As segundas núpcias dos idosos

As segundas núpcias dos idosos

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Órfão de pais, Teodorico fora criado por seus avós maternos. Dificuldades econômicas o impediram de ir além do curso primário. Ainda menino, empregou-se num empório. Trabalhou feito escravo, chegou a gerente. Tornou-se acionista da empresa após a morte de um dos donos. Agora, sexagenário, empreenderia agradáveis viagens com a esposa. De repente, o inesperado: terrível doença lhe levou a companheira. Só não abandonou os negócios pelo apoio que lhe deram filhos e noras.

WebApós meses de solidão, ele e um velho amigo foram a um baile da terceira idade. Inibido e esquecido num canto do salão, pôs-se a bebericar uma cerveja e a observar. Os ternos domingueiros dos cavalheiros exalavam forte cheiro de naftalina. Imaginou os inauditos esforços feitos pelas idosas bailarinas para embutir nos vestidos apertados banhas e pelancas. Uma dama se aproximou:

— Então, seu Tristonho, vai dançar ou ficar aí curtindo essa dor de cotovelo.

Teodorico partiu para o embalo de melodioso bolero. Conversaram muito, trocaram confidências, marcaram novos encontros. Mafalda era viúva e mãe de dois filhos solteiros.

Impulsividade e empolgação levaram-no a um segundo casamento.

Pouco tempo depois, entendeu ser aquela animação da mulher publicidade enganosa. Em vez de alegre e animada, era rabugenta e cheia de manias. Toda noite lhe enchia os ouvidos com queixas sobre doenças, algumas reais, outras imaginárias: gastrite, gota, enxaqueca, bronquite… Completava a lista uma constante mania de perseguição: suas amigas colocavam olho gordo em sua vida. Diferente de sua primeira esposa, recatada e sensível, Mafalda tinha a sutileza de um hipopótamo.

Certa tarde, ao chegar do trabalho, o homem levou tremendo susto. De mala e cuia, os enteados se transladaram para sua casa. Justificativa da mulher: os moços foram despejados da pensão por falta de pagamento. Tão logo encontrassem trabalho se mudariam. Foi informado, dias depois, que os indivíduos jamais trabalharam, viviam à custa da pensão deixada pelo pai.

Triplicaram-se as despesas, pois os mandriões comiam como trogloditas. Teodorico se tornou um estranho em sua própria moradia. Voltava tarde do trabalho, pois não aguentava os modos da gang. Um festival de arrotos encerrava o jantar todas as noites. Alguém lhes dissera ser um modo de agradecer a comida recebida. Inúteis seus apelos para não mais agradecerem.

Veio a separação. Teodorico não conseguiu expulsar o indesejado trio de sua casa. Foi morar sozinho num flat. O magistrado, responsável pelo processo, deu ganho de causa à “pobre sexagenária e seus infelizes filhos desempregados”.

Pedro Abarca é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da União Brasileira de Escritores. peabarca@yahoo.com.br

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