Luz e sombras

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Letícia Sabatella equilibra delicadeza e densidade na pele da passional Arlinda de Amorteamo

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Letícia Sabatella, atriz.O jeito tímido e a postura delicada de Letícia Sabatella convivem muito bem com a intensidade artística e o desejo de autonomia que cercam a atriz. A pluralidade humana sempre a encantou e são exatamente essas ambiguidades que ela procura a cada novo personagem. “Ninguém é só força ou fraqueza. Defendo o brilho e a escuridão dos papéis que me são confiados. O contraste que pulsa dentro de cada um de nós é sempre inspirador”, filosofa.

Entre a doçura e a força de Arlinda, sua personagem em Amorteamo, da Globo, Letícia se mostra satisfeita em encarar um de seus papéis mais complexos na TV. “Ela vai se modificando ao longo da história. Começa solar e vai se entregando ao que há de pior dentro de si, mas sem se tornar exatamente uma vilã. Arlinda ri, ama, sofre, odeia, sente inveja, quer viver e morrer. A complexidade dela a torna muito crível”, analisa.

Jackson Antunes, Letícia Sabatella e Daniel de Oliveira, que contracenam em Amorteamo
Jackson Antunes, Letícia Sabatella e Daniel de Oliveira, que contracenam em Amorteamo

De origem mineira, mas criação curitibana, Letícia estreou na televisão já fazendo sucesso, na pele da prostituta Taís, de O Dono do Mundo. Após uma breve incursão pela Manchete, construiu na Globo uma carreira sólida a partir de novelas como Torre de Babel e O Clone, e séries como A Muralha e Hoje é Dia de Maria. “Tenho a sorte de ter a possibilidade de chegar na casa das pessoas, mas também de poder fazer coisas menores e instigantes. Não dá e nem quero ficar o tempo todo no ar, mas fazer TV é uma necessidade para mim”, ressalta. Aos 44 anos, Letícia vive um dos momentos mais frutíferos de sua trajetória, dividindo-se entre o mainstream da televisão, peças conceituais e uma crescente carreira musical.

Com o fim das gravações de Amorteamo, ela volta suas atenções para o espetáculo Trágica.3 e para o show Caravana Tonteria, onde entoa canções de Chico Buarque, Cole Porter, Duke Ellington e Carlos Gardel. “São projetos que mantêm minha curiosidade acesa. Preciso fazer de tudo um pouco para me sentir completa, seja como atriz ou cantora”, destaca.

Letícia Sabatella em Hoje é Dia de Maria, da TV Globo
Letícia Sabatella em Hoje é Dia de Maria, da TV Globo

Sua personagem em Amorteamo subverte a figura delicada que marca boa parte de sua carreira. A densidade do projeto o tornou irrecusável?

Exatamente. Quando tive acesso ao roteiro, vi que seria uma experiência única. A Arlinda não é nada linear. Ela consegue ser uma velha, sofre como mocinhas românticas, tem o desejo de vingança de uma grande vilã, tem a inconsequência da juventude. Essa complexidade me encantou de cara e vi que seria engrandecedor participar da minissérie.

Na contramão da naturalidade das novelas, esse tipo de trabalho recicla sua relação com a televisão?

Sem dúvida. O esquema é totalmente diferente. Acho que o grande diferencial desse trabalho é a junção de tantas mentes criativas e o tempo que temos para aprimorar as ideias. Os primeiros dias de ensaio e gravações foram tomados por essa característica. Cheguei no set e vi aquelas perucas, as fotos, as referências e me encantei profundamente pelo modo como uma história tão trágica e romântica seria contada. Não é um produto tão comum para a TV aberta.

Letícia e Giovanna Antonelli em O Clone, de 2001
Letícia e Giovanna Antonelli em O Clone, de 2001

Em que sentido?

As ousadias do texto são seguidas de forma muito livre pelas equipes técnicas. Não basta só contar a história, a direção queria que existisse um subtexto na imagem. Isso influencia de forma muito direta o trabalho do ator. A gente pode exagerar e viajar nas referências, mas é preciso ter cuidado para não ficar tão over. Acredito que Amorteamo seja um “pequeno grande projeto”.

Como assim?

Me soou grandioso. São poucos episódios, mas o investimento criativo e de produção é alto. Pelo pouco que vi, o trabalho que fizemos nos estúdios se sobressai ainda mais na tela. Acho que o resultado final tem forte influência do cinema expressionista alemão. Existe a brincadeira com a linguagem teatral e acho maravilhoso que isso tenha espaço na televisão. Ainda tenho algumas cenas para gravar e, desde o início, tenho a impressão de que é o tipo de projeto que me inspira a fazer coisas mais ousadas na televisão.

Fazer apenas novelas a deixaria insatisfeita?

Eu gosto de fazer novelas, mas não apenas só esse tipo de trabalho. Atualmente, a empresa e os diretores entendem melhor isso. Sabem que, quando não acerto minha participação no projeto, não é por mal. É apenas para tentar trilhar caminhos mais diferentes. Passada essa urgência, vou adorar me comprometer com um projeto de duração maior. Boa parte da atriz que sou hoje, eu devo às novelas que fiz. Mas, desde o meu início na tevê, tenho tido esse equilíbrio entre trabalhos longos e mais curtos. Nos curtos, consigo ver que a televisão, em muitos casos, pode ir além do entretenimento.

Letícia Sabatella  e Marcos Palmeira em Irmãos Coragem, de  1995
Letícia Sabatella e Marcos Palmeira em Irmãos Coragem, de 1995

Algum trabalho a marcou especificamente nesse quesito?

Não é apenas um. Sob a direção do Dennis (Carvalho), fiz minisséries como Um Só Coração e JK, que foram muito representativas do ponto de vista histórico. Já com o Luiz Fernando (Carvalho), tive minhas personagens mais extravagantes e diferentes, em trabalhos muito ousados como Hoje é Dia de Maria e sua continuação. Acho que “Amorteamo” dialoga com esse tom mais artístico desses projetos.

O Dono do Mundo, sua estreia na TV, é atualmente reprisado pelo canal Viva. Você chegou a rever alguma cena?

Eu sei que está passando, mas evito assistir (risos).

Por quê?

Eu era péssima! Não que me ache uma grande atriz hoje em dia, mas acho que meu desempenho está melhor. Eu tenho lembranças ótimas, de pessoas que me acolheram, sou amiga do (Antonio) Fagundes, da Malu (Mader), da Betty (Goffman) e do Stênio (Garcia) até hoje. Mas olho as minhas cenas e fico com vergonha.

A atriz com Antonio Fagundes em O Dono do Mundo, de 1991
A atriz com Antonio Fagundes em O Dono do Mundo, de 1991

Sua personagem fez um grande sucesso na época. Você não acha que está sendo autocrítica demais?

Eu sou assim. Só assisto ao trabalho que está no ar para analisar o que pode ser ajustado. Essa insegurança sempre acontece. Em novelas, me sinto mais insegura por conta do volume de trabalho e do pouco tempo de preparo e ensaio. Ainda assim, mesmo com essa autocrítica, já consegui ser muito feliz fazendo novelas. Todos os trabalhos me trouxeram algo de bom, mas alguns deixam saudades, tipo a Latiffa, de O Clone ou a Yvone de Caminho das Índias. Também guardo carinho de Sangue Bom, onde pude cantar em cena.

Sua paixão pela música é antiga. Firmar-se na carreira de cantora chega a ser um objetivo para você?

É um caminho que estou trilhando aos poucos e que me dá muitas felicidades. De certa forma, atuo também quando canto. No show Caravana Tonteria, que tenho apresentado esporadicamente, interpreto uma cantora de cabaré meio maltrapilha e clown, que mistura Cole Porter, Edit Piaf e Elomar. Minha porção cantora foi tomando forma e hoje é muito importante para mim. Aos 44 anos, acho que preciso e tenho novas motivações.

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