Entrevista: Irene Ravache 0 217

Irene Ravache fala das contradições da vilã Sabine de “Pega Pega”

A elegância direta de Irene Ravache impressiona. Intérprete da granfina Sabine de “Pega Pega”, Irene consegue passear pelos mais diversos assuntos, como a corrupção na política nacional, a oferta de bons papéis para atrizes maduras e a diferença salarial entre homens e mulheres no entretenimento, de forma racional e sem perder o tom. Totalmente mergulhada em sua personagem na atual novela global das sete, as vilanias de Sabine, no entanto, são o foco da atriz. “Enxergo essa novela como um microcosmo do Brasil. É muito bom falar de ética em um momento como esse. A Sabine é uma figura prepotente, que odeia o próprio País, e tenta corromper as pessoas em benefício próprio. Um tipo muito comum de se encontrar pelas ruas, infelizmente”, destaca.

Carioca que vive na ponte aérea entre o Rio e São Paulo, Irene é do tipo que nunca fez outra coisa a não ser atuar. Com passagens por diversas companhias teatrais e emissoras de tevê, como Tupi, SBT, Record e Globo, foi nesta última que ela fez sua estreia no vídeo, em “Paixão de Outono”, de 1965. Cinco décadas depois, a atriz se orgulha de manter o vínculo artístico com a emissora em que fez trabalhos célebres como “Champagne”, “Sassaricando”, “Passione” e a recente “Além do Tempo”. “Tudo mudou tanto ao longo desses anos. A única coisa que fica intacta é a emoção. É o que eu busco a cada novo trabalho. Sigo atenta e forte ao que aparecer”, ressalta a atriz de 72 anos.

Nos anos 1980 você participou de clássicos das 19h como “Elas Por Elas”, “Ti-Ti-Ti” e “Guerra dos Sexos”. Esse histórico ajudou na hora de você acertar sua participação em “Pega Pega”?

Com certeza! Vivi momentos e personagens maravilhosas sob o texto de autores como Cassiano (Gabus Mendes) e Silvio (de Abreu). Impossível não lembrar dessa época quando chega um convite para a mesma faixa. Acho que “Pega Pega” bebe na mesma fonte desses clássicos. Os tempos são outros, mas a novela das sete ainda continua tendo a função de abordar temas sérios do cotidiano com uma embalagem mais leve e cômica.

Sob o ponto de vista da intérprete, quais as principais diferenças entre as novelas das sete feitas nos anos 1980 e as de agora?

Hoje as novelas precisam ser realistas ao extremo. Se não for assim, o público se afasta. Isso tira um pouco da criatividade dos autores. Mas, para os atores, é um efeito bem interessante. Acabou a ideia de que a vilã é profundamente má e a mocinha é uma mulher perfeita. As personagens têm múltiplas facetas e isso deixa o trabalho mais rico. Sabine é uma mulher ardilosa, mas que, às vezes, demonstra ter um grande coração, por exemplo.

Sabine é uma homenagem da autora Claudia Souto a Odete Roitman, vilã que odiava o Brasil vivida pela Beatriz Segall em “Vale Tudo”. Três décadas depois, você acha que o País chegou ao ponto de ser odiado novamente?

O País vive uma situação muito complicada. O mundo inteiro anda complexo. Mas meu foco é a nossa realidade e ela não está fácil. A corrupção sempre existiu e agora pelo menos a gente pode cobrar e pressionar mais. Acho que Sabine surge como uma Odete mais consciente de que é preciso se adaptar a cada situação. Dependendo do momento, Sabine vai usando suas máscaras. A única coisa de real nela é o amor pelo filho adotivo.

Depois de muitos tipos cômicos, a Sabine vem na sequência de seu papel duplo e denso em “Além do Tempo”. Trabalhos dramáticos são mais respeitados na tevê?

Adoro fazer comédias. Mas, é verdade, o prestígio vem mesmo das personagens mais dramáticas. Os principais prêmios que ganhei na carreira foram com elas. Porém, gosto da variedade e sempre fiz na tevê apenas o que eu quis. Fiquei anos sem contrato justamente para garantir essa autonomia. Nunca fui do tipo que se deixa enquadrar e acho isso muito saudável.

Trabalho sempre a partir de bons convites. “Além do Tempo” foi um exercício maravilhoso no sentido de desenvolver personagens em dois folhetins complementares. “Pega Pega” é uma experiência mais contemporânea. Mesmo no drama, me sinto fazendo coisas diferentes.

Aos 72 anos, você protagoniza cenas sensuais ao lado de atores como Marcelo Serrado, Márcio Kieling e Marcos Caruso. O que acha de estar no posto de “pegadora”?

É libertador. Sabine é uma mulher segura de si, muito independente e bem livre. É ótimo chegar ao ponto em que estou da minha carreira fazendo uma personagem desse tipo, que rompe com o que já está estabelecido. É um assunto que ainda mexe com as pessoas. Se fosse um ator com mais de 70 anos se envolvendo com meninas de 20, todos iriam achar muito normal. É bom que a novela aborde essas outras configurações e o poder de atração de mulheres mais velhas.

A televisão é um veículo diretamente ligado à imagem. Em algum momento envelhecer a deixou receosa de conseguir bons papéis?

Não. Como nunca dependi da televisão, esse medo não me ocorreu. Vi muitas colegas reclamando da falta de bons papéis, mas as novelas cresceram e a gente viu aparecer não apenas papéis de destaque para atrizes maduras, como grandes protagonistas e antagonistas. No fim, o que conta mesmo é a emoção e o talento.

De qualquer lugar 

Irene Ravache nunca se limitou a ser atriz de uma só emissora. Por muitos anos sem contrato de prazo longo por opção, ela teve a oportunidade de passear pelos mais diversos estúdios. Só nos anos 1960, esteve em produções na Globo, Excelsior e Tupi, onde participou da ousada “Beto Rockfeller”, de 1968. “Foi um tempo de descobertas. A Tupi era a maior emissora da época e começava a experimentar mais no conteúdo de sua teledramaturgia. Havia uma disputa por elenco, mas as portas estavam sempre abertas para todos”, relembra a atriz, que passou boa parte dos anos 1970 trabalhando para a emissora. Mas, com a sua derrocada, assinou com a Band para fazer “Cara a Cara”, de 1979.

Depois de um tempo dedicada exclusivamente ao teatro, Irene voltou à Globo com status de protagonista em “Sol de Verão”, de 1982, e emendou clássicos como “Elas Por Elas”, “Ti-Ti-Ti”, “Guerra dos Sexos” e “Sassaricando”. Rejeitou um contrato de longa duração com a Globo e, na década seguinte, voltou a fazer trabalhos esporádicos no SBT, onde se destacou com o “remake” de “Éramos Seis”, e Record, na fraca “Marcas da Paixão”. A volta definitiva à Globo seria em 2005. Convidada por Silvio de Abreu, ela viveu um dos personagens principais no sucesso “Belíssima”. “Estou há 12 anos na Globo e muito feliz. A emissora respeita o espaço que preciso para fazer outras coisas e os convites que surgem têm sido extremamente instigantes”, valoriza.

Palcos futuros 

Irene Ravache já começa a planejar seus próximos passos profissionais. Comprometida com “Pega Pega” até janeiro de 2018, a atriz está dividida entre duas peças para estrear ainda no primeiro semestre do ano que vem. “Estou planejando uma peça para atuar ao lado do meu neto, Cadu (Libonati). É um sonho que a gente já acalenta há alguns anos e o texto está em fase de criação”, revela.

A outra possibilidade da atriz é responder ao chamado da escritora Thalita Rebouças, que ofereceu um texto inédito que deixou Irene intrigada. “É uma peça muito diferente. Com a ‘pegada’ forte e criativa da Thalita e que mexeu comigo. Quero muito fazer e será algo bem surpreendente. Só ainda não sei a ordem dos projetos”, explica.

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