Na própria pele

Na própria pele

Em busca de uma relação mais saudável com o próprio corpo e com a comida, a jornalista Daiana Garbin acaba de lançar um canal no Youtube para falar sobre transtornos de imagem e alimentares, problemas que ela mesma enfrenta diariamente

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A jornalista Daiana Garbin, 33, não é muito amiga do espelho. Ela se acha gorda sempre que vê a própria imagem refletida. Também não gosta de usar roupas que deixam os braços de fora. Diagnosticada com transtorno de imagem e transtorno alimentar, a gaúcha de Farroupilha pediu demissão da TV Globo, onde trabalhou como repórter por oito anos, para dividir sua experiência no canal Eu Vejo, no Youtube. É lá que ela publica vídeos com depoimentos pessoais, entrevistas com especialistas, bate-papo com pessoas que também sofrem ou já sofreram com esses problemas.

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Com 1m70, 65 quilos e lindos olhos azuis, Daiana sorri muito, gosta de conversar e aprendeu que precisa enfrentar o problema de frente, seja falando sobre ele ou se impondo desafios cotidianos – como andar de biquíni sem canga na piscina de um hotel ou usar um vestido mais justo em uma festa.

A guerra com o corpo começou aos 12 anos, quando se comparava com amigas mais magras. À base de muita malhação, remédios para emagrecer, laxantes e diuréticos, ela chegou a 57 quilos (oito a menos do que tem hoje) e muita infelicidade. Aos 23 anos veio uma depressão causada pelo uso excessivo de remédios para emagrecer. O tratamento foi efetivo, mas sem a medicação o ponteiro da balança subiu e a relação com a comida começou a ficar mais complicada, sempre cercada por muita culpa e medo. Aos 30, ela decidiu buscar uma relação mais saudável e feliz com o próprio corpo. Patinou bastante no processo, fez dieta restritiva, chorou nos ombros do marido – o jornalista e apresentador Tiago Leifert – e, há um ano, encontrou na terapia o caminho que mais tem funcionado para sair dessa equação que é não gostar do próprio corpo e lutar para se alimentar sem neuras. Nessa entrevista, Daiana fala sobre a sua relação com o corpo e com a comida e o que tem feito para enfrentar esse caminho e ajudar quem está no mesmo barco que ela.

A jornalista Daiana Garbin no seu escritório, em um dos vídeos do seu canal e entrevistando a atriz Fernanda Souza
A jornalista Daiana Garbin no seu escritório, em um dos vídeos do seu canal e entrevistando a atriz Fernanda Souza

Quando você começou a ter problemas com o seu corpo?

A primeira vez que eu chorei porque era gordinha foi aos cinco anos, na aula de balé, quando a professora falou que a gente ia começar a ensaiar para a apresentação de final de ano. Pensar que eu estaria no palco, de collant, não foi legal… Mas entrei em guerra com o meu corpo aos 12 anos, a ponto de odiá-lo e querer outro.

Por que você começou a odiá-lo? Alguém te disse algo?

Não. Mas eu sempre me comparei com as minhas colegas mais magras. Com 12 anos eu pesava 60 quilos e tinha um pouco menos de 1m70, que é a minha altura hoje. Venho de uma família de pessoas altas e mais fortes. Mas eu me lembro que na aula de Educação Física a professora pesou e mediu os alunos na frente de todo mundo. Entre todas as meninas, eu era a mais pesada. Só os meninos pesavam mais do que eu. Foi a maior vergonha da minha vida.

Isso atrapalhou a sua vida?

Muito. Sempre tomei muito remédio para emagrecer. Comecei roubando da minha mãe, depois eu pedia para alguma amiga mais velha conseguir a receita pra mim. Eu também tomava diurético e laxante e fazia academia duas horas por dia, cinco vezes por semana. Foi um sofrimento terrível. Com 23 anos, tive depressão por causa dos remédios para emagrecer. Fiz o tratamento para depressão, melhorei, mas engordei porque não podia mais tomar remédio. E aí começou a guerra com a comida.

Como é essa guerra com a comida?

Eu sempre descontei tudo em comida. Ansiedade, medo, angústia, insegurança. A comida preenchia todos os vazios. Isso foi uma batalha até os 31 anos, quando percebi que precisava mudar porque estava atrapalhando a minha vida. No Réveillon de 2014 para 2015, estava em um hotel com a família e tinha aquele buffet imenso, quatro vezes por dia. Era difícil controlar. Em algumas refeições eu queria comer muito e depois ficava triste, e, em outras, eu resistia para não comer. Um dia falei para o meu marido que eu queria ir embora porque aquilo era um inferno e estava me enlouquecendo.

E como você lida com a comida hoje?

Faz um ano que faço terapia religiosamente uma ou duas vezes por semana e consegui me libertar desse pesadelo. Ainda não posso te dizer que a minha relação com a comida é saudável, porque não é. O meu maior desafio é sentar em uma mesa com comida gostosa e equilibrar o prazer e a culpa. Tenho mais culpa do que prazer. Outro dia fui jantar com as minhas amigas e elas comeram a entrada, o prato principal e a sobremesa. Eu comi um pouco da entrada, metade do meu prato e não comi a sobremesa porque eu tenho medo de engordar.

Daiana durante gravação com uma nutricionista para o seu canal no Youtube
Daiana durante gravação com uma nutricionista para o seu canal no Youtube

Como você trata essa questão?

Com terapia. Acho que é o melhor caminho. Fiz lipoaspiração três vezes, mas a lipo tira a gordurinha localizada e não emagrece, não diminui as formas do seu corpo. As pessoas que são adoecidas com o corpo, como eu, não precisam ir em um cirurgião plástico. Precisam ir em um psiquiatra, um psicólogo ou um nutricionista. É preciso tratar a mente. Só que não é fácil admitir que está doente e procurar ajuda. Ainda mais quando você pensa que é frescura. Eu pensava assim, me julgava fútil, achava que era excesso de vaidade, que eu só tinha esse sofrimento porque não tinha uma doença de verdade. Eu pensava: “Daiana, Deus vai te castigar, vai te dar um câncer pra você entender o que é uma doença”. Parece que é um sofrimento errado. E aí você sofre duplamente. Acho que o meu maior ato de coragem foi dizer para mim mesma “estou doente e preciso de ajuda”. Isso não é menos importante que nenhuma outra doença. Nenhum sofrimento humano pode ser ignorado.

Você faz dieta?

Há 3 anos fui em uma nutricionista e fiz uma dieta bem restritiva. De fato, eu emagreci oito quilos em três meses, mas continuei me sentindo tão miserável e tão infeliz quanto antes, com oito quilos a mais. Eu restringi, mas não aprendi a comer uma fatia do pão, um pouquinho de arroz. No momento em que comecei a colocar essas coisas de volta na minha alimentação, eu pirei. Não engordei os oito quilos, mas engordei quatro. Desde então eu venho tentando negociar, mas dá um medo medonho de engordar. Hoje em dia eu não faço dieta restritiva, mas me imponho algumas restrições que estou tentando quebrar. Tenho sorte porque gosto de verdura, de salada e de fruta. Mas eu também gosto muito de coxinha e de pizza. Então, a solução é negociar.

Como você lida com o seu corpo hoje?

Eu sempre quis ter o corpo da Gisele Bündchen porque ela é linda, é gaúcha, é da minha idade, atingiu um sucesso estrondoso, ficou milionária. Enfiei na minha cabeça que ter sucesso e felicidade na vida é ser magra como a Gisele. E isso me fez sofrer muito. Mas, depois da terapia, eu entendi que nunca vou ter o corpo de uma modelo porque não é o meu tipo genético e na minha família ninguém é assim. Então, vou ser feliz com esse corpo. Essa aceitação é importante e é um processo que a gente precisa fazer, de pegar o nosso corpo de volta, não compará-lo com o corpo do outro. É olhar no espelho e sorrir com o seu corpo em vez de botar defeito nele. Porque se a gente só botar defeito vai entrar em depressão, ter ansiedade, ter síndrome do pânico.

 Como você cuida do seu corpo?

Quando decidi pegá-lo de volta e tratá-lo com amor e carinho comecei a fazer ginástica com prazer, mas também entendi que tenho um limite. Mais do que três ou quatro vezes por semana não faço. Não consigo fazer uma hora de ginástica por dia sete dias por semana. É algo que não me dá prazer. Gosto de exercício funcional, musculação e gosto, muito, de alongamento porque ele me dá essa conexão com o meu corpo de volta.

Você trabalhou por oito anos na TV Globo. Como era se ver na TV?

Nunca gostei de me ver na televisão porque sempre me achava gorda. Mas, felizmente, não deixei a doença atrapalhar a minha vida profissional. Quando gravava as matérias eu checava se o português e as informações estavam corretos e mandava para o ar. Mas nunca foi confortável me assistir.

E por que você decidiu fazer um canal no Youtube?

Quando comecei a fazer terapia percebi o tamanho do sofrimento que é o transtorno corporal. Uma das especialistas que entrevistei diz que é um problema de saúde pública. Ela fala em 30% da população feminina brasileira afetada por algum desconforto profundo com o corpo. Eu queria que na minha adolescência eu soubesse de tudo que eu sei hoje.

Eu teria sofrido muito menos. E o Youtube foi a forma que encontrei de chegar mais próximo desse público jovem, adolescente, para tentar ajudá-lo a entender que anorexia e bulimia não levam a nada, que ser magra não traz felicidade. E tem sido ótimo. Recebo dezenas de e-mails e isso me dá uma felicidade imensa. Me sinto plenamente realizada nesse trabalho.

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