Mooca Moderna

Mooca Moderna

Bares, baladas e um projeto de revitalização da área industrial trazem um ar de modernidade para a Mooca nos seus 460 anos

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A Mooca chega aos 460 anos assistindo ao nascimento de um projeto para revitalizar uma área importante na história do bairro, de São Paulo e de muitas famílias mooquenses e seus descendentes: a região das Ruas Borges de Figueiredo e Rua da Mooca. Foi ali, ao longo da via férrea, que muitas indústrias que ajudaram a construir a identidade da Mooca surgiram e tiveram seu ápice (galpões da RFFSA; Moinho Gamba e anexos; os Armazéns das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo; os galpões da Ceagesp etc.). Porém, quando se mudaram ou fecharam as portas, a estrutura industrial ficou para trás e, agora, tem gente querendo transformar aquele espaço em um lugar cheio de vida.

Grafite na Rua da Mooca
Grafite na Rua da Mooca

O projeto – idealizado pelo empresário José Américo, o Tatá – leva o nome de Distrito Mooca e foi inspirado na revitalização do bairro de Wynwood, em Miami. A ideia é ocupar os imóveis da região com negócios criativos na área de cultura, gastronomia, arte e design, além de transformar a própria rua em uma galeria a céu aberto com grafites de alta qualidade. “Pra que deixar abandonado se pode revitalizar? É um projeto para fazer da Mooca um novo destino de São Paulo”, diz o empresário. A Associação Distrito Mooca, criada para fomentar esse projeto, pretende atuar para estimular a preservação do patrimônio e o desenvolvimento da região. Recentemente, esteve à frente da iluminação do prédio da antiga Estação Mooca.

Na Mooca, empresários locais já estão interessados em fazer parte desse projeto. Fellipe Zanuto, da Pizza da Mooca, por exemplo, vai abrir um novo restaurante na Rua Borges de Figueiredo. “Essa área tem muito valor afetivo para o bairro porque era a região das indústrias. Então, tem muita história e tudo para se tornar um ponto de referência em São Paulo”, diz. “Acredito que um projeto desse tamanho vai fazer o nosso governo olhar com mais atenção para a região e trazer melhorias para o bairro. Isso, claro, sempre preservando o nosso patrimônio histórico”, completa ele, que gostaria de inaugurar o restaurante ainda neste ano.

A proposta também despertou o interesse de empresários de outras regiões da cidade. Mozart e Monica Fernandes, da Vértices Cenografia, Arte e Design, por exemplo, vão inaugurar, em parceria com Tatá, o Disjuntor, um espaço de cultura e eventos que vai reunir manifestações artísticas de diversas áreas (artes plásticas, grafite, música, dança e literatura), além de um bar com cervejas, drinques e alguns produtos tradicionais da Mooca.

Ao vestir a camisa do projeto, Mozart e Mônica decidiram mudar a sede da empresa, há mais de 12 anos na Zona Oeste, para a Mooca. “Estamos bem atuantes nesse projeto, fazendo a cenografia de alguns estabelecimentos, e resolvemos investir na ideia porque acreditamos muito nela”, diz Mozart.

Trecho da Rua da Mooca que deve ganhar uma nova cara com os empreendimentos do Distrito Mooca
Trecho da Rua da Mooca que deve ganhar uma nova cara com os empreendimentos do Distrito Mooca
Publicitário Rogério Coutinho, um dos entusiastas do projeto
Publicitário Rogério Coutinho, um dos entusiastas do projeto

O orgulho que os mooquenses têm da história do bairro e de suas características – e que tantas vezes já ajudou na questão da preservação do patrimônio -, é parte importante desse projeto, já que a ideia é preservar e transformar a região em um lugar pulsante. O tatuador Renato Furlani, o Box, vive na Mooca desde que nasceu e está mais do que otimista com o projeto. Até já tatuou o símbolo do Distrito Mooca na perna. “Você acha que um monte de prédio seria melhor? Isso é a nossa história, impossível não dar certo”, diz.

Rogério Coutinho, publicitário e morador que faz a página Viva Mooca no Instagram e no Facebook, vê com bons olhos a ideia de revitalizar uma área sem destruir o patrimônio histórico do local, tão importante para a memória da cidade de São Paulo. “Eu acho ótimo, porque estão ocupando espaços abandonados sem destruir na história”, diz.

Fora da rota

Um bairro tradicional como a Mooca ganhar uma nova cara faz parte de uma transformação natural da cidade, cujos espaços públicos vão sendo ressignificados ao longo do tempo, acompanhando as mudanças de comportamento da sociedade. A São Paulo de hoje não tem nada a ver com a São Paulo da era industrial. “Forma e comportamento andam juntos. Os espaços públicos são a expressão do papel que a sociedade atribui às trocas e ao convívio. Por outro lado, eles também influenciam o comportamento da sociedade”, explica o professor e urbanista Mauro Calliari.

Essa “modernização” da Mooca é algo que vem acontecendo há cerca de dois anos, com a chegada de bares e lugares mais descolados, como o Cateto, o BTNK e o Nos Trilhos, que fizeram com que algumas pessoas saíssem da rota tradicional de bares e baladas de São Paulo – como Jardins, Pinheiros, Itaim e Vila Madalena – para vir até a Zona Leste.

O Cateto, por exemplo, começou a funcionar em Dezembro de 2013 e fez o movimento inverso da maioria das casas de sucesso da cidade, que saem de bairros já badalados (como Jardins ou Vila Madalena) e vêm para a Zona Leste abrir suas filiais. No caso deles, a aceitação do bar localizado na Rua Fernando Falcão levou à abertura de uma casa em Pinheiros. O local tem foco em cervejas e embutidos artesanais, o que trouxe para o bairro uma boemia diferente daquela ligada à pizza e macarronada.

“Chegamos a olhar outros bairros antes de abrir na Mooca, mas desde o começo tínhamos esse conceito de trabalhar com produtos artesanais e queríamos um lugar que tivesse história. E a Mooca foi o ponto perfeito”, diz um dos sócios, Márcio Tirico.

Espaço Nos Trilhos, onde acontecem eventos cheios de personalidade
Espaço Nos Trilhos, onde acontecem eventos cheios de personalidade
Sidnei Gonçalves, da ABPF-SP e Lucas Amorim, do espaço Nos Trilhos
Sidnei Gonçalves, da ABPF-SP e Lucas Amorim, do espaço Nos Trilhos

O Nos Trilhos é um espaço para festas e eventos que ocupa o pátio da ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária), sob o viaduto Alcântara Machado. Foi uma ideia do produtor cultural Lucas Amorim e do diretor da Associação, Sidnei Gonçalves. As festas e eventos atraem pessoas de toda a cidade para um lugar que passaria despercebido pela maioria delas. “Eu estava procurando um lugar diferente para fazer eventos, conheci o Sidnei, conversamos e nasceu o Nos Trilhos. Parte da renda vai para a Associação, que está reformando os vagões que estão no pátio”, conta Lucas. Hoje, há cerca de 28 vagões, quase todos bem deteriorados. Alguns deles receberam, recentemente, grafites de um grupo de artistas liderados pela dupla Os Gêmeos, e daqui a dois meses serão enviados para reforma. No mesmo espaço (mas com funcionamento independente) fica o BTNK, um bar pop up que funciona dentro de um vagão desativado datado de 1922. “O interessante desse espaço é que a gente consegue unir história com música e arte. Nossa ideia é ampliar o projeto, tornar o espaço mais interessante, para atrair mais gente.

agão onde funciona o bar pop up BTNK
Vagão onde funciona o bar pop up BTNK

Queremos, por exemplo, transformar alguns vagões em minicinema, miniteatro, e abrir para visitação um pequeno museu com peças da história ferroviária que temos aqui”, conta Lucas.

Além de colocar a Mooca na rota dos bares e baladas da cidade, essa injeção de modernidade fez com que muitos mooquenses passassem a ficar um pouco mais no bairro, sem ter que atravessar São Paulo para se divertir. “Eu acho que essas casas mais modernas e o projeto do Distrito Mooca podem ajudar os próprios moradores a valorizarem ainda mais o bairro onde moram”, diz Rogério.

Essa dinâmica de mudança é inevitável na vida das cidades. É uma ilusão querer controlá-la ou achar que um bairro não passará por isso. O importante é ter cuidado com a mudança descontrolada, que pode não ter um efeito benéfico para o bairro.

“Em qualquer lugar, é preciso cuidado para não transformar a possibilidade de vida urbana em impossibilidade”, avalia Mauro.

“O bom espaço público é aquele que estimula o encontro, favorece a fruição e provoca a vontade de ficar mais tempo”, completa.

Essas iniciativas que fogem da rota tradicional e trazem um novo olhar para o bairro podem trazer valorização, investimento e melhorias. Mas tudo precisa ser feito com critério para que não aconteça um processo de expulsão dos moradores, caso o bairro fique inacessível a eles. Essa não é uma dinâmica simples e envolve muitos interesses. Mas é bom ficar de olho e torcer para que traga benefícios para o Mooca, e que os próximos 460 anos sejam tão cheios de história quanto esses que se passaram.

Wynwood

foto 1 (3)foto 3 (4) foto 4 (3)Wynwood era um bairro operário de Miami que acabou abandonado e virou cenário de violência e usuários de drogas. Em 2009, um empresário da área imobiliária começou a transformar as fachadas em galerias a céu aberto, levando grafiteiros do mundo todo para colorir as paredes com sua arte, o que atraiu público e novos negócios para a região. Hoje, as ruas coloridas e cheias de vida são um passeio para os moradores da cidade e um importante ponto turístico, com mais de 70 galerias de arte, restaurantes, bares e lojas descoladas.

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