Futebol com as mãos? 0 1063

Jogar futebol com as mãos é uma arte apenas para goleiros e atletas do futebol de mesa, uma modalidade com cara de brincadeira de criança, mas que tem até federação.

Um “passatempo” oficialmente reconhecido como esporte, o futebol de mesa, ou de botão, como é chamado no linguajar popular, foi inventado em 1930 pelo brasileiro Geraldo Cardoso Décourt. Nas garagens do País do futebol, a molecada já jogou futebol de botão com peças feitas de coco, tampas de relógio, osso, plástico e fichas de pôquer. Hoje profissionalizado, as mesas são de placas resistentes e os botões feitos em acrílico ou madrepérola. A bola, que já foi feita de miolo de pão e papel laminado, hoje é feita de feltro ou plástico sob medida, podendo ser achatadas ou esféricas, dependendo da modalidade.

Ao contrário do futebol de campo, o de mesa não arrasta multidões e nem desperta tanta euforia. É um esporte de concentração e estratégia no qual o jogador não precisa ficar correndo por um campo de mais de 90 metros. “No Brasil, existem três modalidades oficiais que são bastante difundidas: 12 toques, 3 toques, Disco e uma quarta, mais recente, experimental no País, que é a Sectorball”, explica o jogador e assessor de imprensa Daniel Stankevicius, o Stan, da equipe de Futebol de Mesa do Corinthians.

Como no futebol de campo, o grande objetivo do futebol de mesa é fazer um gol. Porém, na partida de mesa, uma única pessoa comanda todos os botões do seu time e os posiciona segundo algum esquema tático. Com uma palheta, usa outro botão pra fazer os botões-jogadores empurrarem a bolinha. Dependendo da modalidade em disputa, ele pode movimentar as peças de determinada maneira e um certo número de vezes. Não existem faltas, mas o pênalti pode ser cobrado caso o goleiro seja derrubado pela bola na hora de tentar o gol. Em determinadas circunstâncias, o goleiro poderá ser deslocado manualmente no interior da pequena área, não sendo seu deslocamento considerado lance. Ele só poderá obstruir lance do adversário caso já esteja colocado em tal situação, quando da vez de jogar de seu técnico, ou ao ser anunciado arremesso a gol pelo adversário. Quando for finalizar o lance, o jogador precisa avisar seu adversário para que ele posicione o goleiro onde achar melhor.

Um elemento muito importante na partida é a palheta, aquele objeto com o qual o jogador dá impulso aos botões. Tão importante que, às vezes, o jogador muda de time, mas não de palheta. “Eu, particularmente, uso uma que é feita de celuloide, que é um tipo de casco de tartaruga”, revela Harutiun Muradian, o Mura, coordenador do departamento de futebol de mesa da Sociedade Amigos de Vila Maria Zélia. Segundo ele, pelo Brasil ser o país do futebol, o futmesa acaba sendo uma fantasia do futebol. “Você monta os times que acha mais interessante para tentar passar toda a sua habilidade no esporte, pois o jogador acaba sendo técnico e torcedor, e assim se envolve muito com o jogo”. Devido à diminuição da procura, precisaria ter uma divulgação muito forte para se tornar um esporte olímpico. “Mas acredito que dá para conseguir novos adeptos, para dar uma renovada no meio; afinal já temos alguns esportes de mesa, como o tênis, que é muito bem aceito no cenário olímpico”, complementa ele. Para o botonista, é muito difícil concorrer com os videogames e computadores. Para atrair crianças e jovens, um ponto de partida seria as escolas, principalmente as de menor poder aquisitivo, despertarem o interesse de seus alunos. “Essa tarefa com certeza tem que ir além de uma federação. Todo botonista tem que ser um embaixador do esporte”.

Em São Paulo, existem 20 clubes filiados à Federação Paulista (www.futmesa.com.br), além de mais de 2 mil botonistas espalhados pelo Estado. Uma parte federada e a outra que joga apenas em garagens ou casas de amigos. Desse todo, a participação da mulher no futebol de mesa, tem uma porcentagem mínima. “Até hoje, vi apenas uma menina jogando como federada e ela era filha de um botonista. Seria muito interessante ter um campeonato feminino de futebol de mesa, assim como já vem acontecendo com o futebol”, destaca Stan.

OS BOTONISTAS E SEUS CLUBES

Stan, do Corinthians

Daniel Stankevicius começou a jogar com 9 anos e hoje é atleta do Corinthians

– Infância: “Minhas primeiras palhetadas aconteceram ainda na infância, aos 9 ou 10 anos. Cerca de 15 amigos colocavam os estrelões (campos de madeira) na rua e jogávamos o dia inteiro. Não existiam muitas regras. O goleiro, por exemplo, era uma caixinha de fósforo com areia dentro, mas alguns colocavam pedras para que ele ficasse mais pesado e mais difícil de ser derrubado. O meu primeiro time de botão foi um Corinthians”;

– Importância do esporte: “Todo jogador de futebol de mesa tem o espírito de jogador de futebol ou treinador. Não existe coisa melhor do que eu pegar meu time antes de uma partida e escolher a escalação. É uma mistura de lazer, esporte e hobby, para diminuir a tensão do dia a dia. Mas, a partir do momento que você se federa e começa a representar um clube, as responsabilidades ficam maiores. Treino todas as terças e quintas, às vezes aos sábados”;

– Títulos: “Conquistei alguns importantes. Pelo time do Maria Zélia, foram dois títulos paulista por equipes. Pelo Corinthians, já foram um paulista aspirantes por equipes e um Interestadual (Rio – SP). Individualmente, já fui campeão de um torneio aberto juvenil (1993) e mais alguns vice-campeonatos importantes, realizados pela Federação Paulista de Futebol de Mesa”;

– Coleções: “Atualmente tenho oito times de acrílico. Tenho guardado até hoje o meu primeiro time de quando me federei, é um Milan. O que eu mais gosto é um Corinthians, com a escalação de campeão brasileiro de 1990, que fica guardado na minha casa”.

Mura, do Clube Vila maria Zélia

Harutiun Muradian, o Mura, chegou a disputar um mundial que aconteceu na Hungria

– O começo: “Aos seis anos, brincava em casa com os amigos. Quando tinha uns 27 anos, um amigo veio me contar que tinha um grupo jogando na Gazeta Esportiva, mas fiquei com certo receio e falei: ‘vai você, se der certo eu vou’. Então ele foi, participou e achou super bacana. Em meados de 1980, tomei coragem e comecei a participar profissionalmente de competições na Água Rasa. Trabalhei 30 anos numa rede de telefonia, então fiz um time oficial com o logotipo da empresa e organizei competições com uma equipe de funcionários”;

– Importância do esporte: “Hoje, o futebol de mesa é a minha principal atividade. Me aposentei há dois anos e, desde então, tenho vindo de segunda e quinta à noite, e sábado à tarde ao clube. Apesar de ser um esporte, levo muito a sério a organização das competições, por isso também pode ser encarado como um trabalho”;

– Títulos: ”Felizmente já participei de quase todas as competições possíveis. A mais importante foi a final do mundial, que aconteceu há dois anos, na Hungria. Por pouco não deu pra ganhar, mas consegui faturar o vice-campeonato. De resto, já ganhei o Campeonato Brasileiro, na categoria individual; fui campeão paulista individual; faturei torneios abertos, por equipes e etc. Cada conquista tem sua importância na minha vida”;

– Coleções: “Tenho quase 100 times montados. A maioria é básica, feita de acrílico. Meu primeiro time está guardado num quadro. Outro que tenho o maior apreço é o do Barcelona, super bonito, decorado, quase uma relíquia”;

– Futebol de Mesa do Clube Vila Maria Zélia: “Infelizmente devido à concorrência do videogame, caiu bastante a procura do futmesa. Fazemos torneios todas as segundas e quintas à noite e sábados à tarde, com cerca de 8 a 10 pessoas. As competições começam e terminam no mesmo dia e todo o cronograma pode ser acompanhado pelo site.

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