Maternidade conectada

Maternidade conectada

Com um olho no bebê e o outro na web, mães usam as redes sociais e blogs para dividir anseios e experiências sobre a gestação e a criação dos filhos

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A internet transformou os rumos dos relacionamentos profissionais, afetivos e familiares, inclusive os maternos. As perguntas surgem a todo momento e, nessa hora, nada melhor do que conversar com quem entende do assunto. “Dividir experiências é sempre enriquecedor. Os blogs, aplicativos como o WhatsApp e redes sociais têm facilitado esse caminho. Lá, as mães conseguem consumir toneladas de informação sobre maternidade e falar a respeito dos seus erros e acertos, muitas vezes, livres de julgamento. E o principal: se sentem acolhidas”, explica a psicóloga Paula Borges, que atua como analista do comportamento. Segundo ela, entre 60% e 80% das mães experimentam algum sentimento negativo ou alteração de humor após o nascimento do filho. “O encontro e a troca de informações geram um impacto direto no comportamento das mães, desmistificando conceitos como ‘eu não sou uma boa mãe’ ou ‘não consigo educar meu filho”, diz.

Paula afirma que todo meio que permite um maior acesso à informação é positivo, desde que a pessoa saiba filtrar o que chega até ela, além de compreender que cada experiência é única e validar o que realmente cabe no seu modo de vida. “Em todos os grupos, online ou não, há conflitos cotidianos, pequenas disputas e comparações. Porém, até esse contraste pode ser vivenciado de forma positiva, na medida em que é visto como uma oportunidade de crescimento. Às vezes, a presença de um psicólogo para mediar os debates pode ser interessante”, aponta.

Por ora, Paula comenta que a existência desses grupos não diminui a influência da aprendizagem através dos modelos familiares. “A experiência do ‘ser mãe’ é sempre nova e individual e a forma como a pessoa vai lidar com isso é muito particular. Os meios de comunicação não podem tomar o lugar da vida e da experiência real. Se a mulher colocar como verdade absoluta tudo o que encontra nas redes sociais, vai se esquecer de sentir e vivenciar o que é ser mãe, de fato, e os laços serão afetados”, diz.

E para a mamãe que quer entrar para o time virtual de maneira sadia, Paula indica: “navegue pela internet, troque experiências e busque o máximo de informações. Mas tenha consciência da importância de filtrar o que pode contribuir positivamente para o desenvolvimento do seu filho e para construção da sua relação como mãe. Como em qualquer outro grupo, o colocar-se no lugar do outro é indispensável para que exista uma interação proveitosa”.

1Juliana Trigo, 33
Mãe de Manuela, 9, e Davi, 4

O nascimento precoce de Manuela fez Juliana cair de vez no universo digital. “Sou uma mãe literalmente conectada desde a gestação. A Manu teve uma falta de oxigenação no cérebro que causou a Paralisia Cerebral, e foram as comunidades do Orkut que me ajudaram a entender um pouco do que aconteceu. Meu marido e eu conhecemos famílias do mundo todo que vivem a mesma situação. Já descobri vários métodos de fisioterapia, dicas de equipamentos de reabilitação e informações pelo Facebook, WhatsApp e Instagram. Hoje, sou eu quem ajudo as mamães mais novas. Vibro quando vejo uma criança se superando. Graças às redes, ja recebi até uma amiga que veio do Rio de Janeiro para fazer uma cadeira de rodas aqui em São Paulo”, conta.

Com Davi não é diferente. Juliana participa do grupo do WhatsApp das mães de crianças da sala dele, onde compartilham fotos das crianças em sala, tiram dúvidas sobre doenças, vacinas e recebem indicações de médicos. “No ano passado tive muitos problemas, pois ele mordia e batia nos coleguinhas. Usei bastante os grupos para discutirmos sobre isso e me ajudou muito. Graças a Deus, essa fase passou”.

Para ela, esses canais na Internet são excelentes facilitadores do dia a dia, uma vez que a rotina é bastante corrida. “Gosto muito de mostrar para as pessoas como é a vida de uma mãe com dois filhos, sendo um deficiente. Ainda assim, descobri que não podemos comparar as crianças e as doenças, pois cada uma reage de uma maneira. As redes são excelentes para compartilhar as informações e dividir experiências, mas se a pessoa não souber lidar com essas diferenças, elas podem atrapalhar”, finaliza.

2Ana Claudia AlHames, 33
Gabriel, 4, e George, 2

Seguindo mais de 50 perfis, Ana divide as atenções entre grupos e blogs que compartilham temas relacionados à faixa etária de cada um dos filhos. “Macetes de mãe”, “Clube da fraldinha”, “Promovida à mãe” e “De mãe para mamãe” são alguns deles. No WhatsApp, ainda está conectada com as mães de colegas da escola de Gabriel. “Eu passo adiante tudo o que posso. Uma vez, na praia, meu filho ficou com o bumbum assado. Minha mãe disse para colocar amido de milho, uma vez que as pomadas já não adiantavam. Deu super certo e espalhei a dica”, conta.

Aliás, uma experiência compartilhada em um blog foi a salvação de Ana após George chupar o líquido de um interruptor de veneno. “Foi assustador, mas como vi que ele estava bem, tentei manter a calma, o segurei no colo e comecei a pesquisar na internet sobre isso. Achei um blog que contava um caso de intoxicação, junto com um telefone do setor toxicológico do Hospital das Clínicas. Liguei imediatmente e a atendente me passou todas as orientações. Fiquei tão aliviada e disse que queria abraçá-la naquele momento”, lembra.

3Adriana Toku, 42
Isabela, 4, e Pedro, 1

O difícil processo de amamentação da primôgenita Isabela, e todas as frustrações que vieram junto com o problema, levou Adriana às redes sociais após o nascimento do segundo filho. “Quando engravidei da Belinha, pensei que amamentação era uma coisa simples e instintiva, que bastava colocar o bebê no peito.

Praticamente nem tive a chance de tentar de forma natural. Vivi dias difíceis, me frustrei e gastei muito com leite artificial”. Na vez do Pedro, uma consultora em amamentação passou todas as dicas de como acertar na amamentação, esclareceu dúvidas e a incluiu nas páginas do Facebook “GVA – Grupo Virtual de Amamentação” e “Matrice – Apoio à Amamentação”. “Participo também do ‘Mamis na Madrugada’. São mães que se mantêm conectadas 24 horas por dia. Batemos papo, tiramos dúvidas, promovemos ações para ajudar umas às outras”.

Para Adriana, os conselhos familiares são bons, mas atrapalham quando as crenças passadas de uma geração para a outra são infundadas. “Escolhi grupos sérios, com fundamentos científicos, que me deram parâmetros para compreender cada fase e discernir se está tudo certo no desenvolvimento dos meus filhos. Graças ao apoio dessas mães cheguei ao meu objetivo: a amamentação exclusiva até o sexto mês”.

4Priscila Rodrigues, 37
Mãe de Davi, 5

Quando Davi tinha apenas um mês, Priscila se juntou com outras mães do grupo E-family para diminuir as ligações inúteis ao pediatra e ampliar as experiências da maternidade. “Depois migramos para o Facebook. Atualmente, estamos conectadas também pelo WhatsApp. Somos em 24 mães de todo o Brasil, além de três brasileiras que vivem fora”.

As questões relacionadas à alimentação e aos estímulos de cada fase são os principais tópicos discutidos. “Nasce o filho e, com ele, a culpa, os receios e dúvidas. Por isso, estar em contato com mulheres que estão sentindo o mesmo que eu me trouxe uma calma incrível. Já deixei de ir a hospitais por coisas corriqueiras que aconteciam com meu filho graças aos grupos. Sem falar no prazer de ajudar alguém com a minha experiência”.

Ela faz questão de ressaltar que é preciso ter bom senso na hora de se relacionar com outras mães na web. “Em todo lugar há pessoas ruins, que fazem perfis falsos para participar e prejudicar a harmonia entre as demais. Por isso, antes de compartilhar algo, certifique-se de que são pessoas reais e com boas intenções”.

5Luciana Morgado, 32
Mãe de Nelson, 4, e Leonardo,...

Luciana se define como uma “mãe conectada em assuntos, não em pessoas”. Receitas práticas, comidas que deram certo com as crianças e opções de lanches estão entre os principais interesses dela. “Busco conhecer mais sobre determinado tema, em vez achar respostas prontas. Leio de tudo, mas dificilmente coloco conselhos em prática sem fazer um bom filtro”.

Nos primeiros anos de vida do primogênito, o alto volume de informações divergentes deixou Luciana perdida. E assim, em 2012, nasceu a ideia de criar o blog Luliluli, dedicado ao desafios da maternidade, produtos e serviços, alimentação saudável e educação. “Depois que o Léo nasceu, percebi que as mães buscam textos sobre experiências e decidi compartilhar um pouco da minha vida de mãe”.

Para ela, o mais difícil é fazer posts que transmitam uma opinião sem julgar mães que pensam diferente. “Mas me sinto muito acolhida pelas mães que me seguem. Acho essa troca maravilhosa, quando vem de gente do bem. É bom para conhecer outros caminhos. Às vezes alguém te mostra algo que você ainda não tinha visto ou percebido e acende uma luzinha lá dentro”.

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