“Celularite” aguda

“Celularite” aguda

Essa epidemia é pior do que a Dengue

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Lindo domingo de sol. Para fugir da rotina, resolvemos almoçar na praça de alimentação do Shopping Anália Franco. Como sempre, gente saindo pelo ladrão. Enquanto minha esposa e minha filha providenciavam os pratos, fui colocado de cão de guarda de uma das raras mesas vazias. Enquanto aguardava, passava a observar o movimento ao redor. Uma das mesas, em particular, atraía minha curiosidade. Quatro senhoras, japonesas, de várias idades, pratos à frente, celulares nas mãos. Entre uma garfada e outra, teclavam nervosa e ininterruptamente seus aparelhos. Não conversavam entre si, não se miravam, simplesmente se ignoravam. Tal fato me preocupou. Estamos misturando espaguetes com chips e correndo o risco de sofrer uma indigestão eletrônica ou um derrame eletrônico cerebral.

shutterstock_230273494Nas ruas, o problema não é menor. Temos que tomar cuidado ao dirigir o carro, pois as pessoas atravessam a faixa de pedestres falando ao celular, farol verde ou vermelho um detalhe ignorado. Indivíduos gesticulam, falam sozinhos, dão encontrões e tropeçam nos buracos. Ah! Uma das mãos sobre a orelha, então não são malucos, falam ao celular. Os motoristas, por sua vez, preferem arcar com pesadas multas a deixar o bendito aparelho de lado. Não há dúvidas, estamos em meio a uma tremenda epidemia, a meu ver, pior que a da dengue. Que nome daremos a essa maldita praga? “Celularite”?

Hoje, tudo é medido em kbytes, megabytes e gigabytes. As amizades e relacionamentos são quantificados dessa forma. Namoros e traições eletrônicas, coisa corriqueira. Amizades iniciadas e perdidas eletronicamente. Dias atrás, ouvi uma conversa simplesmente estapafúrdia, um cara dizia para outro: “Fulano me enviava mensagens pesadas, muitos megabytes. Não suporto esses “megabaitianos” chatos. Simplesmente o deletei. Vou estipular um número máximo de megabytes para minhas amizades.”

Celulares, tablets, smartfones e notebooks por todos os cantos. Os garotos não deixam por menos, manipulam games o dia inteiro. Para eles o mundo real é o virtual e vice-versa. Faço aqui uma ressalva: não sei se a palavra “celularite”, inventada acima, é doença ou vício. Se for vício, urge criar a A.C.A. – Associação dos “Celulatoides” Anônimos – tendo em vista ministrar-lhes um adequado tratamento. Diante dessa situação, ocorre-me formular uma pergunta: será que Tomaz Edison inventaria a bendita lâmpada incandescente se soubesse que sua invenção redundaria nessa paranoia eletrônica toda?

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da União Brasileira de Escritores. peabarca@yahoo.com.br

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