Corpo em metamorfose 0 973

Com os músculos saltando e definição corporal aparentemente no limite, os fisiculturistas buscam a perfeição física com uma maratona intensa de musculação e dieta rigorosa

“Os limites existem para serem superados”. Essa é a filosofia que rege o fisiculturismo, conhecido como o ato do culto ao corpo e desenvolvimento muscular, levado a sério como um esporte. Para ser um bom fisiculturista é preciso criar forma muscular, treinando cada parte de um músculo em todos os ângulos possíveis, de forma que o músculo inteiro seja estimulado e alcance uma simetria e proporção completa do corpo.

Há inúmeras categorias dentro da modalidade, que separam os atletas por idade, peso, altura, massa e definição muscular, percentual de gordura no corpo e performance no palco. No Brasil, todas são reconhecidas pela IFBB e a NABBA, entidades que regem e organizam os campeonatos de fisiculturismo masculino e feminino (bodybuilding). Os critérios usados para julgar uma competição são baseados nos seguintes aspectos:

– Volume, que é o tamanho, formato, qualidade e densidade dos músculos em relação à estrutura esquelética;

– Definição Muscular, que é a separação entre grupos musculares, e mínima porcentagem de gordura e água entre a pele e o músculo;

– Simetria, ou seja, a estrutura de um físico relativo ao tamanho de várias partes corporais, forma, proporção e equilíbrio, resultando em um conjunto harmonioso;

– Apresentação, pois mostra postura, forma vantajosa e habilidade de posar, projeção e presença de palco.

No fisiculturismo existem três períodos de treinamentos, que exigem dietas e exercícios específicos, onde uma serve de base para a outra. A duração entre cada período varia de acordo com as datas das competições. A fase de hipertrofia, também chamada off-season, deve proporcionar o máximo de desenvolvimento muscular (o que não significa o mero aumento de peso corporal). Nessa época, os atletas se alimentam bastante para ganhar massa. Alguns preferem ficar mais pesados em off-season, outros controlam o percentual de gordura durante o ano todo. “No primeiro caso, o sacrifício é maior devido ao longo período de dieta de definição que vem depois. Além do mais, a dificuldade de segurar a massa magra aumenta. Enfim, cada um tem sua tática, pois o que interessa é o resultado apresentado no palco”, destaca o fisiculturista Bruno Levy.

Já a etapa do pré-contest é a que prepara o atleta para um campeonato. O foco é a definição muscular, a diminuição máxima do percentual de gordura corporal e a redução da retenção de líquido subcutâneo, poupando o tecido magro adquirido e tornando a definição muito mais aparente. Entre essas duas etapas há o período de transição, ou fase regenerativa, quando ocorre o descanso fisiológico e psicológico do atleta. Nesse tempo, o fisiculturista busca a manutenção de um nível adequado de forma física para, então, iniciar outro ciclo de treinamento.

Suplementos x Anabolizantes

Todos os fisiculturistas dizem usar suplementos alimentares e condenam o uso de anabolizantes. A nutricionista esportiva Lívia Hasegawa explica a diferença entre as substâncias. “Os suplementos são provenientes de alimentos, nos quais os nutrientes estão concentrados. Eles apenas complementam a alimentação e auxiliam a reposição de nutrientes. Já os anabolizantes são hormônios que interferem na produção hormonal do organismo, e podem causar câncer, irritabilidade, infertilidade, crescimento de pêlos em excesso, etc.”

Bruno Levy

Nome: Bruno Levy
Idade: 23 anos
Peso: 105kg (off-season)
Altura: 1,75m
Categoria do fisiculturismo: fisioculturismo masculino
Porcentagem de gordura no corpo: em torno de 10% (off-season)
*Em pré-contest, o peso de Bruno chega a 90 kg e a porcentagem de gordura a 2%

O começo: “Fui gordinho da infância até o fim da adolescência; então decidi praticar artes marciais. Os instrutores me recomendaram a musculação para melhorar a performance nas lutas e, devido à rápida resposta do meu organismo, resolvi me dedicar à modalidade”.

Campeonatos: “Depois de faturar o 2º lugar no Campeonato Paulista Novos 2007, fiquei afastado dos campeonatos profissionais. Meu foco agora é competir no fim do primeiro semestre do próximo ano, pois prefiro aguardar e mostrar uma condição competitiva no palco – já que meus colegas de categoria têm, em sua maioria, mais de 30 anos, e ainda estou com 23”;

Rotina de exercícios: “Em off season treino em média 40 minutos. Já em pré-contest treino no máximo 70 minutos e, se estiver com percentual de gordura alto, faço trabalho aeróbico três vezes por semana.

Dieta off-season: “Faço sete refeições por dia, utilizando carboidratos complexos (batata-doce roxa, inhame, macarrão integral, farinha de aveia, folhas verdes frutas etc), carboidratos simples, proteínas de alto valor biológico e gorduras essenciais (azeite extravirgem e castanhas em geral).

Dieta pré-contest: “Quanto mais perto da competição, mais restrito fica o cardápio. Faço 8 refeições por dia com proteínas, carboidratos, gorduras essenciais e vitaminas em geral.

Férias: “Cabe a cada atleta saber o quanto pode “furar” a dieta. O repouso é necessário, pois o excesso de treino provoca o over-training, com sintomas como cansaço, perda de força e apetite, irritabilidade e queda do sistema imunológico. Se isso acontece, tiro 15 dias de ‘férias’ e faço alimentação altamente nutritiva, com vitaminas e uma suplementação mais reforçada”;

Maior dificuldade: “No Brasil, é praticamente impossível viver do esporte, pela falta de patrocínios e pelas baixas premiações, quase sempre inferiores ao que o atleta gastou em sua preparação. Sem falar no preconceito com pessoas musculosas, em especial as mulheres. Isso é uma tremenda falta de informação, pois a referência são atletas masculinizadas pelo uso de esteroides e não as atletas do circuito competitivo, que são extremamente femininas.

Aline Rocha

Nome: Aline Rocha
Idade: 22 anos
Peso: 67,2kg (pré-contest)
Altura: 1,66m
Categoria do fisiculturismo: body fitness acima de 1,63m
Porcentagem de gordura no corpo: em torno de 10% (pré-contest)

O começo: “Em 2005, estava pesando 71 kg e entrei na academia para perder peso. Dois anos depois, estava com 45 kg, ou seja, magérrima. Mas minha alimentação estava completamente errada e acabei perdendo muita massa muscular. Nesse período, li livros de fisiculturismo a fim de descobrir como aumentar a massa muscular mantendo a saúde. A Enciclopédia de Fisiculturismo e Musculação, que mostra toda a trajetória do Arnold Schwarzenegger, me inspirou muito”;

Campeonatos: “Fiz minha estreia no campeonato Paulista IFBB – levando o terceiro lugar. Em seguida, fui classificada para o Brasileiro IFBB, levando ao sexto lugar. Neste ano, estou treinando bastante os membros superiores. Subi aos palcos no Campeonato Paulista IFBB e faturei o quarto lugar na categoria Body Fitness, acima de 1,63m”;

Rotina de exercícios: “No decorrer do ano, minha rotina de treinamento é de 40 minutos, de segunda a sábado. O que muda é a intensidade e a inclusão de exercícios aeróbicos próximos à data da competição. Também altero minha rotina de treinos a cada dois meses, para variar os estímulos e dar ênfase aos grupos que tenho mais deficiência

Dieta off-season: “Faço um controle de calorias e um cuidado para não subir demais o meu percentual de gordura. Para aumentar a massa muscular, aumento a ingestão de carboidratos (batata doce, pão integral, aveia, arroz) e mantenho a ingestão alta de proteína (frango, claras de ovo, peixe, carne vermelha patinho). E, geralmente, deixo duas refeições livres para comer o que quero, no sábado no jantar e domingo no almoço”;

Dieta pré-contest: “Me alimento a cada três horas, variando os alimentos conforme o período do ano. Reduzo totalmente a quantidade de carboidratos e gorduras, mas os alimentos, em geral, são os mesmos durante esta fase”;

Férias: “Mantenho a mesma qualidade de vida e tento me alimentar da forma mais saudável, até porque a alimentação vira um hábito e não um sacrifício. O fisiculturismo já virou um estilo de vida. Sinto-me mais disposta e com mais energia”;

Maior dificuldade: “O preconceito ainda é o principal problema, principalmente para as mulheres. As pessoas nos veem como um ‘monstro’ e, por algum motivo, são sempre as que não conhecem o esporte. Na verdade, temos apenas uma meta, como qualquer pessoa. Não existe sensação mais gostosa do que ver que todo o trabalho de dieta e treino se tornou real. O momento de subir aos palcos já é uma vitória”.

Alessandra de Oliveira

Nome: Alessandra de Oliveira
Idade: 29 anos
Peso: 67kg (pré-contest)
Altura: 1,70m
Categoria do fisiculturismo: body fitness acima de 1,68m
Porcentagem de gordura no corpo: em torno de 9% (pré-contest)

O começo: “Sempre gostei de praticar musculação e dos benefícios que ela proporciona ao organismo. Treino desde 1998 e sempre tive interesse pelo fisiculturismo e também pela rotina e estilo de vida dos atletas. Em 2005, me formei em Educação Física, já trabalhava como personal trainer, mas queria ter um novo desafio na minha vida. Encontrei no esporte uma maneira de vencer meus limites e mostrar para os meus alunos que, com determinação, conseguimos alcançar qualquer objetivo”;

Campeonatos: “Já participei de diversas competições com boas colocações, entre as mais importantes e recentes estão: Campeonato Brasileiro, em 2º lugar (07/2011); Campeonato Paulista, em 2º lugar (06/2011); Campeonato O Rei da Praia, em 1º lugar (01/2011); VI Copa Work Iron, em 1º lugar (12/2010). E em Julho, fui convocada para o Campeonato Sul Americano de Body Building e essa é a minha próxima meta”;

Rotina de exercícios: “Treino seis vezes por semana durante duas horas, sendo uma hora de musculação e uma de exercício aeróbico por dia. Trabalho cada grupamento muscular duas vezes por semana e faço, no mínimo, quatro séries com o máximo de repetições que consigo realizar com a sobrecarga estipulada”;

Dieta off-season: “Costumo, mesmo nos períodos em off, controlar a alimentação, mas libero um dia por semana para o que chamo de “dia do lixo”, ou seja, para comer o que gosto. Acho superimportante essa “folga”, tanto para o corpo quanto para a mente”;

Dieta pré-contest: “É baseada em uma fonte de carboidrato (arroz integral), uma fonte proteica (peito de frango) e shakes proteicos. Não como doces nem frituras e, para evitar a retenção, o sal é moderado e a água deve ser abundante. Faço cerca de cinco refeições, a cada três horas. Nessa época, minha rotina é muito mais regrada e não me dou ao luxo de fazer o “dia do lixo”;

Férias: “Procuro sempre manter uma alimentação saudável e realizar exercícios físicos, pois acaba sendo uma fonte de prazer para mim. Mas posso comer uma pizza no final de semana”;

Maior dificuldade: “É se manter no esporte, pois viver de fisiculturismo é muito caro. Os gastos com alimentação, suplementação, locomoção para as competições são muito altos. Infelizmente, no Brasil, a modalidade ainda não é muito valorizada e sofremos com a falta de patrocinadores, tendo que realizar outras funções para se sustentar.

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