Das cartas ao Facebook

Das cartas ao Facebook

Cinco casais de uma mesma família, de diferentes gerações, falaram sobre os detalhes do primeiro encontro, o pedido de namoro, a relação com a família, liberdade, intimidade e de como os relacionamentos se transformaram nas últimas décadas

COMPARTILHE

Em uma manhã do ano de 1953, João Alves, 85, saiu para trabalhar e cumprimentou a vizinha, que sempre ficava na janela. Horas depois, ele recebeu uma ligação misteriosa, acompanhada por uma declaração de amor. “Quando eu disse que sabia quem era, ela perdeu o rebolado e inventou que ligou em nome de uma amiga que era apaixonada por mim. Perguntou se eu ia ao baile do Corinthians, para nos apresentar”, conta.

A história da amiga foi uma invenção de última hora porque a moça ficou envergonhada ao ser reconhecida. Então, o jeito foi levar uma amiga de verdade para dar veracidade à história. E a escolhida foi Marília Alves, 75, que ganhou o coração de João à primeira vista. “Quando a vi, linda, com um vestido amarelo ouro, fiquei maravilhado. O namoro começou ali mesmo, apesar de só trocarmos algumas palavras”, lembra ele.

Depois desse dia, o casal marcou um encontro no bonde, e Marília foi acompanhada da tia e da irmã. “Ela foi até a padaria, comprou pão, fomos andando até a casa dela e isso foi tudo. Namoramos assim por um tempo, com a minha sogra nos acobertando, mas escondido do sogro. Na verdade, ele sabia, mas se fazia de tolo”, lembra João.

O pedido de namoro oficial aconteceu na sala da casa dela, mas em uma conversa apenas entre João e o sogro. E a condição era que esse namoro tivesse, no máximo, dois anos. “Afinal, quanto mais rápido viesse o casamento, menos chance tínhamos de ter qualquer proximidade”, lembra ele.

Nos dias determinados, o casal namorava no portão das 19h às 21h. Depois, Marília entrava para dormir e ele ficava jogando cartas com os pais dela. Nada de beijos e abraços. Só conversa e sempre com os vizinhos observando. “A única coisa era que ele ia me buscar no trabalho, tomávamos o bonde e andávamos de mãos dadas até chegar à minha casa. Mais do que isso, só depois de casar”, conta Marília.

Juntos há 60 nos, eles garantem que continuam vivendo uma relação de amor e respeito. “O amor só aumentou”, diz ela. “Eu soube valorizar e respeitar o que eu tinha em casa. Tratei-a da melhor forma possível. O amor depende muito da tolerância e da dedicação ao outro”, completa João.

O namoro dos anos 1980

IMG_0981Anos mais tarde, João mudou do posto de genro para o de sogro. “Mas não influenciei no namoro da minha filha, só fiscalizei. Ela teve mais liberdade do que nós, mas sentiu o peso disso e aprendeu a ter responsabilidade para não perder”, comenta o pai.
Marcia Gaido, 58, e Fernando Gaido, 65, se conheceram em um domingo no Parque do Ibirapuera. Na época as mulheres andavam dentro do parque, enquanto os rapazes passavam de carro. “Quando vi aquele homem lindo acenando para mim, de dentro de um Passat com teto solar, me encantei. Ele parou, e nós só conversamos”, conta ela, aos risos.

Em pouco tempo, o relacionamento ficou sério, com jeito de namoro, mas sem pedido oficial ou participação da família. “No começo, ele não entrava na minha casa. Eu tinha que estar de volta até às 23h. Ele me buscava e minha família ficava espiando pela janela para tentar conhecê-lo. Até que um dia meu pai disse: ‘se gosta desse moço, tudo bem, podem namorar, mas leve a sério e faça as coisas direito’”, lembra Marcia.

Os dias de namorar eram terça, quinta, sábado e domingo. Mas Fernando arrumava sempre um jeitinho de visitar na segunda, quarta e sexta. “Quando fez um mês que estávamos juntos, ele entrou para conhecer a minha família, no aniversário da minha mãe, e já ficou claro que seria uma coisa séria, para a vida toda”, comenta ela.

Apesar de terem mais liberdade, os valores permaneceram. “No entanto, sempre dávamos um jeito de fazer uma estripulia, passear, mas sem burlar as regras ou bater de frente. Até um dia antes do meu casamento, respeitei o horário. Não é que a gente se conformava, mas era feliz assim”, conta Marcia.

Balada, msn e ficadas: os novos namoros na família

Mariane e Anderson

Juntos há 13 anos e casados há seis, Mariane Cerqueira, 31, e Anderson Cerqueira, 32, se conheceram em uma balada, onde havia um correio-elegante para estimular a paquera. “Trocamos mensagens até que, uma hora, ele levantou na mesa e pediu para me dar um beijo. E aí a gente ficou”, conta Mariane.

No dia seguinte já rolou o segundo encontro, na faculdade de Mariane. Mas o tempo como “ficantes” durou apenas 15 dias até o pedido de namoro, feito somente para ela, e não para os pais. O casal se via todos os dias, mas tinha algumas regrinhas para seguir. “Meu sogro sempre foi muito rígido. Ela não podia dormir fora de casa e para viajarmos juntos era bem complicado, burocrático. Mas nunca tivemos conflitos, sempre respeitamos as regras e horários. Namoramos quase seis anos e, nesse tempo, viajamos apenas uma vez sozinhos, faltando um ano para o casamento”, comenta Anderson.

Nas viagens em família ou finais de semana na casa de Mariane, o sofá era a cama de Anderson. “Eu brinco que você fornece a filha, não o lugar. Na minha cabeça não cabe acordar e ver alguém saindo do quarto da minha filha. Sei o que eles fazem, acho natural, só não quero presenciar”, intervém Marcia.

A notícia da gravidez inesperada de Mariane caiu com uma bomba na família. Apesar de a data do casamento já estar marcada, o casal ouviu um sermão. “Meu pai deu um soco na mesa e falou que o Anderson teria que assumir e casar, mesmo que o casamento não desse certo. Por uma questão de honra”, conta Mari. E continua: “a reação do meu avô foi surpreendente: pegou um champanhe para brindar”.

Liberdade e ciúme são dois assuntos bem resolvidos entre o casal, que é pai de Lorena, 6, e Théo, 3. O acesso livre às redes sociais e ao telefone um do outro, bem como o fato de saírem sempre juntos, evita desentendimentos. Segundo eles, esse companheirismo fortalece a relação. “Somos unidos e temos muito diálogo. Podemos até estar meio brigados, mas continuamos nos ajudando”, diz Anderson. E continua: “a liberdade que tenho hoje com a minha esposa é bem diferente das gerações anteriores. É uma troca, dividimos as obrigações da casa e das crianças”.

Bárbara e Sidney

IMG_0804Foi em um domingo, há sete anos, ao som de Inimigos do HP, que tudo começou. Depois de quatro meses rolando uma paquera pelo MSN, Sidney Junior, 23, se declarou e, enfim beijou Bárbara Gaido, 22. “Éramos colegas de escola. Demorou tanto que achei que nem fosse acontecer”, conta a jovem.

Depois de um mês “ficando”, teve o pedido oficial de namoro, na sala da casa dela. Bárbara ganhou uma aliança de prata e o casal passou a ter mais convívio, mas os programas não passavam de uma ida ao shopping ou à lanchonete. “No começo, meus pais não deixavam a gente ficar sozinho em casa, no máximo, na garagem. Na frente deles também não podíamos ficar muito próximos, nada de abraços ou selinhos. Esse tipo de coisa nós construímos e conquistamos com o tempo. É uma questão de criação”, conta Bárbara.

No entanto, mesmo com o passar dos anos, algumas restrições continuaram. “Hoje em dia, a gente pode sair sem dar tanta satisfação de horário. Agora, se eu durmo na casa dela é no sofá, e o meu sogro fecha bem o portãozinho para garantir (risos). Mas ela ainda não pode dormir lá em casa. E faz apenas um ano que nós podemos viajar sozinhos. Alguns comportamentos ainda são bem tradicionais, diferentes dos nossos amigos”, conta Sidney.
Para eles, essa liberdade controlada tem os prós e contras. “Às vezes, sinto falta de algumas coisas, mas tenho muito orgulho da nossa relação”, comenta ela. E o namorado reforça: “Acho estranho não podermos dormir juntos, pois nosso namoro já está mais do que consolidado. No entanto, hoje, traição e falta de compromisso são comuns e, com a gente, é diferente. Talvez esse respeito tenha ajudado a dar certo”.

Entre os assuntos que geram as famosas discussões de relação estão o ciúme, a falta de romantismo e o uso das redes sociais. Bárbara também cobra de Sidney uma data para o casamento.

“Queria uma definição, seja quando for, para sentir que existe esse desejo real da parte dele”, diz.

O namorado defende seu lado. “Existe uma pressão grande dela e família, mas não me apego a isso. Quero que o nosso casamento seja para a vida toda e para isso precisamos estar formados, ter estabilidade profissional e financeira, uma casa”.

Isabela e Renato

IMG_0907Apesar da idade próxima à irmã, a história de Isabela Curatolo, 24, com o marido, Renato Curatolo, 27, foi bem diferente. O casal se conheceu na faculdade. No entanto, ambos eram comprometidos. “Quando descobri que ele tinha terminado o namoro, imediatamente fiz o mesmo. Aí começamos a sair. Fomos ‘ficando’ por um ano”, conta Isabela.

Nesse período, não havia compromisso. “Acabei conhecendo outra pessoa e nos afastamos. Mas senti muita falta. Vi que se não tomasse uma atitude naquela hora, poderia perdê-la. E a pedi em namoro”, lembra Renato.

Isabela sempre lidou bem com as regras da família sobre dormirem ou viajarem juntos. “Minha irmã sempre insistiu muito mais do que eu (risos). A falta de privacidade nunca nos afetou e não foi decisiva para nos casarmos logo. De certa forma, até concordava, porque depois de casar muda tudo. Muitas coisas estamos fazendo pela primeira vez agora, que temos a nossa casa. É muito bom”, conta ela. Para Renato foi diferente. “Apesar de achar bonita essa cultura antiga, quando foi conosco, me incomodei um pouco, mas aceitei e deu tudo certo”.

Pela forma como o relacionamento começou, a confiança demorou mais a chegar. “Hoje melhorei bastante, mas gosto sempre de saber o que ele está fazendo e a que horas entrou no Whatsapp”, diz Isabela.

A intimidade também precisou ser conquistada. “Foi tranquilo esperar o tempo certo, pois sabia quais eram os valores da Isa. Acho que foi até esse lado mais conservador que me chamou a atenção. Ela era diferente”, encanta-se Renato.

Como mandam as tradições, Isabela e Renato noivaram e subiram ao altar depois de dois anos de namoro. Há cinco meses sob o mesmo teto, o relacionamento segue muito bem. O romantismo permanece, mas a exposição no Facebook diminuiu. Segundo ambos, ‘felicidade demais exposta nem sempre atrai coisas boas’.
O contraste entre os relacionamentos de Mariane, Isabela e Bárbara e os dos pais e avós mostra que as concepções de amor de Fernando Pessoa e Shakespeare continuam valendo, mas a realidade é bem diferente. O namoro mudou de nome, método, causa e efeito. Afinal, hoje em dia, é quase impossível pensar em uma relação amorosa sem sexo, liberdade, ciúmes ou discussão por falta de tempo.

Agora, resta aguardar quais serão as mudanças que os namoros da família Alves terão nas próximas gerações, com Lorena e Theo. “Seja como for, vamos perpetuar o respeito”, garante João. Está certo, pois há quem garanta: “não é o amor que sustenta o relacionamento, é o modo de se relacionar que sustenta o amor!”.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UM COMENTÁRIO