Lembranças de uma habitação coletiva

Lembranças de uma habitação coletiva

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templateDias atrás, girando pelo Tatuapé, vi-me à frente de um grupo de sobrados entre as ruas Tijuco Preto e Serra do Japi. Pensamentos, levitando nas asas do tempo, fixaram-se numa saudosa imagem.

No lugar desses sobrados, existia uma antiga moradia cercada de muro baixo, tendo ao centro um portão de madeira e sobre ele uma exuberante primavera de flores vermelhas. O muro cercava a habitação coletiva do imigrante espanhol Bráulio Hernandez. Esta possuía quatro quartos do lado direito e as respectivas cozinhas do lado oposto. Um único banheiro servia àqueles toscos lares. Duas faixas de terreno, uma com árvores frutíferas, outra com galinheiro e horta, ladeavam a edificação. Ao lado das cozinhas, um telhado de duas águas cobria o poço de água potável e o tanque. O centro do quintal era coberto por magnífico parreiral.

O velho Bráulio, alto, magro e ossudo, pedreiro de profissão, com enorme dificuldade construíra a habitação. Por volta de 1940, nela residiam suas três filhas, maridos e prole. Um casal de italianos e seus quatro filhos eram os únicos inquilinos não pertencentes à família.

Meu pai, comerciante do Brás, após anos de maus negócios e perda de dinheiro, acabara dando com os costados no cortiço do velho. Genro e sogro apenas se toleravam. Minha mãe, em face das dificuldades, aos quarenta anos aprendia a profissão de tecelã e empregava-se em uma firma do Tatuapé. Leonardo, meu irmão mais velho, arranjara um trabalho no centro. Todas as tarefas da casa sobraram para mim, pois José, meu irmão caçula, contava apenas com cinco anos. Somavam-se a meus afazeres as questões escolares do curso primário do G. E. Visconde de Congonhas do Campo. Tornei-me adulto e responsável prematuramente.

Passei vários anos da infância naquele pequeno universo, procurando entender as complicadas relações dos adultos. Nele mesclavam-se atos de solidariedade com desavenças por questões insignificantes. A antiga harmonia, existente entre todos, fora substituída pelos interesses de cada casal. Os irmãos somente são solidários quando solteiros, ao se casarem passam a pensar somente nos interesses do seu pequeno núcleo. Avô Bráulio tratava de forma desigual seus netos, nutria preferência pelos filhos de uma das minhas tias. Avó Helena, ao contrário, dona de bondade infinita, tratava-nos a todos da mesma forma. Atenuava as arestas criadas pelo marido.

Aquele pequeno mundo começou a desaparecer em 18 de maio de 1945. Vitimado por um infarto, meu avô faleceu. O velho nos deixou ao deitar-se para o rotineiro descanso após o almoço.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da União Brasileira de Escritores. peabarca@yahoo.com.br

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