depositamos nossa pulsão amorosa. Esta é uma sensação dolorosa e que conhecemos desde o dia em que nascemos. Primeiro somos desmamados e perdemos o seio da mãe, depois perdemos a chupeta, depois o paninho que gostávamos de ter ao dormir e, finalmente, pode ser até mesmo na infância, perdemos pessoas que morrem.

Ninguém se sente bem ao ser abandonado. É por isso que nos apegamos tão firmemente, primeiro a pessoas e, caso elas não estejam disponíveis ou não nos desejem, nos apegamos a coisas. Tudo para evitar que sintamos novamente as dolorosas perdas sofridas na infância.

Quando digo que ninguém é de ninguém, quero dizer que não devemos encarar quem amamos como uma propriedade e sim como um indivíduo que em determinado momento de sua vida dirigiu para nós suas fantasias afetivas também. Isso não significa que um relacionamento deva ou vá durar para sempre e precisamos ter em mente que se ele vier a terminar, devemos estar disponíveis para procurar alguém que volte a preencher este vazio.

É claro que os que se separam devem fazer uma reflexão dos motivos que os levaram a não mais querer o outro e que cada um deve pensar naquilo que fez de errado para não voltar a cometer os mesmos erros e se ver, novamente, daqui a algum tempo, envolvido em uma nova separação. Se ninguém é de ninguém, da mesma forma, duas pessoas podem muito bem querer estar uma ao lado da outra para todo o sempre.

Arthur Mendes é psicanalista integrativo, fundador do Instituto D’Alma, em São Paulo, e professor de Psicanálise Freudiana, tanto em cursos de formação de psicanalistas quanto de aprofundamento teórico e prático.
www.institutodalma.com.br

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