Vida de sindico 0 1070

Síndicos contam como usam o jogo de cintura e o pulso firme para lidar com os problemas dos prédios que administram

Quem mora em prédio sabe o lado bom e o lado ruim de viver em condomínio, principalmente quando o assunto é vizinho – a encrenca é quase certa. E neste fogo cruzado está a figura do síndico, muitas vezes mal visto pelos moradores, que o enxergam como aquela pessoa sempre de mau humor, disposta a reclamar ou a cobrar algo. Mas a verdade é que poucos gostariam de estar na pele dele, resolvendo os problemas comuns de um condomínio – alguns com mais moradores do que algumas pequenas cidades.

Teoricamente, o síndico representa o condomínio e não direitos individuais, ou seja, ele não deve se envolver em questões de vizinhança que não interfiram no interesse de todos. Mas há os que acreditem que é válido ir além da sua função. Para Carlos Tadheo, 59, que atua em um condomínio com sete torres e 302 unidades, é impossível não intervir em atritos entre moradores, funcionários, etc. “Minha responsabilidade se resume ao aspecto físico e à infraestrutura do condomínio, mas vou além. Por exemplo, se alguém for constrangido e eu for omisso, estarei ferindo a minha linha de pensamento de fazer com que as pessoas se sintam bem, tenham qualidade de vida” diz.

Segundo Carlos, há pessoas que, ao comprar um apartamento, acreditam que as outras unidades são apenas o quintal de sua casa. “Na condição de síndico, não posso ir contra esse pensamento, mas posso fazer com que elas participem do dia a dia do condomínio e aprendam a respeitar seus vizinhos”, comenta. Para ele, seu maior desafio é trabalhar dentro das limitações e condições que a função impõe.

Carlos aponta a prestação de contas como um dos aspectos mais importantes de sua gestão. “Mantenho os condôminos informados sobre tudo o que acontece aqui. Apesar de ter outra profissão, sou dirigente político, encaro minha função de síndico com muito profissionalismo e pontualidade. Tudo isso fez com que conquistasse a confiança da maioria dos moradores e, hoje, tenho credibilidade e autonomia para tomar algumas atitudes que podem até parecer antipáticas, mas são fundamentais”, diz. “Para tomar minhas decisões, procuro pensar o que eu gostaria que fizessem pelo condomínio onde moro, e concluí que precisávamos de uma modernização, até mesmo para valorizar as unidades. Por exemplo, o que mais se paga na cota condominial é a ocupação das áreas comuns, e as pessoas usufruem pouco delas. Então, minha meta é implantar projetos de lazer e sustentabilidade, trazer serviços úteis para dentro do condomínio”.

PRAZER E NÃO OBRIGAÇÃO

Para Almir Carvalho, 49, síndico de um condomínio com duas torres e 60 apartamentos, lidar com as pessoas e seus conflitos é um desafio e tanto. Em seu terceiro mandato, ele afirma que é fundamental gostar da função; ser uma pessoa idônea; ter disponibilidade de tempo para atender os moradores; zelar pelo seu patrimônio; ser imparcial e transparente; ter um Conselho Fiscal atuante e procurar atender, dentro do possível, as reivindicações.

“Ao assumir, mesmo já possuindo um planejamento, procurei saber quais eram as necessidades ou melhorias esperadas ou as necessidades de cada morador, e ficaram nítidas as diferentes opiniões sobre um mesmo assunto. Administrar essas divergências é uma dificuldade que existe até hoje. A melhor forma que encontrei em resolver diferentes situações foi discutindo com o Conselho Fiscal, procurando sempre uma melhor solução”.

Carlos Tadheo está à frente de um condomínio com sete prédios e 302 apartamentos e sempre se coloca na posição de morador quando precisa tomar uma decisão
Para Francisco Ramos, síndico há seis anos, seguir as regras e evitar as exceções é um bom caminho para uma gestão eficiente

Com a vontade de fazer do seu condomínio um ótimo lugar para se morar, tanto no aspecto de segurança, quanto na qualidade de vida, Almir se considera uma pessoa muito perfeccionista e não deixa escapar nenhum detalhe. “Como morador, tenho uma relação bem próxima com as necessidades do condomínio, e me incomodava de ver eventualmente uma lâmpada queimada, hoje tenho como evitar essa situação”.

Diferente do caso de Almir, que é síndico tradicional, eleito por ser morador de uma das torres, há prédios que optam por contratar um síndico profissional e remunerado. “Não vejo vantagens em ter um síndico profissional, pois ele não possui vínculo direto com os moradores e funcionários, ou seja, tem uma relação ‘fria’ com o condomínio como um todo. Já o síndico tradicional sabe melhor quais são as necessidades dos condôminos, afinal ele é um deles. Toda e qualquer melhoria que ele faça, será um benefício para sua própria qualidade de vida também”, aponta.

GESTÃO DE DEMOCRACIA

Síndico há seis anos de um prédio com 44 apartamentos, o comerciante Francisco Ramos, 58, prioriza o trabalho em equipe. Para ele, todas as decisões devem ser discutidas em assembleia, além de serem compartilhadas com o Conselho Fiscal.

“Minha função é fazer com que moradores e funcionários respeitem o regulamento interno, então evito dar punições muito severas. Na primeira infração, o zelador apenas conversa com o condômino, se não resolver, mando uma advertência por escrito. Se o morador insistir no erro, parto para a punição financeira, pois se a pessoa não respeita, é porque está desafiando a nossa autoridade”.

Eleito pela maioria dos votos, Francisco acredita que tenha conquistado a confiança dos moradores pela postura que sempre apresentou nas reuniões como morador e no seu mandato como subsíndico. “São 44 apartamentos, mas numa assembleia descem apenas 13 pessoas em média. Eu sempre fui muito ativo, gostava de dar ideias, estar a par de tudo. Acho que quem não participa, não adianta reclamar depois”, pontua.

Francisco considera esse um dos grandes desafios de sua vida. “Sou bastante rígido com as leis condominiais. Se fosse para tampar os olhos, eu não seria síndico. Ao mesmo tempo, gosto de ser justo, tento sempre ouvir ambas as partes, mas estou ciente de que, se fizer a minha parte, terei muitos amigos, mas também corro o risco de ter inimigos”, diz. E completa: “aceito e faço pequenas mudanças, desde que elas tragam benefícios ao edifício, mas procuro evitar as exceções. As regras existem para serem cumpridas”.

Entre as principais reclamações dos moradores está o barulho fora de hora. A fim de manter uma boa comunicação com os condôminos, logo que assumiu o cargo, Francisco se dispôs a toda segunda-feira, das 19h às 20h, atender exclusivamente as sugestões e reclamações em questão. “Infelizmente não funcionou. Eu ficava na recepção por uma hora e ninguém aparecia. Até hoje essa é a maior dificuldade: a falta de interesse e participação das pessoas. Mas não desisto, tento aparar as arestas constantemente, para não acumular”, finaliza.

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