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Nos 50 anos de Love me do, saiba como os Beatles revolucionaram o mundo e conheça o lado beatlemaníaco da Mooca, Tatuapé e redondezas

O mundo nunca mais foi o mesmo depois que eles surgiram com seus terninhos de quatro botões, cabelos penteados para a frente, botas de salto carrapeta e um movimento de cabeça de enlouquecer até os mais durões, que dirá as mocinhas? Se no balanço das horas, Bill Halley e seus Cometas embalaram a turminha da brilhantina, foi na swinging London que despontava com sua essência primitiva, de uma cinzenta e pesada senhora pós-industrial, permeada por contos, fábulas e lendas que vão de Rei Arthur e Merlin, a Jack – O Estripador e 007, que os Beatles encontraram o seu verdadeiro palco. E foi há 50 anos, a serem comemorados no começo de outubro, que eles lançaram seu primeiro single: a inesquecível Love me do.

Na época ainda dos vinis, lançar um trabalho em disco não era para qualquer um, ainda mais quando se estava no início dos anos 60 e o pop ainda não havia contagiado o rock n´ roll vigente. Some-se a esses itens o simples detalhe de ser uma banda desconhecida que fazia composições próprias. E quem ia pagar pra ver e ouvir, afinal?

Mas os Beatles superaram todas as dificuldades e conseguiram enternecer e eternizar as plateias que, aos delírios, ouvia o apelo de canções simples do início que diziam simplesmente “Por favor, me ame. Você sabe que te amo e se precisar de mim, estou aqui porque te amo”. Fica a tarefa de tentar explicar por que os Beatles são eternos através de algumas pessoas que mudaram o rumo de suas vidas a partir desse amor pelos Beatles.

Uma delas é Marco Antonio Malagolli, do fã-clube Revolution, que chegou perto de John, Paul, George e Ringo. “Comecei minha carreira como auditor, mas sempre fui estimulado pelo meu pai a gostar da boa música. E, desde cedo, eu já tocava instrumentos e sabia que queria estar ligado à música”, comenta. Hoje, o ex-auditor vive de Beatles em todos os sentidos, realiza palestras e eventos relacionados aos garotos de Liverpool, e é este o destino para o qual organiza frequentemente roteiros, a terra natal dos Beatles, em locais considerados como verdadeiros santuários dos fãs, entre eles a famosa travessia de Abbey Road, no caminho para os estúdios que foram palco de momentos significativos da carreira dos Beatles.

Os Morcegos do bem

Nos anos 1960, toda a efervescência da juventude pode ser notada através das artes, da moda e da música. Garotos de 11, 12, 14 anos, começavam a formar suas bandas de garagem a partir dos ídolos que despontavam no mundo todo. Aqui no Brasil, influenciados pela onda inglesa protagonizada pelos Beatles, diversos grupos pipocaram por toda a parte, e quando falamos de São Paulo, Tatuapé, Mooca e adjacências, vamos encontrar uma série deles.

Quem lembra bem dessa época é João Avenoso, morador do Tatuapé que, em 1962, tinha lá seus 10, 11 anos: “começava ali a ouvir os sons dos rocks, baladas, twistes, que tocavam na “Parada de Sucessos” do rádio. Havia uma nova onda vinda da Europa, mais precisamente Liverpool, onde as bandas começaram a surgir e onde estava nascendo o primeiro sucesso, Love me do. Há exatos 50 anos!”

João Avenoso teve um conjunto nos anos 1960 que tocava, principalmente, Beatles

Dá para imaginar a repercussão que tal movimento, que antes era tão demorado para chegar ao Brasil, lembra bem Avenoso, acabava imprimindo aos garotos daquela época: “Começava-se a ouvir a partir de então músicas dos garotos ingleses que tomavam conta dos bailinhos. Na escola, passávamos o intervalo conversando sobre as músicas de sucesso e muitos sabiam as letras”, relembra. Avenoso foi um dos tantos jovens a formarem um conjunto, só para ter a chance de imitar seus ídolos: “Acho que São Paulo nessa época tinha um conjunto por rua, no mínimo”, lembra.

Sobre os Beatles, Avenoso compõe um capítulo à parte: “Ouvia-se Love me do, Please Please me, Twist and Shout, e todas as outras a toda hora. Os conjuntos queriam tocar músicas dos Beatles, pois nos bailinhos que se espalhavam pelo bairro todos queriam aquelas músicas. No Tatuapé, tínhamos os bailes do Sampaio Moreira, do Rio Verde, Vasquinho, Vila Brasil, Bandeirantes, Fluminense etc., além dos bailes de festas juninas nas escolas, como o Jasy e outras mais. Era impossível não participar de tudo aquilo”, exclama.

Sobre o conjunto que teve na época, Avenoso fala divertidamente: “meu conjunto era Os Morcegos, um pouco estranho, já que existiam tantos outros conjuntos que também tinham que ter nomes diferentes como Os Beatos, Os Princes, Dimensão 5, e uma infinidade deles”, diz. “Passávamos horas ouvindo um LP para conseguir ‘tirar’ uma música”, completa.

E é com orgulho aparente que Avenoso finaliza esse bate papo: “Foram anos mágicos. Como o próprio Paul McCartney disse uma vez, atravessávamos a cidade para aprender um novo acorde ou uma nova música que alguém estava tocando.

Ficávamos finais de semana inteiros trancados numa sala ou no quarto dos fundos das casas, ensaiando sem parar. Nesses 50 anos de lançamento de Love me do, os Beatles já influenciaram várias gerações. E vão continuar influenciando, com certeza!”

Do pôr do sol da Praça Visconde de Souza Fontes para os bailinhos

Outro grupo que merece destaque, pois tem sua origem nos bancos de escola do Firmino de Proença, na Mooca, em 1964, é o Sun 7, que até hoje se reúne para tocar Beatles e que aproveitaram bem essa onda dos bailinhos. Cláudio Luiz Penteado está desde a formação original e deixa claro a influência que os Beatles sempre exerceram: “Até hoje, quando tocamos suas músicas, é como se o tempo não tivesse passado”.

A banda Sun 7 surgiu em 1964, na Mooca, e se reúne até hoje para tocar

Sucesso entre as bandas de época da Zona Leste, o Sun 7 continua se reunindo e carrega uma legião de fãs da boa música, de Beatles e de Sun 7, claro, pois quem não gosta de ouvir a trilha sonora da sua vida, embalada por esses alegres jovens cinquentões, sessentões? Integram a banda, além de Penteado, na formação atual: Cida Duarte, Zé Américo, Flávio Mesquita, Vitché, Nilton Schnaidman e Gi Basile.

John de pai para filho

O referencial já basta como apresentação: dez anos integrando a maior banda cover de Beatles do Brasil, a Beatles 4Ever, nascida na Mooca em 1976, pelas mãos de Marcus Rampazzo, guitarrista aclamado por George Harrison, e Celso Anieri (o Cebola), na formação original. “Foi no período de 1998 a 2008, como John Lennon”. É assim que Nelson Artuzo Filho se apresenta. Quando questionado se os Beatles influenciaram a sua vida, a resposta vem rápida: “tenho 57 anos e daí já dá para perceber que ouvíamos tudo deles e queríamos tocar como eles”.

Nelson Artuzo passou a paixão pelos Beatles para seu filho, Thiago

A paixão pelo quarteto e pela música, Nelson transferiu para o filho Thiago, que chegou a tocar no Cavern Club, o mesmo local das primeiras performances dos Beatles quando voltaram de Hamburgo, na Alemanha, para Liverpool.

Mooca é palco para sessão musical Beatles

Johnny Voci integra a Jam Beatles in Sampa, que se reúne para tocar Beatles despretensiosamente

A desculpa é uma só: reunir-se para tocar, cantar e curtir Beatles. Assim Johnny Voci explica o surgimento da Jam Beatles In Sampa, em 1999, dentro da extinta loja Blackbird, de Vladimir Dantas (hoje morando em Liverpool), na Galeria Trianon, na Paulista. Na Mooca, o local escolhido é a Praça Visconde de Souza Fontes e, eventualmente, área do Centro Educacional da Mooca. É quando vários beatlemaníacos trazem seus songbooks, seus banquinhos, um violão para fazerem um som acústico.

“Ninguém é músico profissional, a ideia é nos reunirmos e nos divertirmos ao som do que mais amamos, Beatles”, diz Johnny, cujo apelido faz menção clara ao beatle predileto, John Lennon.

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