Um gaúcho paulistano 0 681

Saiba o que o jornalista Milton Jung, um gaúcho profundamente engajado nas questões paulistanas, pensa sobre cidadania e os problemas da cidade de São Paulo

Envolver-se com a cidade onde se mora é um movimento natural do ser humano. Afinal, a cidade é a extensão de nossas casas. Mas a verdade é que nem sempre isso acontece. Mesmo hoje, com a informação (boa e ruim) disponível em qualquer esquina, há quem prefira não se envolver e manter uma certa distância do que acontece além dos limites dos muros de suas casas. Pois não é o que acontece com o jornalista Milton Jung, 48, um gaúcho que vive há 20 anos em São Paulo e se tornou referência para falar sobre a cidade e seus problemas. Afinal, foram mais de 10 anos discutindo e refletindo sobre a metrópole no CBN São Paulo, programa que apresentou até fevereiro deste ano, quando assumiu o Jornal da CBN no lugar de Heródoto Barbero. A reflexão sobre as questões urbanas e a cidadania o fez criar o ‘Adote um Vereador’, projeto que estimula a participação das pessoas na vida legislativa da cidade. Os resultados, ele espera, talvez sejam vistos nas eleições de 2012.
Confira nesta entrevista o que o jornalista pensa sobre a cidade e seus problemas, e também o que faz dele um legítimo cidadão paulistano, apesar de torcedor do Grêmio.

Como começou o seu envolvimento com a cidade de São Paulo?

No final de 1990, vim a São Paulo para assistir ao casamento de um amigo e aproveitei para fazer um teste na TV Globo. A pauta era um incêndio na Mooca e, quando cheguei lá, descobri que eram casas tombadas que estavam pegando fogo e que a discussão não era o incêndio, mas sim uma questão urbana. Era um patrimônio da cidade que estava se desmontando e pegando fogo porque ninguém cuidava. E transformei a pauta nisso. Parece que por destino a cidade foi se colocando no meu caminho. Quando mudei para São Paulo para trabalhar na Globo, comecei fazendo pautas da cidade. Quando fui para o rádio, em pouco tempo fui para o CBN São Paulo e aprofundei a discussão urbanística. Eu tinha convicção de que fazer um programa com a missão de ser um fórum de debates da cidade seria importante para a minha carreira. Pude desenvolver uma ideia que eu sempre tive de que é na cidade que tudo começa. Então, minha vida foi se aproximando de São Paulo, acabei casando aqui, meus filhos nasceram aqui e estou há 20 anos nesta cidade.

Na sua visão, qual o maior problema de São Paulo?

A mobilidade. E não me refiro ao trânsito que causa problemas, poluição e até mesmo mata. Falo do impedimento que o cidadão tem de andar livremente na cidade. Com o deslocamento restrito ele perde oportunidades. Então, mais do que pensar no meu carro que se desloca cada vez com menos velocidade e no tempo que eu levo para trabalhar ou voltar para casa, penso nessa pessoa que perde oportunidades pela falta de acesso aos lugares porque a distância é muito grande, o transporte é precário e ele não consegue melhorar sua vida em função disso. A questão da mobilidade toca na saúde pública e na educação, porque a pessoa não consegue ir para muito longe de onde ela está para ir a escolas melhores. E aí podemos pensar no caminho contrário. Você mora no extremo de São Paulo e a sua escola naquela região está predestinada a ser de baixa qualidade porque os bons professores não querem ir até lá, os médicos de boa qualidade não vão até o posto de saúde. Ou seja, o deslocamento é de ida e volta. Por mais que se coloque dinheiro, se queira fazer um prédio bonito, a qualidade de mão de obra é baixa porque pessoas que aceitam enfrentar esse acesso não são, necessariamente, os melhores profissionais.

Embora o poder público tenha responsabilidade, nós, cidadãos, também temos uma parcela de culpa no que acontece na cidade, não?

Nós destratamos São Paulo. Quando você pega a questão do lixo ou do entulho jogado em um canto, simplesmente responsabilizar a prefeitura é não estar atento ao que realmente acontece. Eu até responsabilizo a prefeitura, mas por outro motivo. O cidadão que faz uma reforma na sua casa e chama alguém para recolher o entulho mas não tem o interesse em saber qual o destino final daquele material, não é responsável pela sua cidade. Ele é responsável só pelo seu quintal. É preciso educação, conscientização e campanhas permanentes. Construímos uma cultura durante anos que não vai ser mudada em três meses. A prefeitura tem inteligência para isso, mas prefere gastar dinheiro em uma marginal Tietê que custa R$ 1 bilhão para a cidade em vez de trabalhar com a consciência. Porque você não pendura placa na consciência do cidadão dizendo ‘eu que inaugurei’. As pessoas não enxergam esse trabalho, isso demora a ter reflexo na cidade. E não dá pra culpar o cidadão que compra um carro para se deslocar, ou troca o ônibus por uma moto. Ele está sendo inteligente na sua lógica porque vê o custo que é andar de ônibus e o sacrifício que ele passa e pensa: ‘com a moto eu consigo sair daqui e chegar lá’. Já cidade tem que pensar por todos, em conjunto. A culpa da prefeitura é não trabalhar a consciência do cidadão.

Para o jornalista, está na hora da prefeitura começar a trabalhar a consciência da população

Lidar tanto com questões urbanas te fez mudar a sua relação com a cidade?

Sem dúvida, a cidade me ensinou. O caos de São Paulo foi pedagógico porque me mostrou que se você não fizer por sua conta, não mudar a sua forma de pensar, a cidade vai acabar. Quando o Maluf assumiu a prefeitura, depois da Erundina, fui cobrir os primeiros meses de governo e logo ele anunciou o fim da coleta seletiva, que era muito cara para a cidade. No momento em que ouvi aquilo, pensei: “tenho que separar o meu material”. Porque a única justificativa que não se pode dar a essa questão é que é caro. A qualidade de vida não tem um preço. Quando eu vi aquilo lembrei que meu irmão, tempos atrás, já tinha me cobrado do porquê eu não separar o lixo seco, algo que em Porto Alegre já se fazia. Eu disse: ‘tenho que cuidar disso na minha casa, não dá para esperar esses caras, não vai funcionar’. Infelizmente, eu ainda não consegui abandonar o carro, mas muitos hábitos já mudei. Hoje, ao comprar um produto, levo em conta o tipo de embalagem, por exemplo. Além disso, tento fazer ao máximo as coisas dentro do meu bairro.

E como surgiu o Adote um Vereador?

Em 2008, quando acabou a eleição e saíram os nomes dos 55 vereadores eleitos, um dado mostrava que 2/3 da população não conseguia eleger o seu representante. A importância do vereador é muito grande na minha qualidade de vida, sem contar que tudo que ele faz na câmara é com o meu dinheiro. Sou eu que pago, então tenho responsabilidade e obrigação de controlar. Por isso surgiu a ideia de adotar um vereador. O adotar significa escolher um dos 55 e passar a fiscalizá-lo, levantar informações sobre ele, que tipo de projeto ele vota, se comparece na câmara ou não, o que pensa sobre diferentes assuntos, e começar a publicar as informações em um blog. A ideia é ter uma rede de informações sobre um determinado vereador que, na próxima eleição, vai ajudar as pessoas a qualificar melhor o seu voto. Hoje temos 18 blogs acompanhando vereadores. E alguns desses participantes acompanham todos os vereadores, divulgam o trabalho da câmara e cobram todos. São fontes de informação não só do cidadão, mas também da imprensa. Infelizmente a sociedade só pensa na Câmara Municipal num momento de crise ou no período da eleição. Mas a nossa indignação tem que vir antes. A câmara vota uma lei e as pessoas reagem àquela lei. Eu digo que a indignação vem na hora errada. Se essa indignação tivesse vindo antes da votação, talvez você tivesse conseguido mudar o voto das pessoas.

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