Casinhas de vila 0 2084

Na Mooca e no Tatuapé, viver em vilas ainda é uma realidade para muitas pessoas que prezam a segurança sem abrir mão do conforto de uma casa

De sua origem fabril, com chácaras e sítios em alguns pontos, a Mooca se transformou em um dos bairros mais disputados da Zona Leste, tanto para moradia como para a chegada de estabelecimentos comerciais, ofertas de serviços, e uma profusão de prédios. Tudo isso lhe valeu o apelido de Portal da Zona Leste, e faz desse, um dos endereços mais procurados na cidade para quem busca unir uma certa tranquilidade com a praticidade da proximidade com o centro da capital e a facilidade em se locomover para outros bairros vizinhos, como o Tatuapé e o Belenzinho.

Entre tantas características ditas ‘aprazíveis’, uma delas se destaca em especial, que é o fato de ainda existir pessoas que preferem morar em casas, e mais, em vilas de casas, o que significa dizer dividir vários espaços em comum, o que não é nada fácil quando se trata de vizinhança com toda a incomodidade que se possa imaginar desse convívio. Mas não é bem assim que pensam pessoas como Neusa Iorio, 74 anos, 50 dos quais vividos em uma vila da Rua Oratório, local que para ela é o seu refúgio. “Daqui não saio de jeito nenhum. Viemos para cá, eu, meu pai, minha mãe, meu irmão e minha irmã há 50 anos e, apesar de ser um sobrado pequeno, sempre nos ajeitamos e fomos muito felizes”, comenta alegremente. Para ela, são várias coisas boas que destaca em morar numa casinha de vila: segurança, o ambiente familiar, a relação com os vizinhos que, para pessoas que vivem sozinhas como ela, faz com que nunca se sinta só. “Guardo boas lembranças de toda uma vida e sinto, claro, saudades dos que já se foram”, diz. Mas nada de tristeza, pois para ela o que importa é ser feliz.

Outra moradora da mesma vila, é Luciana Tonelli, 37, que vive com a mãe, o marido, e dois filhos pequenos, nascidos ali, Gabriel de 9 anos e Giovanna, que logo mais completa dois aninhos. Em outra casa, quase em frente à de Luciana, moram os sobrinhos com a mãe. “Minha família é toda do Alto da Mooca, e minha mãe (Gersey Rinhel Tonelli, de 70 anos), está aqui há 13 anos, nós também”, diz Luciana. Por conta disso, a casa está sempre cheia, já que é a ‘casa da mãe’, onde os filhos, netos e parentes costumam ir, sempre que dá um tempinho. “Gostamos muito de morar na vila, porque é tranquilo, dá um sentimento de segurança, ainda mais nós, que temos crianças pequenas. E elas podem se divertir um pouco mais correndo na rua, já que aqui é fechado pelo portão”, expõe Luciana. Seu marido, Sergio Ricardo Ferreira Costa, 41, reproduz o mesmo sentimento. “Não me vejo morando em outro lugar. Sou carioca de coração e paulista por convicção. Amo a Mooca, gosto demais de morar aqui com a minha família, pelo clima amistoso e o ambiente familiar”, diz.

Indo para um bairro vizinho, quase irmão, o Tatuapé, vamos encontrar histórias semelhantes, de quem faz da morada o seu refúgio, lugares onde sempre existe uma chegada para cada partida. Para onde se vai para recarregar as baterias, matar a fome e a sede, descansar, enfim. Assim é e são as casas brasileiras.

Wanda mora há 50 anos na mesma vila e adora ter os amigos e os vizinhos sempre por perto

Uma dessas casas é a de Mariluce Peixoto Rossi que, junto a seu esposo Paulo, vive numa vilinha encrustada entre duas “serras”: a Serra de Bragança e a de Botucatu. Ela veio de Perdizes direto para a Zona Leste, ele nasceu ali perto, no Tatuapé mesmo, na Rua Itapura, foi morar na Mooca, próximo à Ventisilva, na Tobias Barreto, e voltou para o Tatuapé. “Aqui é muito sossegado, temos tudo perto de casa, tanto que dá para fazer as coisas a pé, o que é um privilégio numa época em que o carro domina tudo”, fala Mariluce. “Temos até uma capelinha!”, comenta. E fala com uma pontinha de saudade da vizinha falecida, dona Lourdes, que cuidava com esmero da tal capelinha que, recentemente, passou por uma bela reforma, capitaneada por outro vizinho que é arquiteto. “Vivemos aqui, eu, meu marido e dois filhos. A mais velha veio para cá ainda pequena, hoje está casada, e o mais novo tem 14 anos. Seus irmãos ainda puderam usufruir melhor das brincadeiras de rua, com os amigos vizinhos na mesma idade. Hoje é um pouco mais difícil, pois os adolescentes ficam muito no computador”, explica. Mesmo assim, Mariluce se empolga ao pensar que a comodidade em viver na vila proporciona facilidades difíceis de encontrar em tempos corridos como os de hoje em dia.

Em outra vila do Tatuapé, dona Wanda Moretti, do alto dos seus 83 anos bem vividos, 50 dos quais na vila, em uma casinha ensolarada, como gosta de ressaltar, adora cultivar as amizades e é, como se diz em gíria mais moderna, “bola pra frente”.

Viúva há sete anos, não fica pelos cantos lamentando, tem filho e sobrinhos por perto, é avó de oito netos, com o segundo bisneto chegando, e sabe que a vida é feita de momentos, bons e ruins, por certo, mas que uma coisa é certa: “é feita para celebrar!”

Quando veio do Brás, onde morava num pequeno prédio na Rua Joly e dava para ouvir o barulho constante do bonde que passava por lá, dona Wanda lembra que dizia ao marido que o silêncio daquela vila “chegava a doer”, mas para ela, mesmo com a chegada de novos vizinhos, a morte de alguns que ficaram apenas na lembrança, e o aumento de carros transitando pelo entra e sai da vila, para ela tudo é normal. “Faz parte da vida, sabe? Tem situações ruins, mas também tem coisas boas na vida da gente. Sempre tive muitas amizades e pessoas por perto que podiam me ajudar quando precisava. Não me sinto só, gosto muito de conversar e de receber visitas para tomar um chá e colocar a conversa em dia”, diz de forma tão singela e sincera que dá para concluir mais uma vez que viver é uma arte, a arte de saber viver.

Mariluce Peixoto com o filho em uma vila do Tatuapé, onde há até uma capelinha para as orações dos moradores

Pequenos tesouros da Mooca

É assim que Milton Rodrigues, arquiteto, morador da região e autor do livro Casas Paulistanas, começa esse verdadeiro tratado sobre como é morar na Mooca. Basta uma janela e uma porta de entrada para se vislumbrar um pouco desse cotidiano, ainda um tanto interiorano, verdadeiras “testemunhas” de seu tempo. O estilo das casas é uma mescla entre o artístico e o senso prático dos moradores que sempre viram em suas moradias um lugar para se morar e abrigar a família, mas por que não enfeitá-la com algum detalhe à vista, fosse com um painel de azulejos ou mesmo pequenas reproduções e formas geométricas, que passariam a traduzir as composições fartamente encontradas na arquitetura dos bairros mais ricos.

A família da Luciana Tonelli mora na mesma vila, o que é motivo de reunião constante entre todo mundo
Vila cenográfica que reproduz uma vila da Mooca na novela Guerra dos Sexos, da TV Globo

E agora vemos a Mooca na telinha da Globo com o remake de Guerra dos Sexos, sucesso de 1983. A Villa Mooca é um bairro do núcleo mais pobre da novela, onde vive o personagem de Reynaldo Gianecchini e Drica Moraes, entre outros. Lá, a Mooca é cenográfica, e reproduz aquele jeito das casas coladas umas às outras, os sobrados geminados, de forma circular, como numa grande vila. E lá vem os sotaques estranhos das novelas. Mas vale, ainda assim, ouvir o jeito como o personagem de Gianecchini e a mamma vivida por Drica, falam o nosso sotaque oficial que está em vias de ser tombado pelo patrimônio histórico como um bem imaterial, ou seja, que não se pode tocar ou ver, mas que está lá, falado ainda pela grande maioria de seus moradores, dentre os mais antigos, e que “contamina” os ares da Mooca com sua sonoridade.

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