Minha quase “ex” primeira namorada

Minha quase “ex” primeira namorada

Os vários lances de um amor platônico

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PrintMês de agosto, não me lembro o ano. Realizava-se a tradicional quermesse da Paróquia N. S. do Bom Parto. A praça, toda engalanada de bandeirolas multicoloridas, apresentava um aspecto extremamente festivo. Famílias inteiras, moços, moças e pessoas idosas passeavam alegres entre as barracas. No coreto, a bandinha, composta de seis músicos, tocava lindas valsas da época.

Para mim, aquele era um dia especial. Na cabeça, uma ideia fixa. Não passaria daquela noite. Cheio de coragem, finalmente falaria com a garota. Ao meu lado, meu amigo Álvaro.

A garota e suas colegas passaram duas ou três vezes por nós. Álvaro me deu uma cutucada.

— Afinal, você vai ou não vai falar com ela? — perguntou. Apavorado, sinalizei que sim.

Meu coração dava pulos, parecia querer saltar pela boca, era agora ou nunca.

Novamente passaram por nós, postei-me ao seu lado. Suas colegas se afastaram. Não me lembro exatamente das palavras ditas na ocasião, só sei que consegui dar meu recado.

Sorrindo, ela me disse que teríamos de esperar um ano, prazo dado por seu pai. Não titubeei um segundo; se necessário, esperaria por ela a vida toda, tal meu sentimento na época.

Vez por outra, nos víamos nas festinhas do bairro. Dançávamos, conversávamos um pouco, nada mais, tínhamos que aguardar. Eu sentia pela garota um amor platônico, a colocaria no lugar da santa da paróquia sem constrangimento. Perto do nosso sentimento, o amor de Romeu e Julieta era chanchada carnavalesca, pensava eu. Certo dia, um colega de trabalho me deu a notícia que eu jamais imaginaria: a garota dos meus sonhos estava namorando. Meu mundo desabou.

Duvidando da palavra do colega, pedi ao Álvaro que me acompanhasse a um clube do bairro. Ela o frequentava com o namorado – a informação do mesmo rapaz. Chegando ao local, a constatação. Agarradinho, ao som de um bolero, o casal rodopiava pelo salão.

Passei a não acreditar nas mulheres. Amor e casamento, nem pensar! Namorava tantas garotas quantas surgiam à minha frente, duas ou três ao mesmo tempo. Às vezes, passeando com uma, trombava com outra. Finalmente, um dia encontrei a garota que me colocou novamente nos trilhos. Tive que enfrentar o padre daquela mesma paróquia. Estamos casados só há 56 anos.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da União Brasileira de Escritores.

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