Na base da maldade

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Gloria Pires exalta vilã de Babilônia como personagem diferente de tudo que já fez

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Quem tem tipos como Maria de Fátima, de Vale Tudo, e Raquel, de Mulheres de Areia, no currículo pode dizer, com propriedade, que entende tudo sobre vilãs. Mas Gloria Pires está longe de se sentir com o “jogo ganho” quando se trata de criar uma nova personagem. Ainda que o contexto da história e o gênero do papel lhe sejam familiares. Na pele da sedutora Beatriz, de Babilônia, aos 51 anos, ela se renova aos olhos do público e não se preocupa com possíveis comparações entre suas atuações. “Beatriz é uma mulher rica e de meia-idade que passou por várias situações na vida: já esteve bem, já esteve mal, mas sempre se reinventa. Já Maria de Fátima, por exemplo, era uma menina humilde, mas ambiciosa, queria ser rica e ponto final”, avalia.

“Cria” da televisão, Gloria acumula cerca de 30 produções em sua trajetória desde que estreou no veículo, em A Pequena Órfã, exibida pela TV Excelsior em 1968. De lá para cá, trabalhou algumas vezes com Gilberto Braga, autor de Babilônia ao lado de Ricardo Linhares e João Ximenes Braga. Por isso mesmo, não é de se espantar que a atriz tenha aceitado o convite para integrar o elenco da trama das 21 horas antes mesmo de conhecer sua personagem. “Com o Gilberto, fiz Dancin´ Days, que foi a primeira novela que me destacou como atriz, quando eu tinha 14 anos.

Depois, fizemos Vale Tudo, que foi um marco entre as novelas brasileiras. Sou fã dele”, elogia.

A atriz em Insensato Coração, de 2011
A atriz em Insensato Coração, de 2011

Em mais de 40 anos de carreira na Globo, você já interpretou várias vilãs. O que chamou sua atenção na Beatriz, de Babilônia?

Beatriz é uma personagem diferente, de quem o público pode esperar tudo. É um papel delicioso por ser surpreendente. Quando estou lendo os capítulos e acredito que Beatriz vai para determinado lugar, a história se desenvolve e, no final, é outra coisa. É muito divertido e está sendo ótimo fazer.

Apesar de sua experiência como intérprete, encontrou alguma dificuldade na construção de um tipo complexo como este?

É uma personagem tridimensional. Beatriz tem um lado bem humano, o que me tirou o sono. Eu queria achar uma maneira de fazê-la rica em todos esses aspectos, com todas essas facetas. Na hora em que você está estudando as cenas, começa a visualizar essa mulher se movimentando, como ela leva esses assuntos, de que maneira traz as pessoas, de que maneira não deixa esse caminho fácil para perceberem que ela é uma vagabunda (risos). Isso foi uma coisa que me tirou o sono

Com Marcello Antony em Belíssima, de 2005
Com Marcello Antony em Belíssima, de 2005

E como você lidou com isso?

Depois que a novela estreia, você se habitua e vai ficando mais à vontade com aquela personagem dentro das situações. Antes, eu ficava naquela expectativa. Até começar a fazer realmente, a colocar em prática tudo o que estive pensando, ficava um borbulhão de ideias na cabeça. Até que você chega no estúdio, faz 15, 18, 20 cenas e a coisa vai entrando no ritmo, vai dando aquela exaustão e é aí que você vai vendo o que sobra disso. Ao mesmo tempo em que vai acumulando trabalho, por outro lado, fica mais tranquilo de fazer.

Gloria Pires em Anjo Mau, de 1997
Gloria Pires em Anjo Mau, de 1997

O que a motivou a aceitar a personagem?

Quando o Gilberto Braga me convidou, ele ainda não tinha escrito a novela. E eu aceitei sem saber nem o que eu ia fazer. Mas tenho total confiança nele, que é uma referência da teledramaturgia. O Dennis Carvalho, que é um diretor que é meu amigo, tem uma parceria de 20 anos com o Gilberto. Eu sabia que vinha alguma coisa muito interessante. E acho que a vida é uma loteria, você nunca sabe o que vem. Sempre que me propõem um novo projeto, eu agarro com unhas e dentes, não deixo passar.

Com Guilherme Fontes, em 1993, na novela Mulheres de Areia
Com Guilherme Fontes, em 1993, na novela Mulheres de Areia

Muitos atores afirmam preferir interpretar vilões por ser uma experiência libertadora. É o seu caso?

Eu gosto de bons personagens. Essa vilã é muito legal porque ela é diferente do que eu já fiz. Então, isso é maravilhoso. A essa altura do campeonato, sei lá quantas novelas eu fiz, não pensei que iria interpretar uma personagem como essa.

Como assim?

Nunca imaginei que, aos 51 anos, eu fosse fazer uma tarada sexual, uma mulher que aposta alto e blefa, que faz e acontece mesmo.

Em 1988 como a Maria de Fátima, de Vale Tudo
Em 1988 como a Maria de Fátima, de Vale Tudo

Os vilões costumam cair no gosto do público. A que você, que já viveu alguns papéis do gênero, atribui essa predileção?

Acho que o vilão é instigante e transgressor. A gente sempre quer transgredir, todos buscam uma rebeldia. A moda mostra isso o tempo inteiro e está sempre fazendo uma releitura de coisas do passado, por exemplo. Acredito que ser diferente e se destacar no meio da multidão são características que contam.

Houve algum tipo de preocupação por, eventualmente, expor o corpo durante alguma cena mais quente da personagem?

Isso é outra questão. Não estou aqui para “pagar corpinho”. Eu tenho 42 anos de TV Globo, então não estou aqui para ser a “coroa sexy”. Não é por aí. Estou feliz demais com a possibilidade de fazer essa personagem que é uma novidade para mim. Beatriz é uma vilã, é uma louca e, ao mesmo tempo, é adorável e faz coisas ótimas. E é péssima. Essa personalidade mutante é que é genial.

Gloria Pires em Cabocla, de 1979
Gloria Pires em Cabocla, de 1979

Então você enxerga um lado bom na personagem?

Lógico, todo mundo tem. Beatriz leva a amizade com Inês (Adriana Esteves) um pouco por pena e porque tem algum apoio dela. Minha personagem se sente também querida, embora seja de uma forma invejosa e muito louca. Se formos fazer uma leitura católica romana, ela não vai ter nada, é uma peste. Mas, se for olhar para o lado humano, o pior ser humano que nós podemos imaginar tem alguma coisa boa. Tem algum momento em que ele é humano, chora e sofre por alguma coisa.

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