Anjo da amamentação 0 912

Especialista em lactação, Grasielly Mariano ajuda as mulheres a amamentar mais e melhor

Foi só na hora de amamentar a segunda filha que a enfermeira Grasielly Mariano, 30, se deu conta do quão doloroso e sofrido esse processo pode ser para a mulher. “Quando meu primeiro filho nasceu, não tive problema nenhum com aleitamento materno. Eu tinha 19 anos, e do jeito que o colocaram no meu peito na maternidade ele ficou. Depois de 10 anos, nasceu meu segundo filho e aí tive todos os problemas possíveis e imagináveis. O parto foi prematuro e desenvolvi fissura e rachadura ainda na maternidade. Sofri horrores com dores e os problemas continuaram depois da alta hospitalar, porque a responsabilidade do hospital com a criança e com a mãe é só de dois dias. Então, os problemas vão aparecer mais em casa mesmo”.

Foi aí que um anjo, como ela costuma dizer, apareceu na vida de Grasielly. Por causa de uma dosagem um pouco alta de um remédio que estava sendo ministrado em casa, ela precisava amamentar bastante a filha para que a medicação fosse metabolizada mais rápido. E, cheia de dores no quarto de hospital, uma enfermeira já senhora a olhou, disse que ela estava fazendo tudo errado e a ensinou a segurar o bebê corretamente (posicionamento) e a ajudar a criança a fazer a pega correta (o jeito que bebê pega no mamilo). “E foi quando a minha filha tinha 28 dias de vida que eu aprendi a amamentar e nunca mais tive dor, fissura ou rachadura”. Até hoje Grasielly se emociona quando conta essa história. “Era uma senhorinha e eu nunca mais esqueço seu rosto porque foi muito emocionante. Como enfermeira, eu disse que nunca iria deixar nenhuma mãe que chegasse até mim passar por isso: não conseguir amamentar por problemas tão simples e fáceis de resolver. E aí decidi me especializar em lactação”.

Depois de fazer cursos nos Estados Unidos, Canadá e Espanha, ela começou a prestar consultoria para as mães que querem amamentar, mas sofrem com dificuldades. Agora, vai lançar o livro Socorro, eu não sei amamentar, com dicas para as mulheres que estão amamentando ou pretendem amamentar. “O que eu percebi é que os problemas da amamentação são subdiagnosticados. E a gente não tem muitos pediatras amigos da amamentação. Eles se preocupam muito com a questão da saúde do bebê, mas não estão afinados sobre o que se pratica a respeito do aleitamento materno. Então, como eles não têm muito tempo pra ficar com a mãe e orientar uma mamada, ao sinal da menor dificuldade já pedem para complementar com o leite artificial”. E a chance de desmame a partir do momento que você introduz a mamadeira é muito grande. “O bebê faz confusão de bico e quer o mais fácil. Porque, com a mamadeira, ele não precisa fazer a mesma força que faz para sugar do peito”.

Um dos temas no qual Grasielly se especializou é a relactação, uma técnica muito útil, mas subutilizada. Nela, uma parte de uma sonda é colocada no bico da mamadeira e a outra parte vai acoplada ao mamilo. Quando o bebê pega o bico para mamar, ele recebe o leite da mamadeira e, ao mesmo tempo, estimula a mama a produzir prolactina e ocitocina, os principais hormônios responsáveis pela produção de leite. Aos poucos, conforme a mulher for produzindo leite, a sonda é retirada. “A relactação é usada quando a mulher parou de amamentar e quer voltar ou quando tem baixa produção de leite. A mesma técnica é usada em mulheres que adotaram os filhos, mas aí chamamos de Lactação Induzida”.

Grasielly teve duas experiências distintas em amamentação. Com o primeiro filho o processo foi sem dores e sofrimento. Já com a filha, ela só parou de ter problemas depois que uma senhora a ensinou a amamentar

Natural ou instintivo

Embora a amamentação seja algo natural e acompanhe as mulheres desde os mais remotos tempos, Grasielly faz questão de dizer que não se trata de algo instintivo, por isso as técnicas e os cuidados são importantes. “A grande maioria das patologias da amamentação são relacionadas à pega e ao posicionamento do bebê”, explica. “A gente teve muita mudança com aleitamento materno. Antigamente, as mães davam papinha aos 3 meses. Uma época antes da industrialização, o aleitamento tinha uma proteção maior. Na década de 1970, as mulheres começaram a ir para o mercado de trabalho e a taxa de aleitamento caiu. Agora as mulheres estão deixando para ter filhos mais tarde e pensam na amamentação como um instrumento para se sentirem completas na maternidade, mas o desmame precoce ainda é uma realidade”, completa.

A Organização Mundial de Saúde e o Ministério da Saúde preconizam que até os 6 meses as crianças devem receber apenas o leite materno. Depois desse período é que deve começar a complementação com outros alimentos e manter até os dois anos. Mas, para Grasielly, o aleitamento materno é o ideal no momento que a mãe e o bebê querem. “Porque chega um limite em que depende das circunstâncias da amamentação. Tem que ser prazeroso para os dois. A motivação da mãe é um fator muito importante”.

No mês passado, a amamentação virou um assunto muito comentado no País porque uma mulher foi proibida de amamentar em público no Itaú Cultural, em São Paulo. Muitas mães organizaram um movimento chamado de “mamaço”, para protestar e mostrar o quão digno é dar o peito para seu filho em público. “Eu acho isso superimportante, porque estimula as pessoas a ter contato com aleitamento materno. E nós não temos contato. As nossas bonecas vêm com chupeta e mamadeira, não vem com peito acoplado! A gente acredita que se as pessoas tiverem mais contato com a amamentação vamos conseguir proteger e promover o aleitamento materno”.

Lançamento do livro Socorro, eu não sei amamentar, de Grasielly Mariano. Quando: Dia 15, 16 e 17 de junho, às 14h. Onde: Mammy To be. Rua Major Prado, 54 – Moema. Tel.: 5049-0310

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