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Considerado um distúrbio neurobiológico, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade gera agressividade, desatenção, agitação e pode atrapalhar o desempenho escolar

Você se aborrece e fica chateado facilmente por pequenas coisas? Seu humor tem altos e baixos? Toma decisões e diz coisas sem pensar, no impulso? Tem a impressão de nunca atingir por completo seus objetivos? Costuma trabalhar em mais de um projeto e não consegue acabar a maioria deles? Especialmente em grupos, tem dificuldade de permanecer focado nas conversas? Tem dificuldade de organização e planejamento das tarefas? Está quase sempre se movimentando, agitado? Pensa inúmeras coisas ao mesmo tempo? Está sempre “viajando” ou “sonhando acordado?”

Se você respondeu “com certeza” a pelo menos cinco das dez questões, talvez faça parte dos 3% a 6% da população que sofre de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, um distúrbio neurobiológico que afeta a capacidade de regular o foco da atenção, controle da agitação e dos impulsos. “Ainda não se sabe a causa desse distúrbio, no entanto estudos apontam a genética como responsável não pelo transtorno em si, mas por uma predisposição ao TDAH. O ambiente tem papel fundamental, pois pode agravar ou minimizar os sintomas”, aponta o neuropediatra Paulo Breinis, do Hospital Brasil.

Em geral, o TDAH aparece na primeira infância, ou seja, até os seis anos de idade, e a características que mais se destaca nos diagnósticos, realizados após os cincos anos de idade, é a hiperatividade. Segundo o Instituto Paulista de Déficit de Atenção (IPDA), padrões consistentes de inquietação, intranquilidade e choro excessivo devem ser alvo de observações mais sistemáticas. “Para caracterizar TDAH, é necessário que a pessoa tenha dificuldades em dois ou três campos da vida. Por exemplo: no desempenho acadêmico, na autoestima, nas relações sociais e no abuso de álcool e drogas. Crianças e jovens agitados não sofrem com tantos problemas nesses setores”, enfatiza Breinis.

O transtorno pode se manifestar de diferentes maneiras e intensidades em cada indivíduo. Para fins diagnósticos, há três subtipos: predominantemente desatento; hiperativo-impulsivo e combinado. “O desatento precisa ter seis ou mais sintomas de desatenção, mas menos de seis de hiperatividade. Com o hiperativo-impulsivo acontece a mesma coisa, ele deve ter mais de seis sintomas de hiperatividade-impulsividade, e menos de seis de desatenção”, explica a psicoterapeuta comportamental Cacilda Amorim, diretora do IPDA. E diz: “o subtipo combinado é o mais comum, e é caracterizado pela presença de seis ou mais sintomas de desatenção e de hiperatividade”.

HIPERATIVIDADE

A atividade motora ou verbal varia de uma pessoa para outra, levando em conta principalmente as características de cada personalidade e a capacidade de controlá-la, regulá-la e adaptá-la de acordo com a situação. Porém, quando se fala de hiperatividade trata-se de uma quantidade excessiva de atividade motora ou verbal, tendo como base a idade e situação a qual a pessoa se encontra. “Elas apresentam inquietude, ou seja, estão em constante movimento com os pés e as mãos, não ficam sentadas, falam excessivamente, são impacientes, erram por falta de atenção, se distraem com facilidade, deixam tarefas inacabadas, esquecem uma coisa simples, como escovar os dentes”, diz Breinis.

Desde que seja tratada, a hiperatividade tende a diminuir até a adolescência e, em alguns casos, pode até mesmo deixar de ser um problema ao início da idade adulta. Um dos maiores fatores de risco do TDAH é desenvolver outros transtornos mentais na vida adulta. A ocorrência simultânea de mais de um transtorno acompanhando o TDAH é mais regra que exceção. Segundo o IPDA, teorias recentes sugerem que certas alterações na estruturação e desenvolvimento cerebral que inicialmente estão relacionadas à manifestação do TDAH e seus sintomas, também representam fragilidades, que facilitariam a ocorrência de outros transtornos, como Transtornos Impulsivos de Comportamento, depressão e Transtorno Bipolar do Humor.

FAMÍLIA E FORMAÇÃO

A adolescência é um momento fundamental da vida, caracterizada por um processo de mudança corporal e comportamental, como alterações no humor, dúvidas sobre a sua identidade e etc., o que pode confundir muito o adolescente com ou sem TDAH. “Entender o distúrbio pode ajudar a tratá-lo melhor, então é importante que o neurologista ou psiquiatra conscientize e prepare os pais, professores e parentes para enfrentar essa fase em que o jovem toma muitas decisões importantes, que precisam ser pensadas. Hiperatividade não é falta de educação”, entende Breinis.

Na maioria dos casos, o TDAH se torna um desafio muito difícil no que diz respeito à escola, pois além de dificuldades com atenção e hiperatividade, há uma grande incidência de dificuldades de aprendizagem simultânea. Para Cacilda, no entanto é preciso tomar muito cuidado com qualquer rótulo. “Uma criança com baixo rendimento escolar pode sofrer de TDAH, mas também pode ser dislexia, déficits na alfabetização, dificuldade momentânea de ajuste emocional ou dificuldades em aceitar regras”, explica a especialista.

TRATAMENTOS

Após o diagnóstico feito por um neurologista ou psiquiatra, o tratamento abrange psicoterapia estrutural e organizadora na criança ou no adulto, envolvendo toda dinâmica familiar, medicação quando necessário, muita informação e conscientização do que é TDAH. “O objetivo maior ao usar medicação para o TDAH é alterar a condição bioquímica do cérebro e, portanto, sua condição funcional. A medicação tem efeito muito localizado – seu efeito desaparece em poucas horas, ela não faz milagres, apenas age melhorando a capacidade de focar a atenção e controlar a atividade motora excessiva”, destaca Cacilda.

É fundamental que a pessoa desenvolva competências que possibilitem conviver melhor com as limitações e, eventualmente, superá-las. Já a psicoterapia comportamental-cognitiva é a modalidade terapêutica mais estudada e mais eficaz para o TDAH. “O fundamento desse tratamento é a mudança de padrões de comportamento da pessoa. Ao mesmo tempo, são empregadas técnicas específicas para aquisição de um novo repertório comportamental, também dentro dos objetivos especificados”, aponta Cacilda. E completa: “a capacidade de lidar com frustrações e stress, de aceitar que a satisfação nem sempre é imediata, de gerenciar a própria vida envolvem aspectos emocionais, cognitivos e comportamentais”.

A perda de atenção é um dos sintomas do TDHA

Dicas do IPDA para lidar com a criança ou jovem com TDAH

Para os professores:

– Uma criança ou jovem com TDAH ou hiperatividade pode ser muito “comportado” às vezes – não necessariamente isso é uma escolha dele;
– Pode haver déficit de atenção sem hiperatividade. Normalmente, o que mais incomoda é a hiperatividade, porém boa parte dos casos de TDAH sofre especialmente com desatenção;
– Não tente culpar os pais pelos problemas da criança – nem os pais devem culpar a escola. Uma boa parceria ajuda a minimizar a carga, para ambos os lados;
– Antes de falar com os pais sobre TDAH, peça a opinião de outro colega ou do psicólogo da escola. Leve em conta o que é comum na faixa etária da criança;
– Convide os pais a observarem a criança na escola, para que eles vejam as diferenças entre a forma de agir de seu filho e as outras crianças;
– Crianças com TDAH podem se comportar muito bem em situações diferentes. O fato dos sintomas não estarem presentes todo o tempo não significa que a suspeita seja errada.

Para os pais:

– A qualidade do ambiente familiar afeta sobremaneira a evolução do TDAH. Cobranças serão necessárias; lembre-se que há deveres, mas também direitos;
– Conheça as facilidades e as dificuldades de seu filho. Use as facilidades como alavancas e encare as dificuldades como pré-requisitos que precisam ser desenvolvidos;
– Tenha um espaço próprio para fazer lição de casa, assim você elimina potenciais distrações e facilita a criação do hábito de fazer a lição completa;
– Mantenha canais abertos de comunicação com a escola. Você precisa estar a par do que é exigido na escola, para fazer o acompanhamento;
– Dê o tempo que a criança necessita para fazer as tarefas. Uma das piores saídas para lidar com as dificuldades do TDAH é criar regras muito rígidas.

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