Com vocês: Ary Toledo 0 1190

Colecionador de mais de 60 mil piadas, ele se orgulha de se apresentar de cara lavada, apenas com seu banquinho e violão, há 50 anos

Uma piada e a própria expressão facial. Esses são os instrumentos de trabalho do showman Ary Toledo, que está em cartaz no Teatro Silvio Romero com o espetáculo Ary Toledo a Todo Vapor. Com 73 anos de idade e 50 de carreira, Ary mostra, no palco, um show que mescla música e humor e é um resumo da carreira que começou no Teatro de Arena (um dos principais grupos de teatro do País, que teve entre seus principais nomes Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Viana Filho), se popularizou na televisão e continua rodando o mundo em diversas apresentações.

Mas a piada não é apenas o trabalho de Ary. É a sua vida. Não à toa, ele tem um acervo com mais de 60 mil piadas em sua casa. E cerca de 10% delas, garante que sabe de cor. “Posso te contar seis mil sem recorrer ao computador”, diz. E assim, durante o bate papo com a Revista do Tatuapé ele entremeia suas histórias com piadas, algumas impublicáveis.

Essa história toda começou, segundo Ary, ainda durante sua gestação. “Minha mãe dizia que eu não chutava, que eu fazia cócegas. Aí você vê que o ‘germe do humor’ estava incrustado em mim já na época da gestação”, conta. “Meu pai morreu quando eu tinha cinco anos. Mas minha mãe sempre disse que, quando eu nasci, ele deu risada, olhou pra mim e disse: olha o que nós fizemos!”, completa.

Hoje, olhando para trás, Ary acha que seus pais estavam certos, que o humor nasceu com ele e começou a aparecer ainda na infância, sem que ele percebesse. “Eu me lembro da primeira piada que fiz. Eu morava em uma rua poeirenta, estava jogando bolinha de gude com meus amigos quando passou o padre Arnaldo e perguntou onde ficava o correio. Expliquei e ele disse: ‘não fiquem aqui que essa poeira faz mal para a saúde. Vai lá na minha igreja que eu vou ensinar a vocês o caminho de Deus’. Aí eu respondi: ‘Vai tomar banho padre, o senhor não sabe nem o caminho do correio vai saber o caminho de Deus?’. Ele riu. E eu e meus amigos ficamos olhando um para a cara do outro sem saber porque ele estava rindo. É que não tínhamos consciência de que aquilo era humor”, relembra.

E exemplos como esse não faltam no repertório de Ary. À primeira vista, pode parecer que são piadas pensadas e ensaiadas, mas são apenas apontamentos espontâneos de uma criança. E foi com essa veia artística que ele começou a trabalhar no Grupo Amador de Teatro de Ourinhos e, quando decidiu vir para São Paulo, foi bater na porta do Teatro de Arena. Conseguiu o emprego (que não era o tão sonhado) de faxineiro. Mas com talento e uma certa perspicácia, logo passou a fazer parte dos atores do grupo. “Lembro como se fosse hoje. Falei assim: “Faxineiro…hahahaha..aceito”. Eles riram dessa inflexão. Quando eles riram, pensei “estou empregado”. Fiquei uma semana fazendo faxina, lavando privada, depois comecei a contar piada, mostrar música e o pessoal ficou meu amigo. Depois de uma semana, eu estava tocando. Foi assim que começou minha carreira de ator. Fiquei cinco anos como ator no teatro e depois passei a ser Ary Toledo, o showman”.

Do Teatro de Arena Ary ganhou espaço na televisão. E foi na TV Record que ele conheceu a cantora Elis Regina, que o levou para gravar um compacto com a música Pau de Arara, sucesso absoluto de vendas. “Eu fazia uma novelinha na Record, estava no intervalo, peguei um violão e comecei a cantar a música que eu cantava no Pobre Menina Rica, um musical que foi feito em 1963 no Teatro de Bolso no Rio de Janeiro. E a Elis ia passando, junto com o Manoel Carlos. De repente, ela parou. Pensei: ‘isso aqui vai dar emprego’. Ela disse: ‘É sua essa música?’. Respondi: ‘Não, é do Vinicius e do Lyra’. A Elis falou: ‘Você é humorista? Não é deles não, de quem é a música?’. Aí contei a história do musical. Ela falou: ‘Você topa ir cantar no meu programa (O Fino da Bossa)?’. ‘Topo, mas não tenho dinheiro para o smoking, eu ganho uma merda’. Aí me deram dinheiro para o smoking, fui, cantei, bisei e dois dias depois a Elis me levou na gravadora. O dono era um judeu e falou assim ‘Quem é Toledo? Mas ele não é conhecido, vamos gravar com Luiz Gonzaga, Luis Vieira, que tem mais nome, senão vai ser um fracasso’. Ela disse: ‘não vai ser um fracasso. Pode gravar que eu assumo’. Eu gravei, vendeu um milhão de cópias e dali um mês ele estava botando tapete vermelho para mim. Eu gosto de contar isso para deixar claro que nada caiu do céu. Foi tudo com muito sacrifício, com humilhações. E que isso sirva de exemplo para os jovens que estão começando, porque hoje falam que a menina é bonita e ela acha que já pode fazer novela na Globo”.

E foi mesclando a música (Ary toca cinco instrumentos), as piadas e a interpretação que ele conquistou seu espaço como showman, palavra que, segundo ele, é a que melhor o define. “Comediante é o ator que faz comédia. Não estou desmerecendo porque já fui comediante. O que eu quero dizer é que para fazer um show sozinho é preciso ter muito mais elementos. Eu canto, represento, uso a expressão facial, sou mímico, ator e diretor. Tudo isso somado resulta em um espetáculo chamado show”.

Um dos orgulhos de Ary é nunca ter se caracterizado para subir no palco. “Eu acho que a tipologia ofusca o talento do artista em, no mínimo, 50%. Porque ela também é engraçada. Nunca, em 50 anos de teatro, colei um bigode ou coloquei uma peruca. Nem em festa caipira eu pintava o dente. Não é preconceito, mas não me sinto bem. Se você me caracterizar, acho que não vou me sair bem no palco. Aqui, no show, eu faço no mínimo 50 personagens. Faço criança, cego, turco, sogra, professor, tudo usando somente a expressão facial”.

Apesar disso, Ary garante que nunca ensaiou as piadas na frente do espelho. Ele tem certeza que vai dar certo. O que não significa que nunca tenha enfrentado uma plateia muda depois de uma piada. “Foi em Portugal, há 30 anos. Fiz uma piada e eles não entenderam porque citava um produto que não havia sido lançado lá ainda. Foi um mutismo total”, conta. E como sair de uma situação dessas? “Nesses casos você tem que ignorar que entrou pelo cano e continuar o show”.

Além da falta de riso, que inevitavelmente vai acontecer, quem trabalha com humor tem que lidar com um outro desafio: afinal, o que pode ou não pode virar piada? Para Ary, o que determina isso é a autocrítica. “A gente tem noção do permissível. Eu estou muito calejado e falaria muito tempo aqui sobre autocrítica, porque eu vivi o período da ditadura. Aí muito mais autocrítica você tinha que fazer”.

Preso quatro vezes depois que foi decretado o AI5 (Ato Institucional número 5), ele acha que ainda teve sorte. “Na época em que fui preso, meu compacto simples com a música Pau de Arara estava estourado na rádio e vendendo adoidado. O pessoal do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) tinha, o Coronel tinha. Quando me viu, o Coronel falou: ‘Ary Toledo, você aqui! O que você andou aprontando lá no teatro?’ Logo que saiu o AI5, terminou o espetáculo e eu me despedi do público como sempre fazia: ‘Boa noite! Se gostaram, divulguem. Não é um espetáculo com mulheres de pernas e bunda de fora, sou eu, meu violãozinho, minhas músicas e minhas piadas! Mas, como diz o ditado: quem não tem cão caça com gato e quem não tem gato caça com ato’. Aí foram dois agentes do SNI (Serviço Nacional de Informação) e me disseram que eu estava intimado a acompanhá-los. Lá no Dops, eu disse que estava arrependido, banquei o puro, o submisso. Fiquei umas três horas de castigo e depois fui solto. Imagina se esse coronel não gosta de mim?”.

Com a atual patrulha do humor ele ainda não teve problemas, mas diz que sabe as piadas que pode e não pode contar. “Tem algumas que a gente morre de vontade de dizer no show, mas sabe que não pode”. E, afinal, o que ele quer mesmo é fazer o público rir. Para isso, precisa ser o mais espontâneo possível. “O riso desobriga a pessoa do raciocínio. Quando ouve uma piada, você não pode ficar tentando analisar, senão perde a próxima. Tem que se entregar, esquecer que aquilo é falso, achar que aquilo é verdade para poder saborear, senão não vale a pena”.

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