É bom andar a pé

É bom andar a pé

Uma reflexão sobre porque caminhar é bom para as pessoas e para a cidade

COMPARTILHE

No dia 1º de fevereiro, dei 15.887 passos em 2h32 minutos, perfazendo 5,6 quilômetros. Os médicos dizem que dar 10 mil passos por dia é suficiente para colocar o sedentarismo de escanteio e dar um upgrade na saúde do coração. Apesar de caminhar há muitos anos, nunca havia parado para quantificar passos e fiquei surpresa com esse resultado. Não consigo dar 15 mil passos todos os dias. Aquela quarta-feira foi uma exceção. Mas como caminhar já um hábito, facilmente chego nos 10 mil, contabilizando a corrida matinal, o caminho de casa até o trabalho e todos os pequenos trajetos que faço diariamente. Alguns vão achar que perco tempo, mas eu ainda acho que estou no lucro porque caminhar é, pra mim, um grande prazer. E a cidade também ganha com pessoas que caminham bastante.

Mais gente caminhando significa ruas mais movimentadas, comércio local mais ativo, cidade menos poluída, menos congestionamento, mais silêncio e, acreditem, mais segurança. “Existem muitos preconceitos sobre o caminhar a partir do olhar de quem está dentro do carro e não vivencia usar o andar a pé como transporte. Quanto mais pessoas caminharem, mais seguras serão nossas cidades. Segundo a escritora e ativista urbana Jane Jacobs, as calçadas e os espaços públicos desempenham papel fundamental para a manutenção da segurança nas cidades e aí reside o conceito de “olhos na rua” proposto por Jacobs: quanto mais pessoas estiverem olhando para as calçadas, mais os pedestres se sentirão seguros. Por isso calçadas com pouco movimento e rodeadas de muros altos fazem com que os transeuntes tenham medo de passar a pé por ali. Se continuarmos nos fechando em nossos carros, morando em condomínios privados e dispensando a interação social, jamais teremos cidades seguras”, avalia Andrew Oliveira, pesquisador do projeto Como Anda, uma iniciativa para estudar e estimular o andar a pé como meio de transporte.

A educadora Andressa Lutiano, 37, percebeu isso quando tomou a decisão de vender o carro e experimentar novas formas de se locomover pela cidade. “Achava que fazer as coisas a pé era mais perigoso do que de fato é. Percebi que quanto mais gente na rua, melhor”, diz. Ela também começou a olhar de um jeito diferente para as distâncias percorridas. “Antes, achava qualquer trecho de 500 metros longe. Agora, essa percepção ficou diferente. Se tiver que caminhar quatro quarteirões, acho que é pertinho”, diz.

Experimentar foi fundamental para que Andressa mudasse completamente de hábito. De uma pessoa que usava o carro para todos os afazeres, ela passou a ser alguém que nem tem carro, já que vendeu o veículo no ano passado. A ideia era ir trabalhar de bicicleta, mas não deu certo. “O trajeto tem muita ladeira e não me adaptei”, conta. A solução foi começar a usar o Uber para fazer os trajetos longos e a caminhada para os caminhos mais curtos.

“Eu vou para o trabalho de Uber, mas faço todos os outros trajetos mais curtos do meu dia a pé. Saio do trabalho e vou treinar no parque, por exemplo, caminhando”, conta. E quando o estresse fala mais alto e ela sente que precisa baixar um pouco a adrenalina, faz, andando, parte do caminho que faria de carro.

A troca do muro do Ceret por uma grade, em 2015, deixou a Rua Eleonora Cintra mais agradável e segura para quem caminha por ela. Como se pode ver na foto menor (de 2011), o muro deixava aquele trecho mais feio e intimidador.
A troca do muro do Ceret por uma grade, em 2015, deixou a Rua Eleonora Cintra mais agradável e segura para quem caminha por ela. Como se pode ver na foto abaixo (de 2011), o muro deixava aquele trecho mais feio e intimidador.

Naovou

Questão de hábito

Levar os filhos à escola, ir ao shopping ou ao restaurante são, muitas vezes, atividades possíveis de serem feitas a pé, mas que as pessoas se habituaram a fazer de carro. Por isso é tão importante se despir dos preconceitos e experimentar.

“Acreditamos que a experiência tem o poder de influenciar novos hábitos, pois permite revelar um estilo de vida mais prazeroso e com mais qualidade, além de ser libertador”, avalia Andrew.

A cultura de que de carro é melhor e mais fácil está há décadas entranhada na rotina da cidade. O próprio planejamento urbano nos diz isso o tempo todo, já que há lugares – como o Obelisco do Ibirapuera -, onde é impossível chegar de outra forma, a não ser de carro. Sem contar que o automóvel é, ainda, um símbolo de status. “Depois de mais de quatro décadas de incentivo aos automóveis, estamos colhendo as consequências: cidadãos presos no trânsito estressados, sedentários e com menos qualidade de vida, cidades poluídas e pouco inclusivas. Precisamos pressionar a desglamourização do automóvel e mostrar que outras maneiras de se deslocar pelas cidades são possíveis, bem-vindas, saudáveis e muito divertidas, como o caminhar”, avalia Andrew, que defende que os pedestres sejam colocados como prioridade nas políticas de urbanismo. “Seguimos sofrendo com as condições precárias das nossas calçadas, passagens e travessias. Tempos semafóricos longos e ausência de uma rede consolidada para a mobilidade a pé desestimulam as pessoas a optarem pelo transporte a pé. Além disso, falta sinalização voltada exclusivamente para pedestres, que contemple informações de melhores rotas, pontos de interesse, tempo de deslocamento e distância entre um local e outro”, completa.

Infraestrutura e sinalização, certamente, ajudariam as pessoas que andam a pé. Porém, concordo com o que diz a autora Rebecca Solnit no livro A História do Caminhar: “Costumo discordar dos defensores do pedestrianismo e do ciclismo que acreditam que a infraestrutura é tudo, que é só construir e as pessoas virão. Creio que a maioria dos seres humanos nos países industrializados precisa repensar o tempo, o espaço e seus próprios corpos antes de estar preparada para ser tão urbana e pedestre quanto seus antepassados”.

Para a jornalista Ana Holanda, incluir o hábito da caminhada na vida é um jeito de sair dos automatismos de que somos reféns. “Às vezes eu me assusto ao pensar que muita gente enfrenta um vagão de metrô completamente entupido para percorrer apenas uma estação, em um trajeto que tomaria 15 minutos de caminhada. O que as leva a fazer isso? Acho que é o automatismo. Não existe um incentivo para que elas reflitam sobre suas escolhas. E isso fica evidente quando alguém entra na estação Paraíso do metrô para ir até a Brigadeiro, um trecho no qual se gasta apenas 10 minutos andando”, analisa. Ela, que busca os filhos na escola diariamente caminhando, acha que andar é um jeito de olhar a realidade sem filtros, o que traz surpresas agradáveis — como descobrir uma nova loja, uma praça ou observar a arquitetura do bairro -, mas também algumas cenas bem mais áridas e inquietantes. “É duro ver um pai dormindo com a filha, às quatro horas da tarde, em um canteiro. É uma realidade que as pessoas optam por não ver quando sobem o vidro do carro, mesmo que elas não percebam que estão fazendo isso. Uma vez na rua, você é obrigado a encarar a realidade, não tem vidro para subir. Isso, talvez, seja um pouco amedrontador”.

Ainda assim, ela prefere dar de cara com essa realidade cotidianamente. “A gente ganha muita coisa quando anda a pé. Até aquilo que consideramos ruim nos ajuda a sair dessa anestesia da vida. Na rua você tem que encarar, olhar o que está acontecendo e essas coisas te levam a refletir mais. E isso é tão importante hoje em dia”.

Essa calçada da Rua Apucarana é cheia de degraus, o que dificulta a vida de quem anda a pé, em cadeira de rodas ou empurrando um carrinho de bebê.
Essa calçada da Rua Apucarana é cheia de degraus, o que dificulta a vida de quem anda a pé, em cadeira de rodas ou empurrando um carrinho de bebê.

Walkability

A canadense Jane Jacobs (1916-2006), uma urbanista que defendia uma cidade melhor para as pessoas, usava o termo “walkability” para falar sobre a “caminhabilidade” de um local. Trata-se de uma medida quantitativa e qualitativa do quanto um lugar pode ser mais ou menos convidativo para os pedestres. Para avaliar a “caminhabilidade” de um lugar, a Jane’s walk (uma ONG que celebra o legado de Jane Jacobs) criou um checklist com diversos itens que ajudam a formar o nível de “caminhabilidade” do local. Separamos 10 pontos desse checklist.

1. Calçadas espaçosas – Pedestres precisam de espaço para andar com segurança sem serem forçados a ir para a rua por causa do grande volume de pessoas na calçada.

2. Obstáculos nas calçadas – O percurso de pedestres é, muitas vezes, desnecessariamente bloqueado com cercas, barreiras e portões. Eliminar os obstáculos em caminhos pode transformar atalhos populares em locais mais fáceis e seguros de usar.

3. Formalizando atalhos – Atalhos ajudam as pessoas a caminhar diretamente para seus destinos. Ao formalizar estas rotas – adicionando iluminação, calçadas e sinalização – esses caminhos ficam mais seguros e confortáveis.

4. Calçadas quebradas ou desiguais – A calçada deve ser um lugar sem desníveis, para que as pessoas possam caminhar com segurança e conforto.

5. Rotas para pedestres nos estacionamentos – Muitos atropelamentos ocorrem em estacionamentos ao redor de centros comerciais. Esses acidentes poderiam ser evitados com caminhos de pedestres claramente marcados e protegidos.

6. Calçadas bloqueadas – Postes de sinalização e iluminação, caixas elétricas, telefones públicos e outros objetos não devem bloquear calçadas e passarelas.

7. Sinalização de travessia de pedestres – Passagens de pedestres são necessárias onde as pessoas já atravessam a rua. Travessias de meio de quadra sem sinalização são comuns em torno das escolas, shoppings e centros comunitários. Deveriam ser sinalizadas para ficarem mais seguras.

8. Tempo de travessia – Os faróis de pedestre devem durar o suficiente para que as pessoas possam cruzar todas as faixas de tráfego.

9. Espaço entre as faixas de pedestres – Condições seguras para a travessia de rua (como faixas de pedestres) devem estar a curtas distâncias umas das outras.

10. Ruas de uso misto – A mistura de usos em uma via – como lojas, habitação, escolas e serviços – faz com que ela se torne um bom lugar para caminhar, sentar, passear. Espaços públicos bem usados são seguros porque todas as pessoas fornecem a vigilância dos “olhos na rua”.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UM COMENTÁRIO