Cor é luz 0 1021

O estudo correto das cores ajuda a transformar ambientes

Sim, cor é luz e luz é vida. Seria quase impossível imaginar a vida sem cor. Isso não é exagero. Tudo que nos cerca se apresenta com determinada cor devido à ação da luz nos órgãos visuais. Cada uma delas se apresenta com diferente comprimento de onda do espectro eletromagnético. E cada cor nos causa diferentes sensações e percepções.

Houve época em que o mundo parecia ser de tons sépia. Na idade Média, somente a nobreza e a Igreja tinham poder e condições econômicas de “produzir suas cores” com ricos materiais como pedra malaquita – verde, lápis-lazuli – azul, pedra ametista para bordados violeta, colchonilhas para o vermelho escarlate, moluscos para produzir a caríssima cor púrpura da Antiguidade. Quando falamos em cor, não nos referimos somente aos matizes vibrantes em tons quentes ou frios de uma caixa de lápis. Até mesmo os neutros, preto e branco, assim o são por absorverem todos as cores do espectro luminoso ou refletirem todas, respectivamente.

Hoje em dia, a cor é imprescindível em nossas vidas. Seu estudo está presente em todos os segmentos. Na gigantesca e alegre escultura de Juan Miró em Paris, na tela expressionista do russo Rothko, nos grafites urbanos que se transformaram em obras de arte e na eclética moda indumentária que vivenciamos hoje em dia.

Trabalhar com cores eficientemente não é uma tarefa fácil, principalmente quando temos que combiná-las em diferentes objetos ou elementos construtivos. Por isso, grande parte dos trabalhos em arquitetura e interiores são neutros e usam preto, branco, cinza, bege, madeiras, vidro, etc. Mas o ser humano enxerga colorido (a maioria dos animais enxerga preto e branco) e necessita psicologicamente da cor para compor seus estados emocionais.

Pela Teoria da Cor definimos as cores em primárias – luz (azul, verde e vermelho) e primárias – pigmentos (amarelo, azul e vermelho), secundárias, terciárias e complementares (opostas diametralmente no disco).

As roupas, objetos, ambientes e cidades necessitam de cor, cada vez mais. E elas realmente são poderosas em seus efeitos compositivos, que se assemelham às composições musicais. Para compor um acorde cromático é necessário trabalhar com cores consonantes, dissonantes, dominantes, subordinadas e acentos, da mesma forma como acontece na música.

A paisagem se reveste de alegria no Caminito, em Buenos Aires, e convida o turista a investigação quase sinestésica das cores com as notas musicais do tango portenho.
O verde aplicado na parede de encontro à escada se completa com a tela, trazendo tranquilidade à área de repouso.Cor da natureza, da família e do equilíbrio emocional, é excelente para área de trabalho por não causar fadiga visual.
A paisagem se reveste de alegria no Caminito, em Buenos Aires, e convida o turista a investigação quase sinestésica das cores com as notas musicais do tango portenho.

Selecionamos as cores a partir de um disco (pigmento ou luz) que muitos estudiosos elaboraram para entendê-las, como Isaac Newton, Leonardo Da Vinci, Johannes Itten. Mas é óbvio que cada profissional, artista ou leigo pode compor a sua harmonia. Mesmo porque as cores atuam diferentemente em cada pessoa. Mas, de um modo geral, sabemos que cores quentes (amarelo, laranja, vermelho) ampliam áreas e aproximam planos, aquecendo os ambientes, portanto são indicadas para casas de campo de clima frio. Já as cores frias (azuis, violetas e verdes) diminuem áreas, distanciando planos e “refrescando” os espaços. Por isso recomendamos tais cores em locais quentes, como cidades litorâneas.

A luz do ambiente também modifica as cores. As lâmpadas incandescentes tornam as cores mais quentes, enquanto as brancas tendem a esfriar as cores. Um vestido “vermelho caqui” retirado de uma vitrine com lâmpada “par” poderá se tornar um “vermelho carmim” em um ambiente com lâmpada fluorescente branca. Mas as cores tendem a se modificar na presença de outras, o que chamamos de contraste simultâneo, ou seja, um “amarelo gema” poderá se tornar um “amarelo canário”, dependendo do fundo ou presença de outra cor. Vamos imaginar um sofá amarelo numa parede pintada de azul e numa parede pintada de vermelho. No primeiro caso, o sofá parecerá de um tom mais luminoso/aceso ou “amarelo limão”, enquanto na parede vermelha parecerá mais alaranjado e apagado. Portanto, só devemos comprar um revestimento quando todas as cores de outros componentes estiverem definidas.

Quando escolhemos as cores, pensamos também nos aspectos emocionais que elas podem causar: medo, tristeza, alegria, estímulo, depressão. Além de tudo isso, existe o lado cultural na escolha. Por exemplo, realizamos o “luto” com a cor preta, mas alguns povos se vestem de branco para celebrar a passagem de uma vida para outra. O vermelho é cor de energia, vida, sucesso econômico (Feng Shui), mas também era a cor usada para afugentar os maus espíritos por povos primitivos. O azul é a cor da sabedoria, da nobreza e reflexão. O amarelo é cor da fé, renovação e esperança, enquanto o violeta representa o mistério e a própria morte. Para Kandinsky, o artista expressionista alemão, o verde é a cor mais tranquilizante porque não evoca nada – nem excitação, nem tristeza. Por isso é muito utilizada em ambientes que precisam manter neutralidade. Na antiguidade, o laranja representava prazeres carnais porque estava associada às orgias de Baco, o deus do vinho.

Seja qual for sua cor, utilize-a em algumas ou uma única parede, como cor subordinada e, de preferência, uma neutra como cor dominante. Escolha uma harmonia cromática para acessórios. Por exemplo, se você definiu o verde para uma parede, use o cinza ou gelo para as demais e alguns objetos com vermelho ou rosa. Evite a policromia (uso de várias cores) em áreas extensas e em ambientes de permanência prolongada: são vibrantes e alegres, mas podem estressar rapidamente. Boa cor!

Maria de Souza é arquiteta, paisagista e prof. de Linguagem Arquitetônica. Espaço Cor – Rua Tuiuti, 2916 Tel.: 2673-1116 – www.espacocor.com.br

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