Descoberta de sabores

Descoberta de sabores

Como introduzir novos alimentos na dieta do bebê, os ingredientes que não podem faltar e os cuidados nessa nova fase

COMPARTILHE

shutterstock_169683689Após seis meses tomando apenas leite, chegou a hora de o bebê conhecer novos sabores e texturas. É o primeiro contato com os alimentos, uma experiência única, incrível e que merece bastante atenção. Afinal, os hábitos alimentares adquiridos nessa fase serão fundamentais para o crescimento e desenvolvimento saudável da criança. Cada etapa deve ser seguida respeitando as orientações médicas, com paciência e bastante persistência, até que o aprendizado se dê por completo, aos três anos de idade.

No entanto, segundo a recomendação da Organização Mundial da Saúde, é fundamental dar exclusividade ao aleitamento no primeiro semestre de vida para evitar complicações futuras. Caso haja problemas com a amamentação, a mãe deve recorrer às fórmulas adequadas à idade. Água e chá também são vetados. “O consumo precoce de alimentos complementares interfere na manutenção do aleitamento materno. Muitas vezes, estes alimentos não suprem as necessidades nutricionais dessa faixa etária, tornando os lactentes mais vulneráveis tanto à desnutrição quanto a deficiências de certos nutrientes”, explica o pediatra Fábio Ancona Lopez, que atua na área de nutrologia.

Após esse período, o leite não suprirá mais sozinho as necessidades nutricionais da criança, em especial de ferro. “O sistema digestório do bebê está mais maduro e preparado para receber e fazer digestão adequada de alimentos diferentes. Essa mudança deve ser lenta e gradual para observação da aceitação alimentar, bem como a formação de paladar, que irá seguir durante toda a vida”, comenta nutricionista Marisa Resende Coutinho, do Hospital São Camilo.

Dos seis aos nove meses, há oferta de frutas na forma de purês, papinhas ou suco, seguindo com cereais, legumes e verduras, na forma de papinha, de uma a duas vezes ao dia. “Todas as frutas são recomendadas no primeiro ano de vida, exceto o morango, devido ao risco de contaminação por agrotóxicos. A quantidade pode variar, mas, em geral, o ideal são porções pequenas, cerca de meia unidade, duas ou três vezes ao dia, como sobremesa ou no intervalo entre as refeições”, orienta a nutricionista Juliana Sayur, professora de Educação Nutricional.

Crianças que receberam uma alimentação saudável na primeira infância tendem a ser adultos saudáveis
Crianças que receberam uma alimentação saudável na primeira infância tendem a ser adultos saudáveis

As papinhas devem ser amassadas com o garfo, e não batidas no liquidificador. Consistências espessas e cremosas estimulam a mastigação, além de auxiliarem também no desenvolvimento da fala. “É normal a rejeição inicial, como cuspir e deixar derramar, por isso não dá para desistir na primeira negativa da criança. Deve-se tentar várias vezes o mesmo alimento, modificando a forma de preparo e de apresentação, mais colorida, por exemplo. Há diversos estudos que indicam que o correto é insistir cerca de 30 vezes”, afirma Juliana.

O próximo passo é a introdução dos alimentos pequenos, preparações amassadas ou frutas raspadas até que evolua para pedaços maiores e seja possível introduzir a comida da família, estimulando a mastigação e deglutição adequadas. “As porções devem respeitar o organismo do bebê, visto que a capacidade gástrica ainda é pequena, de 30 a 40ml/kg. Nesse caso, o melhor é preparar cerca de 100 a 150ml de papa salgada e ofertar de acordo com a satisfação da criança. Primeiramente no horário do almoço e, após completa aceitação, inicia-se a introdução no momento do jantar, substituindo uma mamada”, explica Marisa.

Todos os grupos alimentares são necessários nesta fase, portanto a alimentação deve ser bem variada, com a introdução de alimentos diferentes a cada dia, diversificando no preparo das papinhas salgadas e doces. “Para papas de legumes, utilize sempre um alimento de cada grupo: cereais, tubérculos ou raízes (arroz, macarrão, fubá ou mandioquinha); leguminosas (feijão ou ervilha); carne bovina magra ou de frango; legumes; verduras; gema de ovo bem cozida; peixe, após os nove meses, e clara de ovo, após um ano. Sempre respeitando a introdução dos grupos de acordo com a idade”, ensina Juliana.

Lopez recomenda que os alimentos sejam oferecidos separadamente, para que a criança identifique os vários sabores e, assim, aceite-os. “Não se deve acrescentar açúcar ou leite nas papas na tentativa de melhorar a sua aceitação, pois podem prejudicar a adaptação da criança às modificações de sabor e consistência das dietas”, diz. E alerta: “é importante oferecer água potável, porque os alimentos oferecidos ao lactente apresentam maior sobrecarga de solutos para os rins”.

Ainda assim, o aleitamento materno deve ser mantido até, em média, dois anos de idade. Em demanda livre, mas sempre duas horas antes ou depois da papa salgada, para evitar a interação de nutrientes como cálcio (leite) e ferro (alimentos) e, consequentemente, prejudicar a absorção de cada um. Por ter um alto poder alergênico, o leite de vaca pode ser introduzido somente depois dos dois anos de idade. Antes disso, segundo Lopez, a oferta deve ser apenas de leite materno ou fórmulas próprias para a idade da criança, caso haja algum inconveniente na amamentação.

O período de introdução da alimentação complementar é de elevado risco para a criança, tanto pela oferta de alimentos inadequados, quanto pelo risco de sua contaminação devido ao preparo inadequado. “Tantas mudanças e novidades na rotina do bebê exigem acompanhamento com pediatra e nutricionista, a fim de verificar o sucesso da introdução da alimentação complementar e avaliar o crescimento e desenvolvimento da criança”, explica Marisa.

Alimentos açucarados artificialmente não devem fazer parte da dieta no primeiro ano de vida da criança, uma vez que já são mais aceitos e podem trazer prejuízos futuramente. Após esse período, os doces podem fazer parte do cardápio de forma comedida. “É nessa fase que o sentido do paladar está se desenvolvendo, e com isso suas preferências e hábitos alimentares. Crianças que receberam uma alimentação saudável na primeira infância tendem a ser adultos saudáveis”, comenta Juliana.

No mais, nesse primeiro ano, Juliana recomenda evitar: sal e temperos industrializados, devido à sobrecarga renal; clara de ovo, amendoim e chocolate, pelo risco de causar alergias, além de embutidos no geral e frituras, que contêm alto teor de conservantes, gorduras e sal. Chá preto, chá mate e café reduzem a absorção do ferro, portanto não devem ser oferecidos. O uso de mel também está vetado por oferecer risco de contaminação por Clostridium botulinum.

PREPARANDO A PAPINHA

shutterstock_147485351Devido a presença de conservantes e sódio, as papinhas industrializadas são indicadas somente em casos de emergências. Elas também apresentam pouca variedade de alimentos e sabores que poderá ser ofertada à criança com o preparo de uma sopa caseira. Por isso, a solução é colocar a mão na massa. “Higienize muito bem os alimentos, corte em pedaços pequenos, e cozinhe-os juntos ou separados, para deixá-los bem macios. Amasse com o garfo, mas não bata no liquidificar, nem passe pela peneira”, ensina Juliana.

De preferência, o consumo deve ser imediato ou, no máximo, em 24 horas, se armazenados na geladeira. “A papa pode ser preparada em quantidade maior, permitindo uma praticidade para mãe. Mas não é o ideal, pois muitos minerais e vitaminas acabam se perdendo durante o processo de congelamento e descongelamento. Além disso, ao congelar a papinha, ela não apresentará o mesmo aroma, sabor, textura, que são fatores sensoriais importantes na aceitação alimentar”, alerta Marisa.

ROTINA ALIMENTAR

Segundo o Ministério da Saúde/OPAS e a Sociedade Brasileira de Pediatria, nessa fase inicial, a melhor estratégia é oferecer a alimentação complementar sem rigidez de horários, respeitando sempre a vontade da criança. “A rotina de horários na primeira infância permite a regulação de mecanismos fisiológicos da digestão, permitindo a percepção de sensações de fome e saciedade, imprescindíveis para a nutrição adequada”, explica Marisa.

Os hábitos da família também interferem diretamente no comportamento alimentar infantil. Essa é a fase da repetição, uma criança que observa seus pais se alimentarem de forma adequada e com prazer, tende a seguir o exemplo. “Portanto, as refeições devem ser feitas sem distrações, em ambientes tranquilos, sem televisão, celular ou livros, assim é possível saber o que estamos comendo, mastigar com calma, e o organismo se concentrará somente em se alimentar”, diz Juliana. E alerta: “nunca diga na frente de uma criança que não gosta de determinado alimento, e sim a incentive a experimentar, antes de formar uma opinião”.

Alerta: A maioria das vitaminas não são sintetizadas pelo organismo e necessitam ser ingeridas por meio da alimentação. Nos casos de carência, a vitamina deve ser utilizada sob a forma medicamentosa. Por isso, consulte o pediatra sobre a necessidade de administrar as vitaminas K, D e A, além de ferro, nos primeiros anos de vida.

Cardápio do bebê (nutricionista Juliana Sayur)

cardapiobebe

COMPARTILHE
Artigo anteriorÉ só calor?
Próximo artigoGuia de escolas

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UM COMENTÁRIO