É intolerância ou alergia

É intolerância ou alergia

Entenda as diferenças entre esses distúrbios que, apesar dos sintomas parecidos, têm uma origem bem diferente

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shutterstock_206260282aVocê provavelmente já deve ter ouvido falar sobre as famosas dietas sem glúten e lácteos. Nova febre nos consultórios de ortomoleculares e nutricionistas funcionais, essa alimentação restritiva surgiu depois da descoberta de mais um vilão da saúde: a intolerância alimentar. Mais comum do que se imagina, o distúrbio atinge cerca de 40% da população mundial, com seus efeitos colaterais.

Especialista em alergia alimentar, a alergista Adriana Cunha afirma que, diferente da alergia, a intolerância alimentar abrange mecanismos não imunológicos, como a incapacidade metabólica de digerir um determinado alimento, sendo a intolerância à lactose a principal representante deste grupo. Em palavras simples, para digerir os alimentos são necessários diversos tipos de enzimas, quando alguma está ausente ou em quantidade insuficiente, pode-se desenvolver uma intolerância alimentar.

Já as alergias alimentares são, na verdade, reações de hipersensibilidade, ou seja, o sistema imunológico reage a determinados alimentos como se fossem perigosos e, para se defender, as células produzem anticorpos. Elas estão ligadas a diversos fatores, como herança genética, idade, hábitos alimentares e doenças infecciosas. “A alergia e a intolerância alimentar são muitas vezes confundidas porque causam sintomas parecidos, porém, o modo como produzem essas reações é, na verdade, muito diferente”, explica o nutricionista Gabriel Cairo Nunes, especialista em transtornos alimentares.

O glúten presente no trigo, no centeio, na cevada e na aveia é causa de alergia nos portadores de Doença Celíaca
O glúten presente no trigo, no centeio, na cevada e na aveia é causa de alergia nos portadores de Doença Celíaca
Há muitos exames para a detecção de alergia ou intolerância alimentares, podendo ser através de sangue, mucosa, respiração ou fezes
Há muitos exames para a detecção de alergia ou intolerância alimentares, podendo ser através de sangue, mucosa, respiração ou fezes

As manifestações da alergia alimentar são variadas. “Geralmente, envolvem o aparelho gastrintestinal (fezes com sangue, diarreia, dor abdominal e vômitos); a pele (urticária, coceira, eczema); o sistema respiratório (tosse, rinite, rouquidão e chiado no peito), além de enxaquecas e vertigens. Para a intolerância, os sintomas típicos são a diarreia, o excesso de gases e as dores abdominais”, explica Márcia Cavichio, assessora médica em gastroenterologia do Fleury Medicina e Saúde.

A intensidade das reações depende da quantidade ingerida e do nível do distúrbio. No caso da alergia alimentar, segundo Nunes, os sintomas tendem a aparecer de 10 a 30 minutos após o contato com o alimento. Já a intolerância pode demorar um período maior. “Os pacientes com alergia podem apresentar desde leves incômodos até um choque anafilático, que é uma reação súbita e grave, que impõe socorro imediato, pois pode ser fatal”, diz.

O diagnóstico depende de história clínica minuciosa associada a dados de exame físico, que podem ser complementados por testes alérgicos. Há muitos exames para detecção de alergia- ou intolerâncias alimentares, podendo ser através de sangue, mucosa, respiração ou fezes. “Porém, muitas vezes, eles não são 100% sensíveis, ou seja, não detectam todos os casos, sendo a história clínica de fundamental importância”, alerta Adriana.

Leite: intolerância ou alergia?

Qualquer indivíduo, independente da idade, pode ser surpreendido com uma repentina intolerância ou alergia. Muitas vezes, os sintomas surgem desde os primeiros dias de vida, como é o caso do consumo de leite. No entanto, é importante estabelecer a diferença entre alergia ao leite e intolerância à lactose. A alergia está relacionada às proteínas do leite, que podem causar uma reação imunológica no organismo. “Nesse caso, a criança pode ter os sintomas apenas com a ingestão de uma pequena porção de manteiga, por exemplo. Por isso, quanto mais tarde for introduzido o leite de vaca, menor a chance de apresentar alergia”, aponta Márcia.

Segundo Adriana, estima-se que a alergia alimentar acomete de 6 a 8% das crianças com menos de três anos de idade. “Com acompanhamento médico, a maioria delas torna-se tolerante ao leite e seus derivados entre três e cinco anos de idade, quando o intestino ganha maturidade. Porém, há algumas alergias que podem persistir ao longo da vida, tais como alergia a amendoim e frutos do mar”, comenta.

Já a intolerância ocorre em organismos que não produzem a lactase, enzima que digere a lactose, o “açúcar” do leite. “Ela é mais comum em adolescentes e adultos e tem característica genética. Alguns povos, como os orientais, são praticamente 100% intolerantes à lactose. Quando instalada, não tem regressão, pois a pessoa não volta a produzir a lactase. Os sintomas variam de acordo com a quantidade de leite ou derivados consumidos”, diz Márcia.

Hábitos como o consumo em excesso de produtos que contenham lactose, ou seja, que ultrapassem o limite de digestão, ou ainda a pouca ingestão da lactose podem desencadear a intolerância. De acordo com a endocrinologista Lilian Morimitsu, do Hospital Santa Cruz, “o fato de o indivíduo permanecer muito tempo sem consumir lactose pode fazer com que a lactase seja produzida cada vez em menor escala, pois o organismo entende que sua produção não é mais necessária”.

Nas situações de alergias permanentes, que se prolongam ou surgem ao longo da vida, Nunes afirma que não há cura. “O único tratamento é a exclusão total do alimento ou nutriente. Já algumas intolerâncias podem ser corrigidas com o uso de suplementos. No caso da lactose, é possível ingerir a enzima junto com o leite ou derivado, para minimizar os sintomas”, conclui.

O suporte nutricional é altamente recomendado para evitar as deficiências nutricionais. Portanto, quem sofre de intolerância à lactose, deve fazer algumas substituições para suprir a falta de cálcio e vitamina D. “Feijão, soja, grão-de-bico, ervilha, carnes, ovos, vegetais de cor verde escura, peixes, sucos à base de soja, tofu, amêndoa, castanha do Pará, nozes, linhaça e gergelim são bastante recomendados. Alguns produtos lácteos apresentam baixo teor de lactose e também podem ser consumidos. São eles: leite sem lactose, alguns tipos de iogurtes mais líquidos, queijos maturados (cheddar, parmesão, suíço) e mussarela de búfala”, recomenda Lilian.

Uma dica importante é sempre ler os rótulos dos alimentos com atenção, pois as composições dos produtos industrializados são mudadas sem aviso prévio.

Doença Celíaca

Outra condição alimentar bastante comum é a falta de aceitação do organismo ao glúten. A famosa doença celíaca afeta uma em cada 250 pessoas no mundo, embora seja rara em africanos, chineses e japoneses. Considerada uma doença autoimune, se caracteriza por intolerância permanente ao glúten, uma proteína presente no trigo, no centeio, na cevada, na aveia. “O sistema imunológico agride a mucosa do intestino delgado, que perde a capacidade de absorver os nutrientes. Consequentemente, o paciente emagrece ou deixa de ganhar peso e crescer e desenvolve diversas doenças, como anemia e osteoporose”, alerta Márcia.

O único tratamento é a dieta totalmente isenta da proteína. Assim, Nunes ressalta que, o glúten não desaparece quando os alimentos são assados ou cozidos, e por isto a restrição deve ser seguida à risca. “O malte, muito questionado, é um produto da fermentação da cevada, portanto apresenta também uma fração de glúten. Portanto, os produtos que contenham malte, xarope de malte ou extrato de malte não devem ser consumidos pelos celíacos”, explica.

Nem sempre o diagnóstico é simples, pois o quadro clínico da doença se manifesta com e sem sintomas. “A manifestação clássica é frequente entre o primeiro e terceiro ano de vida, ao introduzir alimentação à base de pão, sopas de macarrão e bolachas. Diarreia crônica, desnutrição com déficit do crescimento, anemia, emagrecimento e falta de apetite, dor e distensão abdominal, vômitos e apatia são algumas das reações. Já a não clássica, as alterações gastrointestinais não chamam tanto a atenção. Irritabilidade, fadiga e prisão de ventre caracterizam o quadro”, diz Nunes.

Há ainda, a doença na forma assintomática. Nestes casos, são realizados exames (marcadores sorológicos) em familiares de primeiro grau do celíaco, que têm mais chances de apresentar a doença (10%). Os celíacos são um grupo de risco quando se trata de complicações como o câncer do intestino, anemia, osteoporose, abortos de repetição e esterilidade. Apesar disso, a condição é de fácil tratamento, o qual precisa ser feito ao longo de toda a vida, ainda que o indivíduo passe a não ter os sintomas iniciais.

E as famosas dietas sem glúten são realmente recomendadas? “Hoje em dia, há um modismo em relação à exclusão do glúten da alimentação. A não ser que haja suspeita médica de alguma alergia alimentar ou distúrbio imunológico relacionado ao glúten, não há fundamento científico que apoie essa restrição alimentar”, adverte Adriana.

Nunes faz, ainda, uma ressalva: “toda restrição alimentar pode levar a carências sérias, além de contribuir para transtornos alimentares. Acredito que essa prática é apenas uma forma que alguns profissionais mal intencionados acharam para restringir alimentos e consequentemente calorias”. Fica o alerta!

Principais alimentos causadores:

shutterstock_146078012 shutterstock_164807996 shutterstock_143216152Alergia – leite, trigo, ovo, soja, frutos do mar, amendoim, castanhas, kiwi, morango e milho.

Intolerância – leite e derivados (lactose); sucos artificiais, gelatinas e balas coloridas (corante tartrazina); temperos como caldos de carne ou galinha (aditivo glutamato monossódico); frutas desidratadas, vinhos e sucos industrializados (sulfitos).

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