Fora do padrão

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Alexandre Borges se distancia da imagem de galã com o malandro Jurandir, de I Love Paraisópolis

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Alexandre Borges, ator.De bermuda, camiseta, volumosa barba grisalha e quase nada de maquiagem. Na pele do malandro boa praça Jurandir, de I Love Paraisópolis, da TV Globo, o ator deixa os ternos alinhados e bem cortados que acompanham a maioria de seus personagens e valoriza o estilo rústico de seu papel atual. “É uma libertação! É bom ficar sem me preocupar em fazer a barba durante alguns meses. Melhor ainda é não ter de ficar tanto tempo em processo de caracterização. Já chego quase pronto para gravar. Além da praticidade, o visual do Jurandir é parte importante na minha descoberta sobre o personagem”, analisa.

Nascido em Santos, litoral paulista, há 49 anos, Alexandre mantém a mesma curiosidade de quando iniciou sua trajetória como ator. Após passar por grupos de teatro capitaneados por diretores de vanguarda, como Ulysses Cruz e Antunes Filho, estreou na TV já no posto de protagonista de Guerra Sem Fim, da extinta Manchete, em 1993. Seu desempenho chamou a atenção de diretores da Globo, para onde se transferiu no ano seguinte e, de cara, engatou projetos como Incidente em Antares, Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados e A Próxima Vítima. Posteriormente, marcou presença em tramas como Quem é Você e O Beijo do Vampiro. E, mais recentemente, tem acumulado papéis cômicos em produções como Ti-Ti-Ti, Avenida Brasil e na atual novela das sete. “As coisas acontecem de forma muito rápida. É preciso tempo para analisar a construção de uma carreira e sinto muito orgulho do que já fiz. Porém, acho que ainda tem muito mais para acontecer”, garante.

É a primeira vez que você aparece na TV com um visual tão simples e popular. Como está sendo a recepção do público?

Acho que é bem próxima da minha reação quando comecei a deixar a barba crescer e, posteriormente, com o início das gravações. Jurandir é aquele tipo que me tira do lugar-comum da imagem dos cabelos milimetricamente arrumados e ternos. O público adora, se identifica e elogia nas ruas. Mas acho que é por conta do jeito simpático do personagem também.

Alexandre Borges e Murilo Benício em Ti-ti-ti (2010)
Alexandre Borges e Murilo Benício em Ti-ti-ti (2010)

Nem sempre os atores conseguem fugir da obviedade das escalações. Como você chegou a esse papel?

Estava de férias desde o fim de Além do Horizonte e sabia que uma hora seria escalado para alguma coisa. Aí recebi a ligação do Wolf (Maya, diretor), totalmente entusiasmado, falando que tinha um personagem para mim e que eu iria adorar, pois era bem diferente do que eu venho fazendo. Ele me contou do Jurandir, um morador de Paraisópolis, sujeito boa praça, que vive de bicos e é uma espécie de “faz-tudo” na região. Na hora, pensei: “Isso vai ser muito divertido!”. E é o que está acontecendo. Apesar de diversificada, minha carreira é muito marcada por tipos mais abastados. Acho legal variar e fazer um pobre que precisa se virar para sobreviver.

Quais as principais diferenças entre esses tipos?

A mais evidente é a facilidade na hora de trabalhar. Não preciso passar horas me produzindo para ficar engomadinho. O figurino e a caracterização são bem naturais e confortáveis. Fora que, olho no espelho ou me assisto pela TV e não vejo nada do Alexandre. Assumir os cabelos grisalhos dessa forma e deixar a barba crescer me deram outra fisionomia.

O visual mais natural e rústico foi ideia sua?

Propus e a equipe técnica achou interessante. A ideia é de desconstrução mesmo. Eu e a direção achamos que ele precisava de um visual mais despojado e tudo foi pensado para ter essa imagem rústica e meio afetuosa também. A inspiração partiu de uma boa parte do povo brasileiro. Gente que vive na corda bamba, tendo de mostrar seu valor. O personagem cresceu não só a partir das minhas conversas com os autores, mas do meu poder de observação.

Como isso funciona?

Não sou do tipo que fica em casa pesquisando pela internet. Eu ando muito na rua, vou ao mercado, ao shopping, saio com meus amigos. Quando estou envolvido com um personagem, esse olhar mais crítico acaba selecionando algumas referências mesmo. Fora isso, sou de Santos, uma cidade portuária, dominada por casarões e cortiços. Sempre convivi com pessoas próximas da figura do Jurandir. Essas memórias afetivas são muito importantes para qualquer personagem que possa aparecer.

Alexandre Borges e Débora Bloch em Avenida Brasil (2012)
Alexandre Borges e Débora Bloch
em Avenida Brasil (2012)

Frequentar a comunidade de Paraisópolis valorizou o processo?

Totalmente. Eu já conhecia a região, já tinha passado por lá. Mas nunca tinha entrado e conversado com moradores. Essa vivência é interessante na hora de gravar, de imprimir alguma verdade. Assim, eu consigo ter matéria-prima para gestos, atitudes e posturas de um local. É curioso quando você pode ter essa referência existente. Aconteceu o mesmo com Guerra Sem Fim, da Manchete. A gente gravava em pleno Morro da Mangueira, em uma época onde os problemas da segurança pública no Rio de Janeiro eram muito mais complexos. Aquela experiência foi importante para eu dar conta de interpretar um traficante, por exemplo. E acabou por me conectar a comunidade.

Como assim?

Eu passei a frequentar a quadra da escola de samba, a ser conhecido pelos moradores, desfilei na Sapucaí algumas vezes. Me deparei com tudo de bom e de ruim da vida daqueles moradores. Foi um choque de realidade, que me deu a noção de que, às vezes, a gente reclama demais da vida sem motivo. A alegria de viver das pessoas que moram no morro é quase inabalável. Não tem saneamento básico, segurança, transporte, mas eles, de alguma forma, tentam manter o sorriso no rosto.

Sua estreia na Globo foi com um pequeno papel na minissérie Incidente em Antares. Mas foi só a partir de Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados que você ganhou notoriedade dentro da emissora e um contrato de prazo longo. Após 20 anos, acha que conquistou o direito de fazer apenas o que quer na televisão?

Eu tenho uma relação muito boa com a direção da Globo. Eles respeitam quando tenho um projeto inadiável fora da emissora, por exemplo. Em compensação, não me lembro de ter recusado um personagem sequer. Tenho um contrato a cumprir e acho importante estar disponível para as escalações. O tempo me deu possibilidades de ser convidado para tipos cada vez mais complexos. É claro que alguns ficaram no meio do caminho, mas o ator tem a chance de se mostrar profissional nesses altos e baixos.

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